Amplexos, por Plínio Dias Zíngano

Penso, logo insisto

Leia a coluna “Penso, Logo Insisto”, assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – Não me convidem para reuniões sociais com mais de duas pessoas. Multidões me aborrecem sobremaneira!

AMPLEXOS

Está bem, admito: eu poderia ter escrito “abraços”. Talvez fosse mais simples e, consequentemente, de compreensão mais rápida. No entanto, esta minha mania de viajar com as palavras sempre me leva por léxicos pouco ou nunca dantes navegados (ó, de novo, as palavras; agora, com Camões). Estamos no terceiro dia de uma nova fase de amplexos, recomendados como a solução para a salvação do mundo. A verdadeira utopia! É novo ano! Segundo os seguidores da aplicação desta teoria, basta as pessoas se enlaçarem que todos os males advindos do relacionamento entre elas passem a ser curados. Seria a própria panaceia universal, remédio muito procurado pelos alquimistas, na incansável busca da imortalidade! Haja, então, amplexos em profusão, pois está em jogo a permanência neste vale de lágrimas.

Em 2004, na Austrália, um personagem, conhecido pelo pseudônimo de “Juan Mann”, ganhou as manchetes na mídia, aparecendo em locais públicos com uma plaquinha onde se lia: “abraços grátis”. Foi uma loucura! Havia sido descoberta a pólvora. Como ninguém tinha pensado naquilo antes? Era tão simples para estimular a amizade, o amor e a compreensão, acabando com as diferenças entre os seres humanos. Lembro que, em Taquara, escolas chegaram a colocar algumas turmas nas esquinas, oferecendo o calor dos braços juvenis, pondo em ação a ideia do australiano. A garotada achou uma festa. Naquele momento, eles, realmente, estavam adorando a aula prática. Acho, até, que ela vicejou por algum tempo, dando a certeza de terem encontrado o caminho da boa convivência. Mas, lamento muito: em termos totais – foi uma verdadeira febre ao redor do mundo – inexistem resultados concretos.

De maneira geral, tenho reservas em abraçar, principalmente, desconhecidos. Antes disso, preciso já ter desenvolvido sentimentos cordiais com quem será abraçado. Salvo má vontade de julgamento para comigo, não creio, por causa disso, ter um coração de pedra. Há 45 anos caminho de mãos dadas com a mesma mulher, minha adorada esposa (de outra maneira, fica difícil o deslocamento!), mas passo ao largo de outras pessoas. Penso, antes de pôr em prática a técnica com todo o mundo, ser mais útil tentar entender esse “mundo” e procurar aparar possíveis arestas que possam criar problemas na convivência.

Procurei na internet por Juan Mann, o australiano do abraço grátis! Não encontrei referências a ele depois de seu sucesso estrondoso. Queria dar-lhe um aperto de mão!

Por Plínio Dias Zíngano
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