Cigarro de palha em começo de estação, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.


Cigarro de palha em começo de estação

No acomodado da pequena casa de tábuas brutas, se aqueciam. A noite estendida lá fora lamentava o luar minguado. O ar com cheiro de vinho e fumo misturado aos odores do cansaço, flertava com os ranços do dia na labuta. Zuleica, acostumada à falta de modos, sentava de pernas abertas, enquanto dava de mamar à pequena filha, ainda sem nome. O grande ubre dependurado na frente da criança, e aos olhos do homem que, indiferente, se preparava para enrolar um cigarro de palha. A criança de Zuleica já era esperada pelas gentes do povoado sempre alardeando – e não sem razão – que a jovem rapariga se deitava pelas roças de cana, sob as bergamoteiras, detrás do velho engenho, dentro das carretas, com homens fugidos das lidas e das esposas. Era dado como certo, um dia vir criança.

O homem permanecia sentado próximo da porta, quase encostado na tulha cheia d’água. Ele estava sobre um mocho feito de uma grande tora de araucária. Retirou a faca da bainha presa na cintura e se pôs a picar fumo calmamente na palma da mão. Ajeitou o conteúdo na palha, apertou com cuidado, olhou atentamente o palheiro, como quem admira um trabalho bem feito, riscou fósforo, acendeu, tragou devagar, soltou a fumaça para o alto. Olhou pro neném, lhe pareceu um bezerrinho chupando a teta, depois, pegou a caneca esmaltada com o tinto, tomou um baita gole, lambeu os beiços, voltou a fumar.

Depois o homem levantou-se. Primeiro ele pensou em botar mais lenha no fogo, já que as brasas estalavam virando cinzas, no entanto, desistiu da ideia, pegou algum dinheiro, em notas pequenas, no bolso da calça e as colocou debaixo da caneca com vinho. A caneca o homem largou no chão perto do fogão de lenha. Em seguida o homem sentou-se no mesmo lugar, entre a porta feita de tabuão e a tulha de barro.

Zuleica guardou o seio moreno e saciador, ajeitou a filha no berço de madeira, foi até o homem. Não desperdiçaram palavras, sendo que poucas eles tinham, trocaram beijos com hálitos de cigarro e vinho barato. Zuleica ergueu a saia de tecido xadrez, partiu pro galope forte, ele sentiu o cheiro de seu sovaco e soube que gostava daquilo. Era bom demais sentir-se homem após um dia inteiro erguendo cerca de arame farpado.

A quietude da casa se deixava vencer pelos gemidos de Zuleica. A respiração ofegante do homem. Os estalos das últimas brasas. Lá fora ouvia-se o alvoroço dos cachorros, talvez na cola de algum tatu ou graxaim, longe o mugido triste de algum terneiro extraviado, ainda mais longe os quero-queros anunciavam sua prontidão nos potreiros e banhados. Enquanto isso, o vento assoviava lamentoso, parecendo anunciar o começo do outono.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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