A salinha secreta da minha avó, por Jéssica Ramos

Jéssica Ramos

Leia a coluna desta semana da jornalista, do Jornal Panorama, Jéssica Ramos.

A salinha secreta da minha avó

A casa era grande, especialmente para eu, meus irmãos e primos brincarmos. E, nossa, são tantas lembranças que é fácil perder o raciocínio. Eram sete ou oito cômodos – não lembro ao certo, pois meus avós mudaram e a casa antiga hoje foi substituída por uma nova construção. Sei dizer que a garagem, bastante espaçosa, e o “arvoredo” – como minha avó costumava chamar – nos fundos do terreno, eram os meus espaços favoritos. Também havia o porão, que chegou a abrigar famílias em certos períodos de necessidade e, quando vago, meus brinquedos e minhas imaginações.

Pensando bem, a moradia tinha mesmo estilo de casa de avós. O portão era manual, e, pelo barulho das rodinhas sobre os trilhos – sedentos por um lubrificante – quase sempre entregava algum candidato a fugitivo. Agora entendo que era proposital. A garagem ficava de frente para o portão, à esquerda da porta da sala, que tinha acesso por uma escadaria de uns quatro degraus. A calçada de base da escada era coberta por pedaços de cerâmica vermelha, dispostos como se fossem um enorme quebra-cabeça. Lembro que eram foscos – talvez pela ação do tempo e do sol. Tantos detalhes.

A família se reunia – e ainda tenta até hoje – todos os domingos para almoçar junto. Mas nós, os netos, estávamos sempre por lá – durante todo o dia, ou no turno inverso da escola. Pela manhã, o chimarrão era sagrado. Vovô e vovó sentavam na sala, com a porta aberta – para ver e comentar sobre quem passava na rua. O rádio fazia companhia, sintonizado em algum programa de notícias. Lembro até o timbre de voz do apresentador, e os comerciais do Guaraná Antárctica e pipoca com sal. Depois vinha o café, sempre farto. Minha avó, dona de casa, sempre estava envolvida com alguma tarefa doméstica, reforma de roupa ou plantio de flores e árvores.

E, por falar em árvores, o arvoredo tinha as melhores. Bergamoteiras de duas qualidades, laranjeira e goiabeira. Davam muitas frutas, faziam sombra e também serviam de playground para a turma toda. Vez em quando um saía quase quebrado, ou cheio de arranhões. Mas naquele tempo ninguém morria por isso (risos). Nem mesmo por rolar de uma extremidade à outra do terreno (que tinha uma inclinação natural, seguindo o nível da rua que era uma lomba) dentro de um tonel vazio. Essa, sim, era uma atividade para especialistas. Mas nós também brincávamos de coisas normais (mais risos), como de corrida – com carros construídos na terra, pedais, câmbio e direção de latas e tampas de lata. Ou de cozinha, que ficava ainda melhor com os bolos de massa de pão, fritos pela vó.

Nós também ajudávamos nas tarefas da casa. Minha avó era mestra em transformar, até uma faxina, em diversão. Formávamos equipes para lavar, secar, tirar o pó dos móveis e o que mais estivesse nas tarefas. No final, saíamos exibindo os resultados, e discutindo para saber qual cômodo havia ficado mais limpo e organizado. Afinal de contas, aquilo era uma competição. A produção e qualidade estavam em jogo. Mas, independente disso, éramos todos muito bem recompensados com piqueniques, histórias e, o mais importante, atenção. Ás vezes encontrávamos algum trocado também – e os anéis que o vô nos tomava e escondia em cima da estrutura da janela (reparem que a faxina era bem minuciosa – risos).

Nós brincávamos de esconder, corríamos e rolávamos pela casa inteira. Competíamos também para lustrar o assoalho de madeira encerado. Lembro-me de cada detalhe. Da disposição dos móveis ao cheiro dos ambientes. Nossa maior preocupação era viver intensamente – e não repetir erros de crianças mal criadas. Era muito feio desrespeitar os mais velhos, mentir ou desobedecer. Birra não tinha espaço naquela família. No máximo um “burro”, vez em quando. No meu caso, quando o descontentamento batia, me escondia entre a janela e o armário de roupas da vó. Ficava lá até aceitar que a vida não girava em torno do meu umbigo, ou até alguém – era sempre minha avó – me “resgatar” com palavras de conforto. No fundo, era isso que eu esperava. E, quando conseguia, me rendia em lágrimas. Típico de uma canceriana. – Como seria bom se isso ainda resolvesse meus problemas.

Hoje, a casa não existe mais. A nova moradia dos meus avós é bem menor. Afinal, os filhos e os netos cresceram e estão espalhados por aí. E, quando todos se reúnem, a cozinha e a sala dão conta do recado. Cada cômodo foi planejado, “friamente calculado”, para absorver sua demanda. O curioso – e o que eu só descobri há pouco – é que, tanto na casa antiga, quanto na atual, minha avó tem uma “salinha secreta”. – E até entendo porquê nunca tive curiosidade para questionar. – Era tanta coisa para se envolver que uma salinha, aberta e, aparentemente sem atrativo algum, passava despercebida. No entanto, há dias, adulta e profissional de uma área que jamais pensei em atuar, a salinha me intrigou. – Sou grata por cultivar essa curiosidade. Perguntei o motivo de ocupar o cômodo daquela maneira, com fotos e objetos da família, pouco ou nada funcional.

A resposta soou como um daqueles resgates do esconderijo, entre a janela e o armário. A finalidade da salinha secreta consiste em negar o orgulho, desânimo ou autopiedade. É através das fotografias, das memórias que elas alimentam, que se revive lutas e vitórias – também ignoradas por muitos, ou subestimadas por outros. É na salinha secreta que se reflete sobre o “eu”; sobre a efemeridade da vida – frente às lembranças de alguns que já partiram; ou sobre os milagres diários, frente aos sorrisos e olhos brilhantes dos que recém chegaram. É na salinha secreta que se lembra de quanto suor e lágrimas foram deixados na lavoura, enquanto um filho “cuidava” o outro, num berço esculpido no chão e forrado com o tecido de sacos de sementes.

É a salinha secreta, o cômodo mais importante e especial da casa. Onde se afoga a soberba do bem sucedido, e se alimenta a fé de um sonhador enfraquecido por frustrações. – Cá estou eu, escrevendo e pensando se, na falta de uma casa só minha e da Heleninha, consigo replicar a salinha secreta da minha avó. Nem que seja no coração. Há tanta gente perdida, em si mesma, por falta de uma salinha secreta…

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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