Considerações pretéritas, por Rui Fischer

Leia o artigo do taquarense Rui Fischer dentro do espaço Caixa Postal 59, que recebe contribuições dos leitores.

Era começo dos anos de 1960. Nós morávamos nos altos da Rua Guilherme Lahm, onde ficava a antiga Madeireira Carniel, aliás, a casa onde residíamos, era alugada dos donos da citada empresa. Como não lembro exatamente dos anos, vou dizer que  a época que lá moramos, a minha idade foi entre 10 e 13 anos, o tempo transcorrido dessa crônica. Muitas coisas se passaram nessa fase da minha vida, cuja mesma, tenho muita saudade. Foi nessa época que aprendi muitas coisas, senão, vejamos: fazer trabalhos manuais no nosso Colégio Rodolpho, trabalhos estes, de muita utilidade para uma criança, tipo, fazer carrinhos, pandorgas (lindas!); também foi nessa época que dei as minhas primeiras pedaladas de bici e os primeiros tombos rsrs…nossa, quando ia para Padilha, na casa do tio Willi, usava e abusava da bicicleta do Paulo Fischer, meu primo e, pelo perfil da estrada, e a novidade do aprendizado, parece que lá, a tesão (de andar) era maior – em Taquara, era só em linha reta. Foi com esse tipo de aprendizado, que o amigo Gão (filho do Candinho da Veiga), certo dia, descendo a Guilherme (naquela época de saibro), escapou o pé do pedal e pegou nos raios da roda dianteira, sendo que o dedo mindinho do pé direito, saiu rolando rua abaixo. Porém, maior fatalidade ocorrida na época, ocorreu com o amigo Augusto (Augustinho, filho moleque do seu Giácomo Carniel): ocorre que costumávamos brincar dentro da madeireira, principalmente em dias de chuva e, num dia desses, o Augustinho foi colocar a pulia da máquina de aplainar, sem que o motor estivesse desligado, não deu outra… seus dedos da mão trancaram na polia e ele morreu todo quebrado em volta das engrenagens da máquina.

Uma tragédia, depois daquele dia, seu irmão, o Remi, espécie de gerente da empresa, nunca mais deixou nós pôr os pés dentro dos galpões da empresa – nosso local preferido de brincar. Porém, nossas brincadeiras não eram somente lá. Brincávamos também de jogar bola, não tinha um lugar próprio, onde tinha um espaço, lá estávamos nós batendo uma bolinha, falando em bolinha… bolinha de gude. era outro passatempo. Porém, outro passatempo, muito comum, era fazer coleção de carteiras de cigarro. Dia desses vinha pela Guilherme no sentido de casa, quando em frente a fábrica de vassouras dos irmãos Wilhelms, onde foi depois a Fábrica da Pratika e onde é hoje, a Delegacia de Polícia, quando de repente, avistei, sabe o quê? Uma carteira de Minister…nossa, eu e o amigo que estava comigo, quase nos agarramos a socos. Mal sabíamos que em pouco tempo, uma carteira desse cigarro, era mais fácil de achar do que andar pra frente. Mas, não era só de brincadeiras que faziam parte da minha vida pretérita.

Foi nessa época que tive o meu primeiro emprego, tipo 12 anos, no Armazém Dias (;do sr. José Dias da Silva, pai do Português Izeu)na Tristão Monteiro, antes fui vendedor de jornais (Última Hora, hoje Zero Hora), com muito orgulho…uma curiosidade sobre esse “emprego”, como morávamos perto da Zona do Meretrício, mesmo com tenra idade, nosso principal ponto de venda de jornais era justamente na ZBM rsrs. Algum tempo depois, fui trabalhar no armazém do seu Osmar Riegel, na esquina da Mal. Floriano com Bento Gonçalves, emprego este, arrumado pelo meu irmão Sergio, cujo mesmo havia lá trabalhado uns meses antes. Adorei trabalhar no Armazém Dias, eis que a sua filha Ivete tinha uma bicicleta de mulher com pneu balão, uma gostosura de andar, já que ainda era um pouco maneta naquela época. Noite dessas, o babaca que vos escreve, foi fazer uma linguiça frita, para acompanhar o café, com pão de milho chimier e nata, é lógico. Só que, a criança dentro de mim, achava que já era um cozinheiro e coloquei sal na fritura da dita linguiça…ora, essa foi demais! Nunca mais esqueci, eu e meus dois irmãos (que estavam comigo em casa) comemos a dita, empurrados pela fome. Também, como é que um piá com aquela idade, ia imaginar que esse tipo de embutido já vinha salgado de fábrica! Outro fato que marcou minha infância, foi quando lançaram os chinelos de dedo de borracha eu, achando que aquilo era coisa de mulher e, por cima grosso da colônia, me neguei a calçar aquele calçado. Porém, nem tudo estava perdido, superando os tais chinelos, em beleza e qualidade, surgiu, sabem o quê? Isso mesmo…as Sandálias Havaianas (aquelas que não soltam as tiras, lembram?!). Sim, porque os chinelos comuns, viviam soltando as tiras, quando não arrebentavam, no entanto, em qualquer armazém de esquina, havia à venda as tiras para reposição e na cor que você quisesse. O problema, é que as Havaianas eram mais caras e, para gente do subúrbio, com pouca grana, sabe como é, né? Foi nessa época, também, que calcei o meu primeiro sapato. Meus pais tinham um casamento de um afilhado em Sapiranga e eu iria junto mas, para tal, precisava de um sapato, coisa que para mim era uma novidade total. Ah, mas pra quê,… o tal de sapato me apertou o pé o tempo todo, acho que foi daí que me ocorreu uma anomalia que carrego até hoje: que foi as tais de unhas encravadas nos dois dedões dos pés e, porque não dizer, nos outros dedinhos.

Foi nesses anos, para mim dourados, que tive o prazer de ter diversos amigos de infância, cujas amizades perduram até hoje, tais como: Wandederlei Fries, Tiarajú (Tiara) e Jorge (Jorginho) Wilhelms (irmãos), Celso e Romeu Carniel (também, irmãos), Irineu Carniel (primo destes) e outros. Uma diversão que não posso deixar para trás, são os banhos escondidos dos nossos pais, na prainha do Sinos e, nos arroios Tucanos e Santa Rosa (panelinha e poção nas terras dos Czermack), como falei, os banhos eram estritamente escondidos…e ai se os pais descobrissem…nossa!,,, Outra, eram banhos de cueca, as quais, torcíamos até quase arrebentar, para os pais “não notarem” (conta outra!) De parte minha e dos irmãos, outro prazer que tínhamos, era visitar os avós e tios e os primos, é lógico, na colônia, Padilha ou Açouta Cavalo, dependia dos avós (paterno ou materno).

Uma outra “brincadeira”, sem muitos motivos de se orgulhar, eram as fundas: coitados dos passarinhos e dos canecos de porcelana dos postes de luz Essa, amigos, são as minhas Considerações Pretéritas, as quais, tenho muitas saudades até hoje. O problema: o espaço exíguo… teria algumas (talvez muitas) outras histórias para relatar neste espaço,…porém, como falei…o montante de caracteres me traiu. Outro problema: quando começo a escrever, não vejo que já ultrapassei o limite…fica para a próxima. Ok???!!!   

Rui Fischer
Aposentado, de Taquara