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Bússola tatuada, por Doralino Souza

Bússola tatuada

Parado ao lado de um pequeno aquário, onde um solitário peixinho alheio ao tempo em movimento segue sua sina, ele olhava a rua através da vidraça. Talvez fosse o brilho da luz neon dum hotel, distante, lá depois da terceira quadra, ou o barulho dos poucos carros àquela hora da madrugada cruzando devagar a avenida ou mesmo a inércia do peixinho dourado em seu mundo transparente, mas ele sentia cada vez mais forte o abraço da inquietude.

Acendeu o Gudam que trazia entre os dedos fazia algum tempo. Guardou o Zipo no bolso da calça. Ele já estava de roupas e sapatos. Saíra da cama em silêncio, e foi também em silêncio que vestira as roupas e andara pelo quarto. Deu longa tragada, soltou a fumaça adocicada na direção da fresta, formada pelo vão aberto na janela.

Em seguida olhou pra ela. Os cabelos bonitos. Lábios carnudos. A pele linda. Assim dormindo sua beleza merece contemplação. Minha bela Lívia adormecida, ele pensou. A luminosidade do abajur aceso evidenciava as tatuagens no corpo esquio de curvas bem-feitas delineadas pela calcinha preta. Deteve o olhar na tatuagem do braço direito, quase à altura do ombro. Era uma bússola.

Recordou aquela manhã de verão numa praia quase deserta. Havia céu muito límpido. O vento era bom e pairava no ar uma sensação de otimismo e felicidade. O homem e a mulher caminhavam abraçados e qualquer pessoa que passasse por eles não notaria nada fora do lugar. Encontraram jogada na areia uma bússola velha, já corroída pelo tempo. Criaram teorias sobre a idade do objeto. Sua origem. Imaginaram pessoas seguindo caminhos indicados por ela. Até que um dia, a bússola perdeu a serventia, deixou de apontar destinos. De mostrar o Norte. “Esta bússola se parece comigo, desde que te conheci fiquei desnorteada.” ela disse e riu, e disse que iria fazer uma tatuagem pra perpetuar aquele momento.

O homem voltou o olhar pra rua, abriu um pouco mais a janela, num gesto rápido jogou a bituca do cigarro. Imaginou ela acordada condenando o ato. “Estamos no oitavo andar, cara, não faz isso, quer botar fogo no cabelo de alguém lá embaixo.” Ele sorriu relembrando as delicias triviais e desejou que isso nunca acabasse. Só que daí, de repente, ficou sério. Pensou na vida de protocolos e convenções. De ternos, gravatas, faz de conta e muita bosta servida em boa porcelana.

Já fiquei tempo demais, murmurou pra sim. A história se estendeu, sim, ele sabe. Precisa pegar sua porcelana e se empanturrar porque é isso que se espera de um homem honrado. Já que se transformar num homem honrado é o seu Norte, melhor então seguir para onde a bússola apontar.

Em passos quietos foi até a porta. Abriu sem nenhum ruído, como se fosse um exímio abridor de portas, ou um desses porteiros de hotéis luxuosos, que, além de invisíveis, se movimentam numa quietude absurda. A história dos dois ficará com ele, não como um segredo de pouca importância, mas feito tatuagem, marcada na pele para sempre, pensou. O homem se voltou pra olhar uma última vez a mulher, lá na cama. Só nesse momento percebeu que ela estava de olhos abertos e fixos nele. Ele compreendeu onde começava sua beleza.

O homem permaneceu ali, fitando aqueles olhos. Ninguém disse nada. A mão dele segurando a maçaneta da porta entreaberta. Sentiu-se um pouco idiota. Estava amanhecendo e o quarto começava a ser inundado por uma luz ambígua e ele não teve certeza de mais nada.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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