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“A pandemia e a arte da guerra”

“A pandemia e a arte da guerra”

Você provavelmente já ouviu falar milhares de coisas sobre a pandemia do Covid-19, ou novo coronavírus. E, a essa altura, não me atrevo a imaginar qual sentimento domina sua vida e comportamento. Eu mesma admito que nas últimas semanas experimentei os mais diversos, e tive que me policiar para não ceder ao pavor das informações que recebi. Pensei em escrever outras mil coisas, mas resisti até me sentir segura de que não alimentaria o ciclo da desinformação ou desserviço.

Nessa semana retorno ao posto de colunista para chamar sua atenção sobre, pelo menos três fatos que demonstram que a pandemia do Covid-19, além de ser uma ameaça real à saúde e à vida, também pode ser uma “arma” de guerra. Mas o lado positivo é que, entendendo isso, temos chances, também reais, de vencê-la.

Teoria da conspiração? Não, curiosidade! Pode parecer estranho, mas uma das primeiras lições que um profissional da Comunicação aprende – ou é orientado a aprender – é desconfiar do que lê, ouve e/ou assiste nos noticiários. Buscar outras fontes, cruzar informações e questionar sempre são alguns dos exercícios obrigatórios da rotina de um repórter. Isso porque, mais do que qualquer outro profissional, sabemos que não apenas as palavras de aprovação ou reprovação podem ser usadas para “direcionar” o público em relação a algo ou alguém. Para alcançar interesses, existem muitas outras estratégias.

E por falar em estratégia, observando o cenário político e econômico estimulado no mundo, e principalmente no Brasil, não pude resistir à comparação deste panorama com o de uma guerra. Lembrei de um documentário que assisti há uns cinco anos sobre “A Arte da Guerra”. Filme inspirado no livro homônimo e considerado por muitos a Bíblia da estratégia. Por ironia, a obra é de autoria de um general chinês, Sun Tzu, que viveu durante o século 6 a.C. O tratado já inspirou ações de generais como Mao Tsé-Tung, ex-ditador da China, e atualmente é requisitado no mundo dos negócios empresariais.

E o que isso tem a ver com a pandemia? Em primeiro lugar que para o Estado a guerra, segundo os ensinamentos Sun Tzu, é assunto de importância vital. Logo, os Estados, indispensavelmente, precisam se utilizar de estratégias para – antes de tudo – declarar guerra (não necessariamente verbalizando) e, com isso, conquistar poder; território (e o que ele tenha para acrescentar); e/ou, ao menos, recursos para a sobrevivência de suas nações em detrimento de outras. Portanto, a pandemia do Covid-19 (e todo o contexto que a envolve) pode ser uma arma de funções múltiplas.

Informação e inteligência – Segundo os ensinamentos de Sun Tzu, só vence integralmente uma guerra aquele que não precisa sair ao combate. Pois, desse modo, não se perde soldados em confronto, se vence antes mesmo de lutar – com informação/desinformação e conhecimento sobre o inimigo e sobre si mesmo. Nesse sentido, também é preciso conquistar aliados. E quer melhor aliado do que quem comunica?

Sendo jornalista, eu discordo da opinião de que a mídia é tendenciosa. Mas não omito o fato de que parte dela pode ser. No Brasil, por exemplo, eu mesma desconhecia – até essa semana – a informação de que o Grupo Bandeirantes de Comunicação e o Grupo Globo assinaram, em novembro do ano passado, um acordo de cooperação com o China Media Group. Simplesmente a estatal de mídias (rádio e televisão) da potência comunista. E isso já explica, em partes, o porquê de ambas as emissoras “denunciarem” tanto as ações do governo Bolsonaro – independentes de serem boas ou não.

