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Colheitas da infância

Nas nossas recentes férias, em meio a incríveis atrações do Serrambi Resort em Pernambuco, que amamos e visitamos sempre que possível, insolitamente, o que mais me marcou foi o copioso choro de meu neto quando teve que se despedir de amigos que cultivara durante sua estada. Empreguei o verbo cultivar, porque não eram de carne e osso os tais amigos, eram mesmo vegetais – pequenos cocos, para dizer a verdade. Ele colheu cerca de 30 coquinhos que haviam caído dos coqueirais à beira do caminho que nos levava à praia ou à piscina. O primeiro amigo coco foi logo batizado. Henri chamava-o de senhor Pitúncio. Quando observou que tinham tamanhos diferentes os tais cocos, o guri fantasiou que havia ali uma família, amigos, colegas. Banhou os cocos todos na pia do apartamento. Passou-lhes sabonete, enxaguou. Colocou a secarem sobre uma toalha fofa.
Durante o dia, os pitúncios ficavam lá, enquanto havia outras brincadeiras, como preparar, assar e comer biscoitos, pintura na oficina de artes, atividades no clubinho ou na quadra de esportes, entre outras atrações. Mas, de volta ao quarto, sempre havia tempo para uma história em torno dos pitúncios.
Qual não foi nossa surpresa quando, no dia de vir embora, Henri trazer consigo toda a turba de pitúncios cocos.
Foi uma árdua negociação, entre lágrimas incontidas, para que apenas 15 pitúncios embarcassem para o sul. Que dificuldade escolher quais trazer consigo e quais abandonar nos jardins! Os sobrantes foram conduzidos em pomposo ritual a um canto seguro e de boa sombra. Todos juntos, ao redor do coco maior, o “papai que protegeria a todos”. Choroso, Henri repetia: “até nunca mais, pitúncios!”
O episódio me fez recordar que, com idade semelhante a que Henri tem agora, sua irmã Valentina teve uma experiência parecida com um abacate. Naquele ano ela era rainha do carnaval infantil. Instantes antes de ter que adentrar o salão do clube à frente de seu bloquinho, ela teve um chilique praticamente incontornável, porque o arranjo de cabeça estava sendo incômodo. Retirou-o e decidiu que não mais se apresentaria com o bloco. À beira do desespero, e amparada por seu talento para lidar com crianças, minha filha recorreu a um dos métodos que melhor funcionam com crianças emperradas: desviar o foco para o mundo da imaginação. Vanessa, mãe de Valentina, vislumbrou um abacate que havia caído da árvore, e chamou a atenção de minha neta para o abandono do pobre fruto que havia se desprendido da mãe árvore e estava lá atirado à própria sorte.
A exemplo dos pitúncios, o tal abacate, cujo nome não recordo (mas teve um), foi integrado à família e conviveu conosco por um bom número de dias. E claro, foi o responsável por apaziguar os ânimos de Valentina e fazê-la entrar no salão do clube, radiante, com seus coleguinhas de bloco.