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As partes, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Países com “República Popular Democrática” no nome, apesar da tripla redundância, sempre são os menos democráticos e mais repressores!

AS PARTES

Há alguns dias, diante da notícia da morte de famoso baterista do rock’n’roll mundial, foi publicado post, homenageando o artista falecido. Nele, aparecia a fotografia tomada de cima, na vertical, mostrando um círculo de instrumentos de percussão – a bateria – onde, segundo a informação, o homenageado executava perfórmances dignas dos ouvidos dos deuses. Rapazes, me considero roqueiro, desde quando isso era afronta a todos os cânones morais e de bons costumes da sociedade. Mas jamais me passou pela cabeça ver os deuses dando atenção específica ao desempenho dos tambores de uma banda. Sempre ouvi a música. Serei, por isso, ser à parte?

Lendo textos escritos por críticos de cinema, vi que filmes, segundo suas observações, apresentam muito mais, além de histórias. Independente dos, às vezes, gigantescos problemas técnicos de produção – e esses não parecem importantes para a crítica – há os significados dos trejeitos dos atores, da iluminação, da posição dos móveis nas cenas, das intenções do diretor. É o clássico “o essencial é invisível aos olhos”, frase de Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe. Sinto-me um ser à parte, por ver filmes somente!

Olhando de passagem os milhares de concursos culinários exibidos na televisão – está bem, exagerei um pouco; esqueçam os milhares; são, apenas, centenas – fico espantado com os detalhes aos quais os jurados descem nos seus julgamentos dos protocozinheiros. Nos seus arrazoados, chegam a dizer que a comida está gostosa, mas a “textura quase comprometeu o resultado”; ou “a acidez está prejudicando o resultado final, embora delicioso”. Isso é o máximo da demonstração de conhecimento especializado. Definitivamente, estão querendo me dizer que sou um ser à parte, quando espero uma refeição, nada mais?

Porém, na restauração do meu amor próprio, socorro-me de um craque da poesia! Para alguma coisa serviram as aulas de literatura, além do prazer estético. O nome do meu salvador é Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno, talvez o maior poeta dos barrocos português e brasileiro (do Brasil, certamente). Transcrevo, dele, a primeira estrofe do soneto “Ao braço do mesmo menino Jesus quando apareceu”: “O todo sem a parte não é todo; a parte sem o todo não é parte; mas se a parte o faz todo, sendo parte; não se diga que é parte, sendo todo”. Em cada manifestação citada, lá em cima, música, cinema, culinária e tantas outras passíveis de análises por críticos julgadores, o importante é o conjunto da obra. Descer às partes em personalíssimas opiniões intelectuais é, apenas, abusar da boa vontade de quem se digna a prestar atenção a qualquer das apresentações em pauta.

O importante é o todo! Valeu, Boca!

Por Plínio Dias Zíngano
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