Barbaridade, por Luiz Haiml

Leia a coluna do professor Luiz Haiml, que fala sobre a tristeza que é o fechamento de cinemas.

Barbaridade

Arquivo X voltou. Depois de dez anos, tão bom quanto era. Na segunda temporada do revival: Mulder & Scully mais velhos, mais charmosos, mesma boa química, episódios ainda intrigantes e a trama central (espinha dorsal da série) bombando firme. Por que falar de Arquivo X? Foi tal assunto, numa conversa entre eu e minha esposa, que levou a isso que o vivente agora tem diante de si.

Eu sabia que assistíramos juntos, em telona, o segundo longa de AX feito para o cinema, mas eu não lembrava se ela tinha visto comigo o primeiro (isso já em DVD, ou Sky), pois quando tal filme estreou nem sabia ainda que a Daniela existia. Eu, porém, o assisti três vezes, em cinema. A primeira no Cine Scala, centro de Porto Alegre, em frente à Praça da Alfândega, a da Feira do Livro. As outras duas em Taquara, no Cine Viena, quando entrava de graça como comentarista de filmes do agora “impresso virtual” que estás a ler. O Scala foi demolido, o Viena tornado em auditório.

Esta semana leio na Zero Hora matéria sobre um mais cinema que encerra as portas: o Cine Santa Isabel, único de Viamão. Ilustram a reportagem fotografias que evocam a melancolia do episódio, e nelas um dono prestes às lágrimas, que o mundo acabou para ele. Também fico triste quando um cinema fecha, seja onde for. Cinemas independentes, não ligados a grandes redes, não estão durando.

Aconteceu aqui em Taquara, no caso do Cine Viena, que passou por vários donos.  O custo é alto, e depois teve a concorrência com as videolocadoras, a pirataria, a internet. Mas se as locadoras diminuíram as idas aos cinemas, a internet também tem cada vez maior culpa no cartório, pois nos dá acesso, sem maior custo, a filmes de todas as épocas, inclusive obras que ainda nem entraram em circuito comercial no país, e ainda os assistimos em boa qualidade de imagem e som, e em “tvzonas” enormes e digitais. Não precisa nem baixar. Vão acabar os DVDs.

Eu que via dois filmes por dia em Porto Alegre, indo aos cinemas de lá pelo menos uma vez por mês, quando aqui não tínhamos cinema, agora vou uma vez por ano. Várias razões, e mesmo havendo salas boas mais perto, Campo Bom, Novo Hamburgo, o principal motivo de meu afastamento é o cada vez mais escasso horário de filmes com legendas. Se me disponho a gastar uma verba extra, se me digno a me deslocar numa viagem incomoda, por vezes em temperaturas pouco convidativas para se expor, quero o produto completo: voz original dos personagens, som original, cuja qualidade é superior ante uma versão dublada. Afora outros inconvenientes que tal sistema apresenta.

Mas, até as salas de grandes redes estão em risco, pois elas mesmas, para sobreviverem, inventam cada vez mais coisas esquisitas, por exemplo, já há salas em que as poltronas viraram verdadeiras camas, e garçons passam servindo comidas e bebidas diversas, e isso aqui no Brasil. Imaginem se o filme for erótico…

Agora inventaram o sistema de imersão, 5D: cai água na tua cabeça quando chove na tela, um frescor passa pela tua orelha quando sopra vento nos personagens. E os socos, tapas, pontapés, tiros, cuspes, os sentimos também? E logo o cinema será virtual. Para mim tudo bobagem, nem 3D é necessário, com exceção de um ou outro caso. Mas é preciso pôr o espectador dentro do filme.

Não, a verdade é: é preciso inventar maneiras de o espectador continuar indo ao cinema, por isso dá-lhe blockbusters, dá-lhe novas tecnologias, dá-lhe descaracterizar cada vez mais o charme e a função das salas de cinema. Quero ver quando chegar às lojas a TV em que você poderá projetar os personagens, do que for que estiver assistindo, diante do sofá em sua casa. E até, conforme, no sofá. Barbaridade!

(Nas fotos a seguir, saudosa recordação: a bela entrada, hoje desfigurada, pela qual por anos a fio cruzei em direção aos mundos que o extinto Cine Cruzeiro me oferecia; e o retorno de Arquivo X.)

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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