Das coisas que ouvi como mulher, por Krishna Grandi

Espiga de milho cega

Acompanhe a coluna de Krishna Grandi, acadêmica de Publicidade e Propaganda da Faccat.

Das coisas que ouvi como mulher

Quando era de colo, já ouvia “essa aí vai dar trabalho quando crescer”, achava que era arte. Afinal, dos inúmeros elogios, arteira, era o mais comum. Não entendia a malícia da coisa. Por fim, o fundamental, de uniforme. Não entendia os alertas “tu não deve falar com estranhos”, “não toca nisso, não toca naquilo”, era perigo na esquina.

Conforme crescia, notava os diferentes tratamentos. O primeiro beijinho. A confiança do não ser mais “bv”. Os carros que paravam no sinal verde para me ver passar. O dia que “virei mocinha” e que se espalhou como um acontecimento levantando fogos de artifícios. “Já é tão madura pra essa idade” das pessoas ao redor.

Da irritação de ter meu nome escrito na porta do banheiro masculino, porque não quis ficar com o fulano de tal. Dos boatos sujos que corriam na escola e eu não podia fazer nada, só reclamar e ouvir de outras mulheres “Vai ver ele gosta de ti… Fez isso porque te ama e tu negou ele, daí eles ficam brabos mesmo”. De escolher os que queria ficar e do sentimento bom que era poder escolher.

Então isso passou. Ficou pra trás junto com os erros. Aí virei mulher e precisava trabalhar. “Mas com esse rostinho? Parece menininha.” Tola. Imatura. Irresponsável. Precisa de experiência. E nessa época já estava confusa. Antes era madura demais para a minha idade, agora pareço menininha e soa como se não soubesse o que eu quero. Então, sou surpreendida na cozinha do escritório escutando outros dois colegas homens “Essa fase é boa, porque já é legalizado, mas o corpo ainda é de mocinha”. A vontade de vomitar. Sabia que eles falavam das alunas.

Cresci. E me pergunto, às vezes, se “dei trabalho”. Na época, parecia o fim do mundo um namorado expulsado da casa dos meus pais. Hoje, eu até entendo. Não prestava no fim das contas. Ouvia promessas furadas e acreditava em qualquer coisa. As amigas mulheres? Ouço as mesmas histórias. Muda endereço, nome, cidade, escritório.

Então vem as dúvidas. A carreira é boa? Devo mudar? E a arte? Aprontar, ser “arteira” de novo. E a gente vai lá e tenta. Porque ouve o coração. E escuta os primeiros “nãos”. Desanima. Começa de novo. E no fim, escuto que estou velha demais para recomeçar nessa área. E já não entendo mais nada. Nunca estou na idade certa. Me resta a atemporiedade da escrita. Do desabafo. Da música que sobrevive, do teatro que renasce e da vida que é efêmera.