A mula, por Plínio Zíngano

Leia a coluna "Penso, Logo Insisto", assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – Não importa se foram ditas verdades ou mentiras. O que importa é como foram ditas as verdades ou as mentiras. A isso chamamos de propaganda!

A mula

Recebi, pelo Messenger, um vídeo para compartillhar. A introdução era uma mensagem, supostamente, de um correspondente meu e dizia: “Oi, tudo bem? Faz um favor pra mim. Compartilha esse vídeo para todos os seus amigos, não precisa nem assistir, mas se vc assistir. Tenho certeza que vc tomara a decisão de compartilhar. Muito obrigado”. Mantive e grafia original através do Ctrl+C, Cttrl+V, com todos os seus erros de redação.

Fiquei pensando: por qual razão alguém me mandaria um vídeo, num canal privado de amizade, pedindo o seu reenvio, mesmo desconhecendo o conteúdo? Além disto, mantinha-se à minha disposição para resolver qualquer dúvida. Se eu quisesse, era só escrever. Mas não era importante esta parte da missão. O importante, isto sim, era passá-lo adiante, ou seja, um nefasto compartilhamento. Senti-me sendo considerado um otário que, por algum dinheiro, se arrisca a levar drogas para outros países, a soldo de espertos distribuidores dessas drogas. São conhecidos como “mulas”. Envergonhei-me por ser considerado assim tão estúpido. Fiquei deveras incomodado pelo excesso de confiança da pessoa. Não sei se esse remetente chegou a saber o teor da mensagem ou se usara a prerrogativa concedida, igualmente, a mim, de dar-lhe seguimento sem ver. Aliás, imaginei a seguinte situação de total absurdo: um vídeo criado, tendo a opção de ser passado adiante sem ser visto, poderia chegar a milhões de destinatários com o seu real significado desconhecido. Bastava compartilhá-lo sem vê-lo.

Obviamente, depois deste preâmbulo, vocês já devem ter percebido a interrupção da sequência de reenvios dos quais eu seria, apenas, mais um elo. Não gosto dessas  operações, pois elas se configuram como uma daquelas antigas correntes em cartas datilografadas, ameaçando com o fogo do inferno quem se atrevesse a interromper a progressão geométrica resultante da operação. Só respondo correspondência privada com caráter e objetivos personalizados ou interajo com as postagens públicas depois de ler. Porém muita gente, simplesmente, curte as publicações sem ter tomado conhecimento do conteúdo delas. Era o pedido do meu ex-amigo com relação à mensagem em questão (sim, ex-amigo; na minha caixa postal não permito nenhum tipo de spam e isso foi um spam). Deletei por abuso de confiança.

Gosto muito de receber mensagens eletrônicas, mas não perca tempo se o seu objetivo tiver intenção ideológica, por mais salvadora  que você a considere. Não vou ler, quanto mais passá-la adiante!

Por Plínio Dias Zíngano
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