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A situação econômica no Vale do Paranhana pós-COVID-19, por Victor Fernandez Nascimento e Dilani Silveira Bassan

A região do Vale do Paranhana é conhecida pela sua excelência na produção de calçados. Essa região concentra um grande número de indústrias, ligadas diretamente ao setor calçadista, bem como empresas de micro e de pequeno porte associadas a esse segmento.

No início deste ano, o mundo foi surpreendido por uma doença, a COVID-19, que começou a fazer vítimas em todos os países. O Brasil, a partir do final do mês de fevereiro, buscou traçar estratégias de combate ao vírus, sendo uma delas o isolamento social, que seria o único meio existente de salvar vidas, mas, em consequência, também o de “destruir” uma economia que já estava fragilizada e em recuperação. É esse o cenário em que se encontra o nosso estado, o Rio Grande do Sul, que vive uma situação caótica na economia. Porém, mesmo dentro desse grande desafio e sem aporte financeiro, o Rio Grande do Sul faz um planejamento que, até o momento, tem se mostrado eficiente, conduzindo-o a uma situação mais confortável, se comparada a de outros estados do Brasil.

Conforme dados atualizados a partir do site do Governo do Estado, no RS, até 16/05, havia 3.734 casos confirmados de COVID-19, 138 óbitos e uma taxa de letalidade de 3,6%, com uma ocupação de 72,3% dos leitos, conforme pode ser observado nos mapas (Figuras 1 e 2). Esses dados, se comparados aos do Brasil, colocam-nos entre os estados que mais têm conseguido resultados positivos no combate ao Coronavírus.

Esse resultado tem reflexos nas macrorregiões do estado, mas especificamente na região do Vale do Paranhana, à qual pertencem os municípios de Igrejinha, Parobé, Riozinho, Rolante, Taquara e Três Coroas, com uma população estimada de 206.859 para o ano de 2019, conforme o IBGE.

No Vale do Paranhana, conforme informações do Governo do Estado, havia, no início de maio, quatro casos de Coronavírus confirmados em Rolante, e apenas um caso confirmado em Taquara. No dia 12 de maio, a Prefeitura de Taquara notificou a Secretaria da Saúde que havia mais um novo caso confirmado, totalizando dois casos de COVID-19 no município. No dia 9 de maio, o Governo do Estado do RS anunciou que a região do Vale do Paranhana era considerada de “baixo risco” para a COVID-19.

Esse cenário revela novamente uma situação confortável na região em relação à disseminação do vírus, se comparada aos demais municípios do estado e do país. No entanto, as medidas de isolamento social iniciadas em março de 2020, que levaram ao fechamento de estabelecimentos que não produzem artigos de primeira necessidade, promoveram o fechamento não só das indústrias calçadistas, mas também do comércio, da construção civil, dos serviços públicos, entre outros, afetando diretamente a renda de muitos trabalhadores, principalmente os autônomos. Além disso, quando se trata da indústria calçadista, cabe lembrar que, nessa cadeia produtiva, existem muitos que prestam serviços às indústrias de calçados e dependem delas para sobreviver.

A economia funciona em rede. Se um ou diferentes segmentos produtivos são afetados, as consequências serão sentidas, primeiramente, no desemprego, e, consequentemente, na queda da renda e na demanda (baixa) por bens e serviços, o que afeta a arrecadação de impostos, levando o Estado e até a própria União a não terem aporte financeiro suficiente para atender à sociedade, principalmente aos mais vulneráveis, que são os que mais sofrem.

O que estamos presenciando na região do Vale do Paranhana é um aumento na demissão de funcionários ligados às indústrias calçadistas. Conforme dados da ABICALÇADOS, o Brasil perdeu em torno de 26,5 mil postos de trabalho no setor calçadista em pouco mais de um mês, entre março e abril.  No Rio Grande do Sul, estima-se que 7,6 mil trabalhadores estão sendo desligados, e esse número poderá chegar a 20 mil, representando 25% da força de trabalho desse setor. Uma estimativa do Ministério do Emprego e do Trabalho antes da pandemia contabilizava que o setor calçadista contava com 87 mil trabalhadores. Conforme o presidente do Sindicado dos Trabalhadores das Indústrias de Calçados de Parobé, até o presente momento, 600 colaboradores já foram demitidos. Em Igrejinha, esse número alcançou mais de 140 colaboradores, e, para o presidente do sindicato, as demissões continuarão, pois, devido à não abertura do comércio, as empresas não têm demanda por produtos.

Dessa forma, mesmo o Vale do Paranhana estando em uma situação confortável em relação à disseminação do vírus, vem enfrentado um problema econômico e de consequências sociais de grande proporção. Espera-se que em breve possamos retomar as atividades com parcimônia, mantendo o controle e a higiene necessários, porém sabemos que a recuperação econômica será lenta e exigirá um esforço maior da sociedade.

 Casos de COVID-19 confirmados no Vale do Paranhana
Óbitos por COVID-19 no Vale do Paranhana

Victor Fernandez Nascimento
Geógrafo. Mestre em Engenharia Civil e Ambiental. Doutor em Ciência de Sistemas Terrestres. Pós-Doutor em Sensoriamento Remoto Centro Estadual de Sensoriamento Remoto e Meteorológico – CEPSRM. Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Faccat. Email: victorfnascimento@gmail.com

Dilani Silveira Bassan
Economista. Mestre em Desenvolvimento Regional. Doutora em Desenvolvimento Regional. Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Faccat. Email: bassandilani@gmail.com