Árvores e crianças têm me assombrado, por Inge Dienstmann

Inge Dienstmann

Leia a coluna da jornalista Inge Dienstmann no site do Panorama.

Árvores e crianças
têm me assombrado

Elas têm me dado uma sensação de urgência – as crianças e as árvores. E minhas pernas não estão dando conta de acompanhar as vontades todas que me assanham; nem metade delas, na verdade.

Minha mente quer viajar por tantos lugares e sensações deste mundo ainda, mas o pensamento nem sempre tem dado conta de lembrar dos comprimidos que devo ingerir pela manhã. E há as expectativas e necessidades dos que me cercam. Acostumados que estão a que eu dê conta de tudo, não se apercebem de que suas demandas se multiplicam, enquanto minha energia se tornou um cálculo de subtração, de divisão. É assustador porque se mostra exponencial até.

A ficha da finitude tem caído! E é rude… me faz olhar com temor para a árvore frondosa, resultante de uma frágil muda que eu vi ser plantada. Ajudei a zelar por ela, pra que despontasse conforme sua missão. Já apreciei seu desabrochar, um dia; mas hoje seu gigantismo me assombra, quando me diz que muito tempo ficou para trás; e que muito provavelmente aquela frágil muda de uns dias passados, agora irá ultrapassar o meu próprio tempo.

E as crianças, estas assustadoras medidas do encurtar da nossa existência! Ultimamente não consigo desviar os olhos de minha neta. Como foi que aquele bebê roliço se transformou tão repentinamente nesta menina esbelta, esboço de moça?

Meu neto ainda me trás algum alívio… Pelo menos até outro dia ele cabia no meu colo; fui capaz de adormecê-lo com meus carinhos disfarçados de massagem. Será que acontecerá uma vez mais? Ou novos interesses o levarão para um pouco mais longe de mim?

Crianças que ganham dez anos num piscar de olhos têm me assombrado com a noção exata de que deixei mais uma década para trás, digamos, num estalar de dedos.

Já é noite agora. Nada! Primeiros minutos de um novo dia. Mais um! Menos um?

Prometo que, ao amanhecer, escalarei o galho mais alto daquela árvore que me inquieta. Quem sabe lá de cima eu vislumbre o horizonte que me resta, e eu aquiete meu coração deste, tipicamente infantil, terror noturno que me rouba o sono agora.

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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