A fábrica e o tempo, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

A fábrica e o tempo

No primeiro dia achou estranho o apito da fábrica. Grito estridente chamando com força. De rogado ninguém se fazia, todos atendiam ao chamado. Todos cheios de pressas. As gentes em suas bicicletas, com suas garrafas térmicas e suas merendas. Todos correndo ante ao alarde sonoro. Entendeu que não era o sol, tampouco o canto do galo que avisava dia começado. Sim, o apito. Entendeu que serviço não era mais no arado, nem no capinado, nem no buscar da cana, nem no tirar leite ou qualquer outro que tanto gostava. Era na fábrica, num fazer sempre igual, com chuva ou sol que racha.

Lembrou-se do velho pai, falando sem rodeios: “Vai e te arruma na vida, aqui, me viro como dá.  Teu irmão se empregou no Daer, vai trabalhar pro governo, tá segurado. Tu também precisa se fazer, ter carteira assinada”.  Entendeu que era preciso ir, que o dinheiro naquelas bandas andava miúdo, os sonhos de vida em conforto, ali, não iam se realizar. Assim veio pra cidade. Trabalhar na fábrica.

O descansar, na pensão, depois do ofício, tinha gosto de saudade que, aos poucos, ia sendo distância. Virando parte daquilo que se queria. Que buscava. Os dias, passando em horas ocupadas, nem mais foram notados. Sonhos de vida melhor virando presença: um comprar de casa, de moveis bonitos. Um carro. A esposa, essa, tinha conhecido no refeitório da fábrica, namoro depois do almoço. Os rebentos vieram em par, coisa linda de ver. O machinho puxou ao avô, decerto o velho dizendo.

A vida justa, na medida do acerto. Feita de trabalho, de cansaço, mas sendo boa, sem reclamação. A fábrica, sua rotina no contado de cinco dias, no amontoado de tantos anos. Os filhos crescidos rápido que nem preá. Uns indo pra fábrica, outros querendo estrada diferente. Todos no serviço, que essa lição, aprendeu e ensina.

Então, o tempo, que não olha em espelho, se mostrou sem remorso. A carteira de trabalho anunciava o que o corpo recusava admitir: aposentadoria.

Ele pensa em voltar pra terras que eram do pai. Criar um gadinho. Vai reformar a estrebaria. Erguer as parreiras. Arar a terra, plantar. Sim, claro que pode. Ainda sabe fazer daquilo um tudo. Vai levantar cedo em dias de sol e ouvir a goteira no canto da casa em dias de chuva. Sim, pode.

Ainda antes do dia clarear escutou o cantar do galo. Sabe que já não precisa obedecer ao chamado. Mas não consegue deixar de ouvir.  E prestar atenção. E sentir certa saudade do apito da fábrica.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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