Ah, meus mestres! Bons tempos em Sapiranga… , por Inge Dienstmann

Inge Dienstmann

Leia a coluna da jornalista Inge Dienstmann no site do Panorama.

Ah, meus mestres!

Bons tempos em Sapiranga…

Hoje, 15 de outubro, meu dia foi intenso. Agora à noite, lendo homenagens aos professores no Facebook, me pus a refletir sobre o papel destas figuras na minha vida – os mestres no meu caminho, especialmente os de minha infância e adolescência em Sapiranga.

Tudo começou de uma forma bem peculiar no meu caso. Eu ingressei no primeiro ano primário sem saber falar em português, só em alemão. Estava ali para ser alfabetizada e não entendia a maioria das falas da professora. Jussara Sander era o nome dela, e, assim como eu, ela estava estreando no ambiente escolar. Eu tive muitas dificuldades. Chorava por não entender a professora, cheguei a fugir da sala de aula várias vezes. A situação evoluiu ao ponto de minha mãe retirar-me da escola Duque de Caxias. Minha professora estreante, por outro lado, sofria imaginando que lhe faltava habilidade para lidar comigo. Foi o preço de, aos seis anos de idade, eu só conseguir comunicar-me em alemão. Não conseguia relacionar-me com os colegas, não entendia a professora, e quando tentava formular alguma frase, tudo saía com sotaque extremamente alemoado. Apenas uma colega, hoje grande amiga Rosane Reichert, deu-se ao trabalho de conversar comigo em alemão, entremeado com português, num tremendo malabarismo de comunicação. Isso me fez desenvolver por ela um carinho muito especial, e quando minha mãe retirou-me da escola, senti saudade daquela colega, e pedi para voltar ao colégio. Tive que prometer um esforço maior, e não mais fugir da escola. Valeu a tentativa, pois surpreendentemente consegui passar de ano, literalmente com as “calças na mão”, e contando com especial empenho daquela professora estreante, Jussara Sander.

O segundo ano já foi melhor, mas lembro que somente no terceiro ano primário eu consegui realmente deslanchar, então já dominando o idioma e sem mais o sotaque de alemoa do interior. Naquele ano foi marcante o papel da professora Izaura Silva e Silva. Ela tinha um talento especial para ensinar português. Entendia muito do assunto e tinha extrema facilidade de passar o conteúdo. Ela também era excelente no ensino da matemática. E para completar a receita de sucesso, ela desafiava os alunos. Naquela época, destacava-se a cada mês o aluno com o melhor desempenho nas notas. Logo eu estava em quarto lugar na turma, depois terceiro, segundo… Foi quando meu colega Roberto, o eterno primeiro classificado da turma, teve a feliz ideia (para mim) de colocar em dúvida a minha capacidade de superá-lo. Revoltada, respondi a ele que, dali para frente, ele nunca mais seria o primeiro classificado do mês, pois eu passaria a ocupar aquele posto. E assim fiz… e assim foi dali para frente. O máximo que algum colega conseguiu foi, de vez em quando, empatar comigo em primeiro lugar.

Nesta jornada que me impus, de muito estudo, encontrei a força necessária em mestres memoráveis, como a levemente tímida e tocaia Inge Sefrin, a austera Ivone Petters, a charmosa Manom – isso ainda no primeiro grau.

No curso ginasial, ao qual obtive ingresso em primeiro lugar no teste classificatório que se chamava “concurso de admissão ao Ginásio”, deparei-me com outras figuras impagáveis como mestres, entre eles o professor de alemão Hugo Ernesto Werner Grosse. Quando eu “fracassava” com um mero 9.5 na prova dele, o mestre Grosse carinhosamente me presenteava com uma suculenta maçã, para que eu “encontrasse mais energia” e voltasse ao patamar nota 10 na prova seguinte. Havia também o professor Carlos Calleya, de História e Geografia, que me permitia empilhar nota 10. Com o tempo, ele já colocava o 10 no alto da minha prova, antes mesmo que eu iniciasse a responder, com a seguinte proposta: se eu não gabaritasse, estava dando a ele o direito de me dar um redondo zero. Nunca dei a ele o gostinho!

Ah! Tinha o professor Dileto Dellagustin, de Geometria, que cismava de me hostilizar, para que eu me sentisse desafiada e perseguisse o melhor resultado. Lembro bem da irônica Suzana Michels, que me desmontou certo dia, chamando minha atenção diante da turma – “Inge, estás muito saliente hoje”. Senti abalada minha fama de certinha irreparável! KKKKK

Ah! Não posso esquecer a professora de artes, “dona Filhinha”, que pedia silêncio exclamando: “Estou ouvindo vozes!”. Também fui aluna da professora Regina Cavasotto, oriunda de Novo Hamburgo, da família que detinha um dos mais tradicionais comércios da época de minha infância e adolescência – a Casa Cavasotto! Lembro que ela era delicada no falar e muito elegante. E nós comentávamos: – “Também! Com uma loja toda à disposição dela!”

Já no então curso Científico, eu deixei de ser “aluna caxias, porque iniciei a trabalhar simultaneamente com o estudo. Precisei priorizar um dos papéis, e optei pelo trabalho, pois já necessitava financiar boa parte dos meus estudos e demais demandas da minha adolescência. Mesmo assim, foi marcante minha identificação com alguns mestres da época, como a professora de português, Evani Wolff. Ela era um pouco ácida, provocativa comigo, mas no sentido de me desafiar, pois eu me achava um tanto pronta, no domínio do português.

Na Faculdade de Jornalismo, também tive vários bons mestres. Deles pude retirar o melhor da técnica jornalística, porque o domínio do idioma eu já trazia da formação anterior, com os excelentes mestres dos meus primeiros anos nos bancos escolares.

Ah, meus mestres queridos! E a todos que não citei, meu perdão e meu agradecimento também.

PS: agradecimento ao colega da época Adroaldo Bruno Becker (o BBB) pela ajuda com alguns detalhes dos nomes dos mestres.

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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