Conheça a história de fé da taquarense Maria Pacheco


TAQUARA – “Uma vida sofrida, de muito trabalho, mas de amor no coração.” A frase..


O centro recebe pessoas de diferentes ocupações, todos tratados como amigos pela anfitriã. Cristiano Vargas/Jornal Panorama

TAQUARA – “Uma vida sofrida, de muito trabalho, mas de amor no coração.” A frase de Maria Ironita da Silva Pacheco, 81 anos, resume a trajetória dela como mulher negra, mãe e religiosa. É no terreno da propriedade que mantém há 52 anos o Centro Espírita de Umbanda Pai Xangô, em que recebe amigos, promove encontros e está à disposição para aconselhar e pedir a proteção dos orixás. “Trabalho no amor, na paz e na justiça.”

Entrou para a umbanda aos 28 anos. Com 30, fez a preparação para se tornar chefe de terreira. “Posso ser pequena, mas minha fé é inquebrantável, move montanhas”, garante. Na festa de inauguração, em 1969 – quatro anos depois da fundação –, mais de 300 pessoas comemoraram em festa o reconhecimento oficial do local pela então União de Umbanda do Rio Grande do Sul. Mas, até aí, a vida já tinha sido marcada por perdas significativas.

Quando tinha dois anos, a família de Maria se mudou para Lajeadinho. Os pais, Manoel Antonio da Silva e Jovelina Pereira da Silva, trabalhavam na roça, onde também começou aos cinco anos. Com sete anos, voltou a morar na cidade, para estudar no educandário do bairro Santa Rosa, atualmente a Escola Rosa Elsa Mertins. “Não aprendi nada, nem a letra A”, recorda com lamentação, contando dos castigos severos dos professores. O preconceito vinha inclusive daqueles que deveriam dar o exemplo e ensinar.

A infância sofrida foi marcada pela carência de recursos financeiros. Faltava roupa, calçados e alimentos. Mas, uma lembrança guardada com afeto é dos amigos da época, Erno e Werner. Os dois se comoviam com a forma discriminatória com que Maria era tratada. Para acalentar o coração dela, presenteavam-na com fatias de pão com chimia durante o recreio. Depois disto, a mãe a retirou do educandário, sendo matriculada na Escola Estadual Rodolfo Von Ihering, onde aprendeu a ler e escrever.

Nasceu em meio ao mato onde hoje fica o bairro Jardim do Prado. Foi naquela região que a mãe ajudou a formar a Vila África, reduto em que moravam famílias humildes em Taquara. Com recursos angariados, a comunidade construiu um barracão para realizar celebrações religiosas, como missas, batizados e casamentos. Os moradores fizeram uma festa para arrecadar dinheiro e construir a primeira igreja africana no município, mas todo o valor conquistado foi roubado. Com a abertura da ERS-115, as famílias foram realocadas em outros locais, como na rua Miguel Bauer.

Com 11 anos, teve que trocar o lápis e papel pela rotina de trabalho. O primeiro emprego foi no Hotel Jaeger, onde fazia serviços gerais e passou a cuidar do filho de Ari e Arlete Jaeger, o Tito Livio Jaeger, recém-nascido. Aos 13, entregava leite, mas o salário era muito baixo, e acabou trocando por uma vaga em uma residência de Igrejinha, responsável também pelos afazeres domésticos e babá. Depois, foi para uma empresa que produzia tinta.
O emprego em um curtume de Taquara foi dos 14 aos 16 anos. A partir daí, foi contratada pela CRT, até os 22. Só saiu porque iriam transferi-la para Canela, o que era inviável, uma vez que havia casado recentemente com Euclides Pacheco, conhecido como Pirisa. O companheiro faleceu há 17 anos, em razão de apendicite aguda. Voltou ao mercado de trabalho aos 24, em um atacado do município. Depois, montou uma feira ambulante por três anos. Aconselhada por amigos, decidiu abrir um negócio próprio, em frente a casa, quando deu início ao Bar Armazém Pacheco, de onde tirou o complemento da renda por 18 anos, até se aposentar.

Durante toda a vida, conta ter sido vaidosa, com brincos e colares, além de turbante – exigência da umbanda – e unhas bem cuidadas. Ao acordar, gosta de se arrumar antes de tomar café da manhã. Vinda de família grande, formada por oito irmãos – Maria foi a quarta nos nascimentos –, ela também teve dez filhos, mas seis faleceram ainda recém-nascidos. Também adotou, como os gêmeos Luiz e Luiza e André e Andreia, além de acolher as crianças da vizinhança. Hoje, tem orgulho dos 13 netos e oito bisnetos que ajudam a compor a história dela. “Graças a Deus, posso dizer que sou feliz.”

Na umbanda encontrou a paz de espírito

Das quatro gestações de gêmeos, Maria perdeu três. Os seis filhos morreram antes de completarem um ano. Dos falecidos, a que mais durou foi Paula Celeste, até sete meses e 25 dias. Sobreviveram Paulo Roberto e Magda Aparecida, mas não sem antes o casal lutar pela vida dos rebentos, desenganados pela medicina. “Naquele tempo não tinha os recursos que existem hoje”, comentou. De outras duas gravidezes, nasceram Marli e José Vasconcelos. Segundo explicações, o que causava a morte logo após o nascimento é que Maria e Euclides teriam o mesmo tipo sanguíneo.

