Cura do mundo, por Plínio Zíngano

Penso, logo insisto

Leia a coluna “Penso, Logo Insisto”, assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – Na tolerância você não precisa amar comportamentos e tipos físicos diferentes dos seus. É só tolerar! Mas, para muitos, isso é intolerável!

Cura do mundo

            Em junho do ano passado, 2019, num repente, lembrei de Michael Jackson, o famoso compositor e cantor norte-americano. Seu falecimento Estava completando dez anos. A primeira grande reação, minha e de muitos outros, como eu, foi: “já?”. Depois veio o clássico “parece ter sido ontem!”. Mas, por qual razão, hoje, esta lembrança, uma vez inexistir qualquer efeméride especial a reforçá-la? Pelo menos, não em nível público. Porém, em nível particular e conversa é outra.

            Num desses últimos dias de janeiro, ouvi, no celular de alguém perto de mim, a suave e bela e canção “Heal the world” (“Cure o mundo”), da qual Michael foi um dos compositores. Tornou-se um hino de amor ao próximo e à concórdia universal, preocupado coma as crianças do mundo. Através dela, aprendi uma palavra do inglês, até ali desconhecida por mim, mas impressionante pela semelhança com nosso português: “entire”, no verso “entire human race”, pretensiosamente, envolvendo a raça humana inteira. Independente da curiosidade linguística no âmbito pessoal, o importante era a mensagem de amor ao próximo. Então, depois da doce recordação, a realidade nos impactou.

            Nós, consumidores de arte (música, poesia, cinema, literatura, pintura, etc.) temos uma tendência quase incontrolável de confundir a criação com o seu criador. A história de um livro  se nos afigura como a manifestação das crenças de seu escritor; um poema representa pensamentos mais profundo de seu poeta; um quadro seria a própria fotografia do espírito de seu artista. Assim, “Cure o mundo” representou o mais puro desejo de seu autor. Jackson tornou-se forte candidato à canonização. Entretanto, lembremos que cada uma dessas produções são trabalhos, quase sempre independentes de outros. E um pode ser completamente o contrário dos anteriores.

            Num antigo texto meu, abordei a diferença entre obra artística e realidade. Naquela ocasião, o motivo também foi uma peça musical. Tratava-se de “All you need is love”, do grupo inglês The Beatles. Para quem pregava amor como solução de todos os males da humanidade, a dissolução da banda em meio a um grande desamor, pouco tempo depois do lançamento do disco, foi uma grande decepção para seus seguidores. O mesmo aconteceu com relação a Michael Jackson. Seu real comportamento pessoal no respeitante às crianças – tema fundamental de “Heal the world” –, indicava desprezível postura social, além de criminosa.

            É muito difícil acreditar nessa história de “vamos todos dar as mãos”! Não são poucas as pessoas a fim de tirar-lhe os anéis. Se você bobear, levam-lhe também os dedos, deixando o mundo mais doente ainda.

Por Plínio Dias Zíngano
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