O medo – Qual mensagem você mais tem recebido dos canais de comunicação ultimamente? “Fique em casa!” Pois é assim que temos nos omitido de lutar essa guerra. E é por isso que o medo é, há séculos, tanto uma estratégia de guerra quanto o único e maior inimigo a ser considerado, segundo o general Sun Tzu. O medo paralisa, confunde e vence. O medo também é, segundo estudos, o modelo preferido de gestão de lideranças. Muitos profissionais acabam abrindo mão de galgar posições nas empresas ou mesmo criar iniciativas por MEDO de arriscar o posto inicial e até o próprio emprego, caso a chefia se sinta ameaçada ou traída por esse movimento de ambição e desenvolvimento. Logo, ficam estagnados e acabam demitidos justamente pela falta de iniciativa e conhecimento.

Por ironia ou não, o medo é a mensagem mais disseminada como “ação” contra o coronavírus, no Brasil e no mundo.

Na contramão desse discurso, muitos profissionais da área da Saúde e Gestão (ignorados ou criticados), como o ex-ministro da Cidadania, Osmar Terra, por exemplo, esclarecem que a quarentena (toque de recolher), além de não ser a melhor estratégia de prevenção, pode ser ainda mais prejudicial à população, refletindo terrivelmente na economia e consequentemente multiplicando os problemas na saúde. E considero válido destacar que quando esses profissionais citam os danos à economia não consideram a vida humana menos importante do que as finanças do país. Pelo contrário, apenas enxergam que com as empresas e trabalhadores parados não há como sustentar a economia, que é responsável também pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e benefícios às classes menos abastadas – que são as que mais sofrem dentro desse contexto de crise.

Convenhamos que é muito cômodo para a burguesia se trancar em casa e esperar por dias melhores, no conforto de seus lares e fartura de suas despensas. Para os mais pobres, que precisam recorrer muitas vezes ao lixo para alimentar seus filhos, a rua não representa uma ameaça, mas, sim, a única opção de sobrevivência.

Contudo, depois do pânico se espalhar pelo mundo, é compreensível que a maioria das pessoas acabe se tornando passiva e aceitando toda e qualquer ordem que garanta “a sensação” (como a mídia adora pronunciar) de segurança. Basta olhar como facilmente nos trancamos em casa depois dos anúncios de “toque de recolher” e como saímos enlouquecidos às ruas, dias depois, com as chamadas à campanha de vacinação contra a gripe. O medo nos torna um rebanho dócil – mesmo que, no fundo, sintamos que alguma coisa não está certa.

A ameaça – Uma coisa é certa, contrários ou favoráveis à quarentena, os profissionais da saúde concordam que não se deve subestimar os efeitos da contaminação pelo Covid-19. Mesmo que acometa mais as pessoas idosas, e/ou aquelas que já possuam histórico de doenças, o vírus ataca e – independente da idade, condições de saúde ou sociais – uma vida é sempre uma vida, merece consideração e esforços para que tenha em seus dias dignidade. No entanto, é preciso atentar para o que realmente importa e, se são os idosos e as pessoas doentes que compõem esse grupo de risco, por que não resguardar a estas em vez de toda uma nação?

Seria para tirar proveito da situação e cenário de guerra? Usar da dissimulação para conquistar, a base do discurso de amor à vida, a lealdade de quem clama por segurança e mal sabe descrever o que sente, diante do medo da morte? Antes de consentir com a ideia de que estou louca, saibas que estas também são duas estratégias milenares de guerra e, enquanto estamos “resguardados” em casa, nossa Justiça determina a liberação de presos em alguns estados brasileiros.

Para encerrar, não quero despertar com este texto os sentimentos de medo ou culpa, mas de honestidade, empatia e coragem. Afinal de contas, assim como são importantes as famílias daqueles que lutam para salvar vidas na linha de frente dos hospitais, são igualmente merecedoras de consideração as famílias dos autônomos, que já se deixam dominar pelo desespero; dos agricultores e caminhoneiros; a minha e a sua que, mais dia, menos dia, podem não sobreviver, caso continuemos de braços cruzados e mente dominada, antes de tudo, pelo medo!

Nos momentos de grandes guerras e pestes ainda mais graves que essa, homens e mulheres se sacrificaram para enfrentar as adversidades e salvarem suas famílias, contrariando e vencendo seus adversários. Coragem, cautela, água e sabão não fazem mal a ninguém!

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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