A dor maior, por Doralino Di Souza

Tempo Contado

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

A dor maior

Naquele sábado acordou bem cedo. Depois dum café, que lhe pareceu amargo em demasia, sentou-se na varanda, no velho sofá, onde às vezes um gato branco que ela nunca soube de quem era, vinha cochilar. Tem plena consciência de que, após tantos anos, é a única pessoa na casa. No entanto, desta vez, a quietude lhe incomoda. Antes, quando acordou, achou que deveria sair e espairecer, apenas caminhar e olhar o nada, mas não conseguiu. Vai continuar aninhada, abraçada aos próprios joelhos, o pensamento no vagar.

Sem conseguir evitar, lembrou-se da filha. Adulta mocinha pequena miúda recém-nascida antes do nascer. Sonhou muito com aquele bebê, porém, quando nasceu, não era a criança esperada. Ao sair do hospital o chão lhe pareceu um lodo movediço, a neném no colo era uma desconhecida, e o que as outras pessoas lhe diziam era pesado e cansativo.

Depois vieram médicos, exames, remédios, temporadas em hospitais. Um dos especialistas diagnosticou categoricamente que a menina jamais seria normal. Essas as palavras: sua filha não era normal. O pai da criança não aguentou o rojão, era fraco dos nervos, ou tinha carreira pra seguir, ou era apenas cagão. Um dia saiu pra comprar cigarros e Gardenal, nunca mais deu notícias. Ficaram as duas. Aprendizes se conhecendo. Ela encontrou sorriso naquele rostinho caído e definiu que não seria abdicação nenhuma dedicar sua vida à filha.

Agora, passados tantos anos, encontra-se sozinha. Dizem que é mesmo assim, um dia todos se vão. Nisso resolveu sair do sofá onde estava sentada e foi até o jardim. Havia formigas carregadeiras atacando as margaridas e por instantes teve vontade de esmagá-las. As formigas seguiam enfileiradas e ela ficou observando o movimento dos insetos, atarefados e organizados naquilo que decerto é a sina das formigas. Depois olhou no entorno e visualizou tudo de novo; grama bem aparada, o balanço feito com pneu, amarrado com corda no galho do cinamomo, um chafariz que ganhou num bingo beneficente e que nunca instalou água. Usava-o apenas como alimentador de pássaros. Ela sempre achou que o vai e vem dos passarinhos fazia bem à filha. A criança encolhida e imóvel na cadeira de rodas parecia encantar-se com a fuzarca dos pequenos voadores.

Andou pouco mais e parou junto às grades de ferro da cerca. Os braços cruzados. Olhar no horizonte, para além da rua que lhe pareceu sem fim. Sempre dizia que quando Deus chamasse sua filha iria viajar pelo mundo, e fazer essas coisas que as pessoas prometem para si mesmas, mas por algum motivo, acabam nunca cumprindo. Só que agora, sozinha, não sente vontade de ir. Envelheceu, o corpo não sustentaria o voo, ela pensa. Também não teria sentido uma viagem solitária e nostálgica, conclui. Resolveu entrar e preparar um chá. É inverno e ainda não se acostumou com o frio repentino da nova estação. Como não se acostumou com a dor maior que o novo ciclo da vida lhe trouxe.

 

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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