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Aquele tempo não era melhor

Passei tardes de minha adolescência com o dedo sobre o botão REC do micro system. Assim que o rádio tocava a tão aguardada canção, eu me punha a gravá-la numa fita, mesmo que houvesse a inoportuna vinheta da FM.

Ainda era preciso transferir o conteúdo para outra K7, calculando o tempo das faixas. Assim, dava para preencher meia hora, em cada lado do dispositivo, com minhas músicas favoritas.

Quanta perda de tempo. Há quem sinta saudade de ouvir o locutor anunciando um novo sucesso duma banda. Tem gente que se emociona com o trabalho de selecionar repertório para uma mixtape. Eu, não.

Admiro muito mais o jeito prático de organizar uma playlist num serviço de streaming. O som vem sem chiado. A capacidade de armazenamento é infinita. Não é necessário rebobinar para ouvir de novo.

Sem contar os aplicativos “mágicos”, como o Shazam: você cantarola uma melodia, o celular mostra ficha técnica e letra completa para cantar junto. Acabou-se o esforço Sherlockiano de identificar a dona de uma voz estreante. Ainda bem.

Nativos digitais não se surpreendem com a instantaneidade. Para eles, o mundo é assim. Quem viveu em modo analógico e precisou adaptar-se é que sente o peso da mudança. Talvez, por isso, contemporâneos meus se tornem tão nostálgicos.

O sociólogo Anthony Giddens afirma que a dúvida é um elemento forte da atualidade. Pudera: frente às incertezas de uma nova tecnologia, nosso instinto é desconfiar. Apegamo-nos ao que já conhecemos – o passado – e rejeitamos o misterioso futuro.

Com uma evolução tão acelerada das mídias, fica fácil estagnar-se em meio à inovação. Só que sempre foi assim. Aristocratas do século XIX rejeitaram a instalação de telefones nas residências, temendo que suas filhas conversassem com estranhos. Isso não impediu o avanço e a praticidade das telecomunicações.

O tempo da fita K7 não era mais simples. Nós é que não tínhamos boletos a pagar nem reuniões com o chefe. Sente-se falta daquela frugalidade. De música com ruído, porém, ninguém precisa mais.