Cada filho perdido era uma dor sem fim. Maria e Euclides estiveram à beira da loucura ao ver os recém-nascidos desfalecendo sem poder impedir a partida. Venderam dois terrenos para prover recursos médicos, mas nada adiantava. Após a morte de Paula Celeste, o marido fugiu de casa, sendo encontrado por conhecidos e levado até a residência dos pais dele, em Canela. Em Taquara, Maria, também estava emocionalmente abalada, mas precisava lidar com a saúde frágil de Paulo Roberto e Magda Aparecida. O menino, com pouco menos de dois anos, mas adoecido desde os seis meses, tinha o corpo franzino, retorcido e mal se alimentava.

Maria foi para a Serra junto do marido, com o filho enfermo. Lá, receberam a recomendação de que visitassem um curandeiro. Desconfiados, o casal relutou, pois já haviam contado com a ajuda espiritual de outros religiosos, mas nada resolvia. De madrugada, Paulo Roberto deu a impressão de que iria falecer. Maria suplicava pela vida do filho, implorando ao marido que aceitasse levar o pequeno até o benzedor.

Os dois fizeram quatro viagens ao endereço daquele que poderia os ajudar, porém não encontravam ninguém em casa. Na última, decidiram que ficariam até ele aparecer. Quando o sujeito chegou, disse que não poderia fazer nada. Mas, Maria insistiu tanto que o curandeiro acabou cedendo às súplicas, aconselhando que buscassem recursos em um centro espírita indicado por ele.

Lá, um senhor grisalho os atendeu, pedindo que voltassem na quarta-feira da semana seguinte, pois a sessão do dia havia encerrado há pouco. Maria estava temerosa de que o filho não fosse suportar. O médium Maurício Duarte, no entanto, tentou acalmá-la, dizendo que, ao chegar à casa dos sogros, receberiam um sinal de que as coisas iriam melhorar.

Ao retornar, exaustos pelo dia de peregrinação, bateram à porta, e, ao ser aberta pela sogra de Maria, enxergaram uma luz. Crentes de que o filho havia falecido, ela desmaiou e o marido foi aos prantos. No entanto, o brilho que ofuscou os olhos do casal era de uma vela que a mãe de Euclides segurava, acendida para Nossa Senhora, e iluminava a casa, que havia ficado sem energia elétrica. Naquele dia, Paulo Roberto se alimentou, estava ativo, observando as outras crianças da casa, o que apaziguou os pais.

Foram quatro idas ao centro espírita. Disseram que em duas semanas a criança começaria a caminhar. No Dia das Mães, o pequeno levantou da cadeira em que estava sentado e deu os primeiros passos em direção a Maria, que, emocionada e incrédula no que via, desmaiou. Os trabalhos continuaram na casa da família Pacheco, com a visita de Maurício. “Ele nos trouxe a paz de espírito.” A fama do médium se espalhou por Taquara, atraindo pessoas até o imóvel à procura de socorro. Aos poucos, ele começou a atender aos pedidos na cozinha de Maria.

A movimentação no imóvel passou a chamar a atenção de outros centros espíritas, que começaram a denunciar o caso como charlatanismo. Na época, o delegado de polícia sugeriu que fosse regularizada a situação junto a Federação Espírita e Umbandista do estado. Tirou do bolso um cruzeiro, dando a primeira contribuição para a campanha que arrecadaria fundos para a construção do Centro Espírita de Umbanda Pai Xangô. Também tiveram aqueles que doaram materiais de construção. Com a ajuda coletiva, o espaço de expressão de fé foi construído e inaugurado em 29 de setembro de 1969, no aniversário de Maria. “A terreira é pequena, mas lá em cima eu sei que ela é grande”, conta, apontando para o céu.

O prédio atual, em alvenaria, foi construído há 22 anos. “Aqui passam médicos, advogados, vereadores, trato todo mundo como amigo”, ressaltou. A mulher que estudou até o quinto ano se autodefine “analfabeta para algumas coisas”, mas, quando o assunto é espiritualidade, ela leciona. Hoje é sócia vitalícia do Conselho Estadual da Umbanda e dos Cultos Afro-Brasileiros do Rio Grande do Sul, onde é conselheira. “Sou feliz e faço com que aqueles que se aproximem de mim se sintam acolhidos.”

Sonho de voltar a desfilar

Maria sempre esteve envolvida na Escola de Samba Unidos da Pinheiro, fundada por Romeu Rosa (Búgio), assumindo a presidência da agremiação de 1996 até hoje. Durante sua gestão, conseguiram terreno para a sede da escola, onde são realizadas todos os anos festas para as crianças. “Vamos continuar lutando para sair o carnaval”, contou ela, que sonha em voltar a desfilar ao som de bateria, plumas e confetes pela Júlio de Castilhos. Outro desejo é oferecer oficinas aos pequenos e organizar um carnaval mirim. “Era bonito ver a criançada unida, brincando. É a continuação da escola.”

Matéria publicada na edição impressa de 15 de dezembro.

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