SUPERAÇÃO

Amor dos pais e apoio comunitário: a história de dedicação da cadeirante Tamiris para concluir o ensino superior

Após 11 anos, moradora de Parobé conquistou a graduação em Letras na Faccat.
Pai Abrelino, Tamiris e a vizinha Marilete da Silva: dedicação familiar e de amigos ajudou parobeense a conquistar diploma universitário. Vinicius Linden/Jornal Panorama

A conclusão da graduação é um sonho no caminho dos jovens que ingressam numa faculdade ou universidade. Não foi diferente com a moradora de Parobé Tamiris Silva, 30 anos. Mas, este caminho apresentava alguns percalços a serem enfrentados, e que foram driblados com maestria. Cadeirante devido a uma deficiência motora, Tamiris superou com muita dedicação a dificuldade imposta e, na última sexta-feira (8), após 11 anos, concluiu o curso de Letras, recebendo o diploma da graduação. Para tanto, sua história é permeada de muito apoio dos pais e a marca das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat), instituição que acolhe os acadêmicos e auxilia naquilo que pode para que concluam o curso superior.


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A parobeense que reside no bairro Guarujá conta que nasceu com uma deficiência que a impossibilita de caminhar. Supera este desafio diariamente com o auxílio da família e amigos. Na infância, estudou o ensino fundamental e médio em escolas de Parobé, como o Idalino Pedro da Silva e o Colégio João Mossmann. “Sempre fui muito bem recebida”, conta, dizendo que o convívio com os colegas e professores é uma lembrança que guarda com carinho. Dois professores, em especial, marcam a memória de Tamiris, Cátia Neves e Silvio Quintino de Mello, pelo apoio e ajuda nos momentos de dificuldade, em especial para se livrar das contas da disciplina de matemática. Apaixonada por português, porém, Tamiris lembra que sempre teve bom desempenho nos trabalhos relacionados ao idioma oficial do Brasil. Devido à deficiência, a parobeense ainda passou por atendimento, por um período, na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD).


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Em 2007, concluída a formação escolar básica, decidiu fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Poderia ter feito em Parobé, mas decidi fazer as provas na Faccat, por já conhecer um pouco da instituição”, contou. Não deu outra: aprovada, resolveu seguir o curso de graduação que sua paixão escolar indicava, na área de letras. Mas e aí, ir para a faculdade e superar as dificuldades impostas pelo fato de ser cadeirante. Quando há o apoio dos pais, isso não se torna problema. Todos os dias de aula, o casal Abrelino Rodrigues da Silva, 65 anos, e Clair Alzirinha Santos da Silva, 58 anos (em memória), levava Tamiris até o campus da Faccat. Tanto foi o apoio, que os dois se tornaram amigos dos funcionários da faculdade. Abrelino conta que levou à Faccat itens como baralho de carta e, enquanto a filha estudava, jogava com os funcionários, a esposa, enfim, arrumava maneiras de passar esse tempo. Minutos e horas, aliás, que ele considera investimento: carrega um orgulho imenso pela graduação conquistada por Tamiris.

Os estudos, que começaram em 2008, se estenderam por 11 anos. Nesse período, Tamiris diz que os pais foram essenciais, como apoio e incentivo para não deixar de cursar. “Meus pais são minha base, meu chão”, resumiu. Na Faccat, a convivência com os colegas é ressaltada como um ponto importante para levar sempre adiante os estudos. Todos, sem exceção, a apoiaram no dia a dia das aulas, que ocorriam à noite e, muitas delas, durante todo o período diurno dos sábados. Ao longo deste tempo, duas obras literárias tiveram a participação de Tamiris na escrita, uma enquanto ela trabalhava no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) e outra na disciplina Sulriograndense do curso. A admiração pela instituição de ensino é extensiva aos professores, em especial a coordenadora do curso de Letras, Liane Muller, sua orientadora do trabalho de conclusão de curso, Vera Lúcia Winter, a professora Luciane Raupp, entre outros docentes, e, em especial, ao diretor-geral Delmar Backes, por todo o incentivo e apoio. Sem esquecer, é claro, dos teatros da professora Juliana Strecker, que Tamiris conta como essenciais para a motivação na literatura.

A formatura, no dia 8 de março, foi precedida de um momento de tristeza para a acadêmica. No dia 28 de dezembro, depois de muito tratamento, a mãe Clair faleceu, devido a complicações decorrentes de um câncer. Tamiris até pensou em desistir, mas seguiu os conselhos do pai e amigos. Foi adiante: tirou as fotos da graduação e foi até a formatura. Na cerimônia, não segurou a emoção quando tocou a música Trem Bala, pedida por sua mãe como homenagem. Neste momento, diz que passou todo um filme por sua cabeça, enquanto o diretor da Faccat lhe entregava o capelo que representava a nova condição de oficialmente formada. “Não conseguia parar de chorar. Havia a alegria de conquistar a formatura, mas também por saber que, depois de tudo o que passamos juntas, no momento mais importante ela não estava para presenciar”, comentou. Tamanha a dedicação da Faccat a Tamiris que, no final do ano passado, quando Clair morreu, a instituição mandou representantes ao velório. Devido às condições de saúde da mãe e a dificuldade motora da acadêmica, a direção da Faccat, inclusive, havia prometido, por meio do professor Delmar, que haveria uma cerimônia simbólica na casa de Tamiris para marcar a colação de grau. Infelizmente, não houve tempo. Mas, formada, Tamiris tem certeza: sua mãe está feliz com o que ela alcançou e a dedicação demonstrada ao ensino superior e a driblar todas as dificuldades vivenciadas.

Passada a formatura, é hora de olhar para frente. Os sonhos não são poucos para Tamiris, mas um deles é visto como prioridade, obter uma colocação profissional. Para tanto, está distribuindo currículos na rede escolar, se prontificando a começar a atuar desde já como professora, além de prestar atenção a possíveis oportunidades em contratos temporários e concursos públicos. A meta de estar em sala de aula, inclusive, é uma angústia que Tamiris que tirar da frente e conquistar a oportunidade na carreira. Para auxiliar na renda, aulas particulares também são oferecidas e estão à disposição da comunidade. Mas, Tamiris não quer estar na sala de aula apenas como professora e já pensa, em 2020, voltar à Faccat, seja para alguma pós-graduação ou para cursar pedagogia, o que ainda será decidido. A faculdade é um ambiente que a encanta, e a certeza de que compartilhará do apoio do pai para voltar ao ensino superior é uma motivação que ela nem consegue calcular. Abrelino, aliás, é incentivador dessa meta, e conta que não vê a hora de poder retomar a rotina de levar a filha para a Faccat, bem como rever os amigos que construiu ao longo de 11 anos de convivência no campus. É, para ele, o prazer do seu dia a dia, compartilhar e apoiar o sonho da filha. Certeza de que, com este tipo de apoio, a carreira de Tamiris será profícua, com a mãe Clair acompanhando e comemorando os feitos.

Em novembro passado, já se preparando para a formatura, Tamiris ainda conseguiu fazer na Faccat um registro com a mãe Clair e o pai Abrelino: a acadêmica conta que a mãe, mesmo debilitada de saúde e também usando cadeira de rodas, sempre fez questão de a acompanhar à faculdade. Foto: arquivo pessoal