A terra não é redonda, por Plínio Zíngano

Leia a coluna "Penso, Logo Insisto", assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – História de terror é, sempre, contada por quem sente o medo. Na ótica de quem causa medo – o diabo, por exemplo – é drama psicológico

A terra não é redonda

            Há, no livro “Do que é feito o pensamento”, do psicólogo canadense Steven Pinker, a reprodução de uma tira de história em quadrinhos com o personagem Calvin, aquele menino sempre acompanhado pelo Haroldo, um tigre com quem ele interage em nível quase filosófico (talvez, a filosofia seja a característica mais importante para os personagens das historietas alcançarem sucesso entre as camadas escolarizadas dos leitores). Nessa tira, o Haroldo não está presente. A trama se passa numa sala de aula, durante um exame e foca uma questão da Física a ser respondida por Calvin: “Explique a Primeira Lei de Movimento de Newton com suas próprias palavras”.  Após alguma reflexão, o herói escreve sua resposta, aqui transcrita ipsis litteris: “yakkq foob mog; grug pubbqwup zink wattoom gqzork; chumble spuzz”. A tira encerra com ele, sorridente, dizendo: “adoro ambiguidades”. Se algum dos meus leitores imaginar que a resposta tenha sido dada em linguagem dos klingons – língua artística criada para a comunicação desse povo, inimigo usual dos mocinhos representados pelo Capitão Kirk na série de televisão Jornada nas Estrelas – engana-se. Testei com meu tradutor e o resultado foi zero. São as próprias palavras de Calvin.

            A ambiguidade é a propriedade apresentada por diversas unidades linguísticas de significar coisas diferentes, de admitir mais de uma leitura (esta definição é do dicionário Houaiss). Essa propriedade pode nos levar a conclusões, às vezes, bem diferentes daquelas esperadas por nossos interlocutores quando estamos no processo de comunicação falada/escrita. Aliás, os professores estão, constantemente, às voltas com tais respostas, assim como a de Calvin, exigindo um cuidado muito grande quando elaboram suas provas.

            Aonde quero chegar com minhas palavras?, uma vez que o título deste comentário dá a entender minha adesão à estapafúrdia teoria da “Terra plana”. A palavra “redondo” tem embutida em si a ideia de algo curvo. No caso em questão, a Terra seria plana, embora redonda! Uma circunferência, por exemplo, é um plano redondo. Logo, quem discorda dessa teoria, usando o contra-argumento “Terra redonda”, pode, sem saber, estar concordando com ela. Outro detalhe, o “cilindro” também se inclui na definição de redondo. Até agora não surgiu nenhum ousado, defendendo a Terra Cilíndrica.

            A verdade, sem ambiguidades, é: a Terra é um corpo celeste esferoide (um sólido, corpo, objeto globular ou que se aproxima da forma de uma esfera). Como aprendemos lá no início de nossa aventura escolar.

Por Plínio Dias Zíngano
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