Da boca para fora, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia artigo do jornalista Rafael Tourinho Raymundo.

Da boca para fora

É difícil encontrar a palavra exata. Nem sempre o vocabulário corresponde ao nosso pensamento, então ficamos sem saber como externar uma ideia.

A situação se complica numa conversa cara a cara. Basta uma divergência para que os ânimos se alterem. Queremos defender uma opinião, ou mesmo expor argumentos que comprovem nosso ponto de vista, mas os sentimentos costumam ser mais rápidos que a razão. Falamos sem pensar. Dizemos o que não devíamos. Frente às ofensas e às mágoas resultantes, só nos resta tentar remediar a situação. “Foi da boca para fora”, arrependemo-nos.

Pode ser que, entre amigos ou familiares, o caso se resolva. Não fomos treinados para a retórica, afinal. Porém, as palavras têm poder. Elas revelam ideologias e posturas que podem influenciar outras pessoas, tanto positiva quanto negativamente. Desculpas e retratações, às vezes, não consertam o estrago. Por isso, quanto mais notória é uma figura pública, mais ela precisa calcular seu discurso.

Imagine um pastor declarando a seus fiéis que os membros de outras religiões devem ser metralhados. Seria apenas força de expressão? Ou será que algum seguidor pegaria em armas para livrar a Terra do pecado? Ataques terroristas acontecem, no mundo todo, em nome de Deus…

Agora pense num professor, junto a uma turma de adolescentes, dizendo que seus filhos não namoram mulheres negras porque foram bem-educados. Há quem interprete o comentário como uma piada. Outros não conseguem defender o racismo explícito da fala.

Um último exemplo. O gerente da loja reúne a equipe e queixa-se que certos comportamentos de funcionários ocorrem por falta de pancada na infância. “Apenas modo de dizer”, mas também rende uma investigação por assédio moral.

As cenas aqui descritas talvez soem absurdas. No entanto, existe um parlamentar que vem repetindo impropérios semelhantes há anos – no palanque, nas entrevistas, no Plenário do Congresso Nacional. O cara já tem uns 30 anos de vida pública. E ele sabe muito bem que, em política, nada é da boca para fora. Toda afirmação repercute entre os eleitores.

Esse senhor lidera as pesquisas de intenção de voto para um cargo de extrema importância do Executivo. Em nome dele, sujeitos já ameaçaram, agrediram e até mataram outros indivíduos. As palavras representam ideias – e as ideias geram ações de pessoas desequilibradas.

No cenário político atual, tem faltado diálogo entre as partes. Somente a conversa ponderada pode indicar planos reais para os desafios do país. Em vez de aceitar o debate, o candidato prefere soltar vídeos nas redes sociais, território onde sobram opiniões raivosas e faltam argumentos concretos.

Você pode achar que estou exagerando. Quem dera. Ofender uma colega mulher não é força de expressão. Homenagear torturador, durante sessão solene, não é brincadeira. O discurso de ódio elimina qualquer chance de resolvermos os problemas com racionalidade. Nessa estratégia de abafar e ridicularizar as vozes dissonantes, todos saem perdendo. Depois do estrago, não adiantará pedir desculpas.

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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