Delmar Backes

Diretor das Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT) e do Conselho Regional de Desenvolvimento (COREDE).

• Como ter sido seminarista influenciou sua personalidade e sua vida?
Trouxe uma forte influência em disciplina, senso de hierarquia e amor aos estudos. Reproduz um ambiente bem próximo ao que tive na vida em família, onde se destaca o respeito, a educação, a dedicação, a responsabilidade. Se meu núcleo familiar não tivesse este DNA, dificilmente teria ficado no seminário durante o ensino médio e superior. Trago da família um espírito de bom humor, de gosto pela música, e isso se completou no seminário, embora tenha sentido muito o afastamento dos pais e irmãos, da parceria familiar durante o trabalho na roça. No seminário, receber uma carta de casa era meu maior presente. Mas logo desenvolvi vínculos naquele meio também, e sentia saudade dos colegas nas férias.


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• Como era seu meio familiar na juventude?
Meus pais eram colonos, fui colono, como todos os meus irmãos (sou o penúltimo de nove filhos). Durante o trabalho, cantávamos e nos divertíamos. Na volta da roça formávamos um coral interessante, cantando coisas do tipo Luar do Sertão. Na nossa família somos de bom trato, temos a alma leve, sem sermos bobos alegres. Três irmãos estudaram no seminário, o mais velho tornou-se padre. O ingresso no seminário foi a oportunidade que tivemos de estudar.


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• E como tornou-se professor? Fale desta carreira.
Durante o período do seminário, chegou a época do estágio, e eu propus fazer Teologia em São Leopoldo, tendo em paralelo a atividade de professor em Taquara, porque não conseguia aceitar, já sendo um marmanjão, continuar sustentado pelos pais e irmãos.
Como professor, cheguei a lecionar 15 períodos por dia, em diferentes escolas e cidades. Foi aí que adquiri hábitos noturnos, corrigindo provas madrugada afora. Hoje mantenho este traço, trabalhando bastante noite afora; mas é claro que não dá para fazer isto todos os dias, dormir às quatro e acordar as sete da manhã. Na época em que dava muitas aulas, e noutra ocasião em que acumulava muitas responsabilidades, desenvolvi quadros de grave estresse. Numa ocasião fui aconselhado a me inscrever para um intercâmbio na Alemanha, a fim de desestressar; noutra vez, fiquei tão magro que um amigo me sugeriu que fizesse um teste de HIV, e fiz, mesmo achando que não havia sentido naquilo. Ainda houve a oportunidade em que me aconselharam a fazer caminhadas. Foi aí que descobri a área ideal para o futuro campus da Faccat. Era uma área então de pântano, pinus, um loteamento abandonado. Lembro que na época uma liderança me perguntou seu eu pretendia criar gado ou construir uma faculdade ali… Aí está!

• Há quem diga que a Ciranda Musical parou porque você é muito concentrador.
Quando a Faccat começou a me absorver demais, chamei o Eldo Ivo Klain e coloquei a situação a ele, que respondeu: “então a Ciranda já deu o que tinha que dar”. Ocorre que era a estrutura da Faculdade que organizava o festival, e isto já estava atrapalhando a Faccat. Embora não tenha surgido até hoje outro evento cultural mais importante para Taquara do que a Ciranda, percebi naquela ocasião que era o momento certo de parar com o festival para mantê-lo vivo até hoje. Algo que se assemelha à decisão de Pelé, que soube a hora de parar.

• Seu Facebook lotou a capacidade e tem lista de espera. Como administra isso?
Quando iniciei no Face, em 2012 ou 2013, tive a agradável surpresa de que a capacidade logo esgotou o limite. Tem uns dois mil pedidos aguardando, mas sei que o pessoal compreende e não fica chateado. Foi um instrumento que me fez consciente da gratidão de muitos estudantes que manifestam por ali o reconhecimento por algum tipo de ajuda, aconselhamento, apoio. Recebo e converso pessoalmente com muitos alunos para soluções que só se tornam possíveis face a face. Muitos conseguem permanecer estudando pela solução que se encontra em conjunto. Apenas lamentar as dificuldades deles, desejar boa sorte e dizer que nada pode ser feito me parece muito cínico. Vejo como obrigação de educador esta interação em busca de soluções.

• Você se considera vaidoso?
A pessoa tem que se preocupar com o cuidar-se na aparência também. Não precisa ser todo vaidoso. Para ser simples não precisa ser desleixado. Não é orgulho cuidar-se no vestir, cuidar do cabelo. Torna mais fácil a convivência. Ninguém tem que aturar um vizinho no ônibus que obrigue a abrir a janela para se poder respirar. Vestir-se de forma adequada é importante, usar um perfume. Comparo muito o cuidado pessoal com o cuidado que temos com nossa casa. Pode ser simples, mas precisa estar caprichada. Quando fui secretário de Educação e visitava uma escola, avaliava os diretores também pelo capricho no ambiente escolar, por mais simples que fosse. A escola tem que dar o exemplo também. A simplicidade anda longe da displicência. Apesar de pensar assim, não gosto, por exemplo, de conviver com a “dita alta sociedade”, aqueles grupos onde só se compara roupas, observa-se os outros para criticar e para ostentar superioridade.

• Por falar em ambiente escolar, como você vê a situação do ensino brasileiro?
A educação no Brasil só encontrará seu rumo apropriado e eficaz quando educadores assumirem os cargos em nível governamental e em todas as instituições referentes à área. Reforço: a educação nunca será o que deve ser enquanto não forem educadores os responsáveis em todos os níveis.

• O seu envolvimento em tantas frentes e as atividades madrugada adentro não atrapalham a sua vida pessoal e familiar?
Casei com 24 anos, tivemos quatro filhos. Nenhum deles ficou rico, mas são todos bem resolvidos, queridos e unidos. Raquel e eu temos quatro netos e uma a caminho. Procuramos ter todos os meses um jantar em que todos estejam presentes. Além disso, uma vez por ano realizamos uma viagem – o casal, os filhos e os netos, sem os agregados (risos). Trata-se de uma espécie de convocação sem direito a recusa. Assim também acontece em relação a meus irmãos; de dois em dois anos nos reunimos para uma semana na praia, os irmãos e os cônjuges. Aí puxamos tudo do passado, resgatamos a história de vida de cada um, e vamos madrugadas a dentro conversando.
Claro que já levei muita bronca da Raquel por me atrasar para programas pessoais, por privilegiar os compromissos do trabalho nas diversas frentes em que tenho atuado ao longo da vida.