Bhakti, por Luiz Haiml

Haiml & etc.

Leia o artigo mensal do professor Luiz Francisco Haiml.

Bhakti

Ananda tinha voltado a São Francisco, e lá estava eu, naquele domingo, dia 29, frente à lancheria/restaurante Texaquinho, ao lado do posto que levava o mesmo nome, oito da manhã, com uma câmera DSLR-Sony Alpha 57 emprestada indo participar de  um evento na nova casa onde ela estava morando e onde agora também funcionava o Centro de Bhakti Yoga.

O fato de que eu andava meio melancólico para ir sozinho me levou a descolar carona com uma moça que vinha de Porto Alegre e indicada pela Ananda. Porém, demoramos um pouco a nos achar, ela veio pela RS-239 e confundiu o posto onde eu estava (foto), na RS-020, trecho que ela não conhecia muito bem, e a coisa começou a ficar tão enrolada que me sentindo mal por atrasá-la disse por telefone: “deixa que acho um ônibus por aqui”. E já estava indo para uma parada quando ela retorna: “estou diante um restaurante com um peixe enorme na frente”; e eu: “segura que tô indo exatamente nesta direção”. E assim conheci a Prema Manjari (nome espiritual) e o Daniel. Ela, de vários lugares, no momento em Porto; ele de Novo Hamburgo. Ambos iniciados no caminho para Krishna.

Iniciados são devotos com um comprometimento maior com Krishna. Eles recebem nomes especiais/espirituais, reiniciam suas vidas com a promessa/compromisso de seguirem com seriedade as regras pregadas pelo Senhor Supremo, e isso fazem aportados na sabedoria de gurus e sanyassi – mestres que equivalem, nas religiões cristãs, aos pastores, padres, ministros. Prema mais conversadeira, Daniel mais fechado, talvez pela minha presença, mas simpatizei logo de cara com ambos. Discretos, só ela se dirigia a mim de vez em quando. Conversavam, entre outras coisas, sobre passeios e viagens maravilhosas que fizeram ou iriam talvez realizar, a maioria relacionadas ao universo do assunto que nos levava ao alto da serra naquele dia. As infinitas voltinhas do caminho para São Chico me faziam bater as pestanas, pesadas também pelo levantar muito cedo naquela manhã e pelo sono faltante das noites mal-dormidas pelo excessivo calor que estava fazendo.

Na entrada de São Chico, como nenhum de nós conhecia o novo lugar, de novo houve um atrapalhamento, embora, por ironia, estivéssemos quase na frente de nosso destino, que fica num condomínio próximo ao portal de informações da cidade. Adentramos por ele, e de novo nos atrapalhamos, não localizávamos uma placa que, segundo a Ananda, por telefone, deveria estar por ali, e, outra ironia (kkk), repetia-se o de há pouco: estávamos ao mesmo tempo perdidos e quase ao lado da casa dela.

Para minha surpresa, Ananda novamente estava morando no alto. Na casa anterior, no centro, havia uma longa e antiga escada de pedra. Agora uma escada de madeira e uma pequena rampa um pouco tosca ligavam o chalé de dois pisos – pouco visível devido ao arvoredo ao redor – ao plano onde estavam os carros.

Pelo menos o sol que já estava se revelando inclemente e seu calor descomunal daquela semana não nos pegariam, teríamos um alívio sob as frondosas sombras e pelo ar mais ameno da serra. Passei pela rampa – que só tem um lado de corda e estremecia como uma ponte pênsil – com friozinhos na barriga e encantado com o recanto. Passada a rampa, um Gopala (filho da Ananda) segurando um galo enorme e assustador – o Garuda – nos esperava. Chegáramos e não nos atrasáramos, e pudemos ajudar na confecção da guirlanda que um jovem monge montava com folhas e flores de orquídeas para receber o palestrante que viria, enquanto um vasto pessoal já se mexia na cozinha preparando o almoço e os quitutes da sobremesa.

Foi um encontro de todas as idades, de vários tipos de participantes: só devotos, devotos iniciados, monges, monjas, gurus, apreciadores, simpatizantes, curiosos.  Mas entre todos esses que lá estavam havia um sentimento de respeito, de saber ouvir, dá para dizer de carinho fraterno. Entre vestes comuns via-se as vestes religiosas, de cores variadas para diferentes estados/situações dos que se comprometem para com a doutrina de Krishna.

Não houve, pelo período inteiro do evento, nenhum distúrbio, nenhum desequilíbrio na Força (eu tinha que fazer uma citação cinéfila). Acho que o intranquilo ali era eu (kkk), não acostumado com o imenso tamanho da câmera emprestada – geralmente uso uma Kodak pequeninha, meio antiga, quase de bolso, muito eficiente, até então ela anda me deixando empenhado – me ajeitava daqui e dali para ser discreto em fotos e filmagens, pois tais eventos são sérios, e não devem ser fotografados por vaidade, mas sim pela finalidade do registro, da divulgação, e é isso que faço, posso dizer que é uma parte do meu bhatki a qual cumpro: trabalhar para o não esquecimento, o não desaparecimento de uma das mais antigas e ricas culturas da Terra, e a passagem dela e seus efeitos em regiões enraizadas em doutrinas/religiões forjadas/adaptadas por mentalidades de procedência européia. Uma porção de Bhakti, naquele domingo, foi isso que fizemos, foi o que tivemos. Cantamos mantras, ouvimos a fala do SwamiPuriMaharaja ampliando os conceitos sobre o que é Bhakti, confraternizamos numa deliciosa prasada, e, terminado o evento, nos espalhamos, alguns foram embora, outros ficaram conversando fora ou dentro de casa. Nesse momento falei com o Rodrigo, terapeuta ayurvédico, que já conhecia, com o Max, o Fabian e a Varsanarani.

Não voltei com a Prema e o Daniel, eles resolveram ir com um pessoal tirar o calor numa das muitas cascatas de São Chico, mas foram parar na Barragem do Salto, onde também o Swami deliciou-se na águas fresquinhas e límpidas do belo lugar. Sobre o PuriMaharaja, esse reside numa Ecovila em Baependi (MG), e estava aqui no sul para o evento do bhakti e para o Medita São Chico.

Estava próximo das dezesseis horas, e eu sabia que tinha um ônibus para Taquara em tal horário. O Max me levou até a rodoviária, no caminho descobri que ele é tão cinéfilo quanto eu, e após um abraço fraterno na despedida, deu-me um livro: um estudo dobre o BhagavadGita. Max foi um irmão que fiz por lá, assim como o Fabian, a Prema, o Daniel e a Varsanarani, todos esses devotos iniciados, e sobre quem espero falar em próximo futuro texto (na foto Fabian, Max, Prema e eu).

Desci do ônibus para o infernal calor que tudo queimava na minha pobre Taquara, enfrentando-o de alma leve.Bhakti é bom, bhatki é devoção, e a boa devoção nos torna seres melhores.

Aqui você acha um trecho da palestra do Purami:

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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