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Adestradores de feras

Adestradores de feras

Uma breve “navegada” pelos sites e canais de notícia, que tenho por hábito acompanhar, me deu a impressão de que o trecho da música “Dancin’ Days” – As Frenéticas (1978) – “abra suas asas, solte suas feras”, tem sido a doutrina adotada pelas pessoas, ou pela maioria delas, nos últimos tempos. Não, não é uma crítica à canção. Mas, de fato, a moda pegou, e ultrapassou fronteiras. E, dessa vez, sequer faço uso de minha “veia moralista” para escrever. Movo-me pela preocupação e tristeza, provocadas por cenas, resultantes de uma onda de total liberação de nossos instintos que, na ausência de consciência, tornam-se mesmo feras indomáveis.

Alguns encontros e diálogos me causaram dor de cabeça. Um sentimento de impotência, medo e confusão paira sobre as pessoas. Parte delas, sem perceber, alimenta o sistema e não vislumbra alternativa, senão seguir o fluxo. A fera do ódio ceifa vidas, sem critério, empatia ou perdão. A fera da ganância, de igual forma. A fera da preguiça e desânimo, em passos lentos, mas em escala surpreendentemente maior, prostra até os mais inteligentes e saudáveis. Ataca pelo prazer, e, automaticamente, atrasa e destrói projetos – ciclo este que provoca profunda frustração e, finalmente, morte por depressão. Não que a depressão seja causada por preguiça, mas, considerando o ciclo do desânimo, também.

E o que dizer da fera da luxúria? Vivemos em tempos modernos, não? Nós, mulheres, não podemos nos calar às máximas machistas e patriarcais, vivemos como bem entendemos, inclusive com, ou sem parceiros fixos. Os homens, por sua vez, nunca foram tão inúteis. Lhes é poupado até o trabalho de cortejar, já que nós o fazemos, num ato de igualdade de gênero. Eles pagam para não assumirem qualquer que seja a responsabilidade. Nós provamos que damos conta do recado. Compromisso é algo que, por si, se traduz. Quem quer? Não fosse a necessidade de pagar as contas, sobreviver, nem mesmo os vínculos empregatícios seriam mantidos. Ou minto?

..a fera da luxúria nunca esteve tão satisfeita e insaciável. Uma verdadeira festa, não fosse a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis – incredulamente, mascaradas por rostinhos bonitos e corpos bem torneados, incapazes de confessar a condição de saúde antes de cada encontro casual. Só se descobrem os resultados quando os sintomas aparecem. Fera astuta esta. E há tantas, soltas por aí. O que nos falta são adestradores. Não, necessariamente, os de perfil moralista, que se empregam em corrigir os outros. Mas, ao menos, mais uma porção dos que procuram exercitar o cérebro, e preservar a própria saúde, física e mental. Afinal de contas, se não domamos uma fera, cedo ou tarde somos identificados como vítima em potencial. Imagine então, à mercê de um circo de animais selvagens.

Há vagas para adestradores de feras/instintos.

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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