A diarista, os jardineiros e a fronteira, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia a coluna do jornalista Rafael Tourinho Ramundo no site do Jornal Panorama.

A diarista, os jardineiros e a fronteira

Ela tocou a campainha por volta das nove da manhã. Trajava calça preta e um suéter discreto. Pela aparência daquela senhora de meia-idade, julguei que fosse uma vizinha atrás de alguma informação. Porém, a mulher me explicou que procurava trabalho. “Faxina, babá…”, ela listou, numa voz calma e um tanto hesitante. Respondi que não estávamos precisando desses serviços aqui em casa e lhe desejei boa sorte. A desconhecida agradeceu e seguiu adiante em sua bicicleta.

Mais tarde, peguei-me pensando no ocorrido. Não foi a primeira nem a segunda vez que alguém bateu à minha porta buscando atividade remunerada. Geralmente são homens em roupas de segunda mão e com a pele castigada do sol, que se oferecem para cortar a grama. Muitos deles puxam os “érres” e engolem os plurais, numa fala típica de quem vem do interior do município.

Aquela mulher era diferente. Seu português polido, com frases bem-colocadas, denotava que ela havia tido instrução formal. As vestes não eram de uma pessoa que passasse necessidade. Bem dizer, ela poderia ser minha tia.

Imaginei o que a teria levado a sair de porta em porta disponibilizando seus préstimos de diarista. Viuvez? Demissão do antigo emprego? Mãe idosa no hospital, o que causara um rombo nas economias devido ao tratamento? E confesso que fiquei consternado frente a todas essas possibilidades.

Foi então que tive a epifania: emocionei-me porque me vi um pouco naquela estranha. Ela poderia ser minha parente, afinal. Era como se um membro de minha família estivesse naquela situação. Não que atuar como babá ou faxineira seja demérito, longe disso. São funções dignas. Ocorre que, pelas oportunidades que a vida nos deu, as mulheres do meu círculo nunca precisaram pedir trabalho na residência de terceiros.

E aí veio-me um pensamento desconcertante: a cena daquela manhã mexera muito mais comigo que todas as vezes anteriores, quando dispensei os serviços de potenciais jardineiros. Eles certamente enfrentavam dificuldades. Eram jovens, mas pareciam envelhecidos por causa da lida braçal. Teve um que levava duas crianças pequenas num carrinho, em meio a pedaços de papelão e sucata. Por que será que essa dura realidade não me causava tanta angústia quanto a da senhora bem-vestida na bicicleta? Talvez porque, no fundo, eu soubesse que aqueles caras não seriam meus parentes.

Escrevo estas palavras com total consciência do preconceito que elas carregam. Ao revelá-las, percebo que estabeleci uma barreira entre mim e “os outros”. Habitamos a mesma cidade, bebemos a mesma água e respiramos o mesmo ar. Ainda assim, há alguma fronteira – econômica, cultural ou política – que nos separa, tornando-me mais sensível aos problemas financeiros de uma moradora do Centro que à penúria de uma família de catadores de lixo.

Não defendo a divisão de classes. Acredito que respeito, justiça e dignidade servem para qualquer indivíduo, independentemente do bairro onde viva ou de seu grau de escolaridade. E, apesar desse meu idealismo, caí na armadilha de compadecer-me por quem aparentemente pertencia ao meu estrato social. Resta saber até quando eu, você e todos os cidadãos agiremos assim.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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