(Des) Apego, por Jéssica Ramos

Leia o artigo da jornalista Jéssica Ramos do Jornal Panorama

(Des) Apego

É incrível como o mundo se transforma, movido pelas nossas experiências. Sabe, o mundo está aí. As coisas, a verdade. É tudo absoluto. Exceto nossa percepção e reação a respeito. Uma engenharia e tanto. O tempo? O tempo é o mestre da obra. É com ele que algumas coisas passam a fazer sentido – a ter sentido – e outras, tornam-se apenas lembranças, aprendizado, desapego.

Ah, o tal desapego. É aquele funcionário genial, cheio de conteúdo, mas que vive atrasado e costuma perder compromissos e clientes consideráveis. Vez em quando, entra em confusões, agindo por impulso também. Em outras palavras, é o mocinho e também o vilão da história. Isso por que o desapego, tal como todas as modinhas e tendências, facilmente torna-se hábito.

No entanto, é impossível negar a beleza, a economia e até mesmo o bem estar que reside no ato de aderir ao desapego – de livros, roupas, acessórios, toda a infinidade de artigos que você imagina, possui e, principalmente, não faz mais uso. Afinal de contas, a gente (a maioria das pessoas) tem mesmo o costume de acumular coisas e construir o famoso cômodo da bagunça. Exercitar a máxima de que “quem guarda o que não presta, um dia tem o que precisa”. Mas, foi-se o tempo de acumular objetos e, consequentemente, poeira.

O tempo é de desapego. Nada é mais prazeroso do que poder limpar o guarda roupas, por exemplo, e reencontrar uma peça antiga, mas bem conservada, e perceber que ela voltou à moda. Principalmente quando ela ainda serve. Ou então quando ela tem uma notinha de R$20,00 no bolso. Ah, é bom de mais! Bom também é poder encher sacolas e mais sacolas e destinar à doação. Ficar com o coração risonho, mesmo sem passar no caixa eletrônico. Não que o desapego também não possa somar às economias, afinal de contas os briques e brechós estão em alta.

O desapego também segue a linha das memórias, das histórias e dos significados. Não são apenas coisas passadas adiante. São coisas cheias de momentos. Mesmo que não percebamos, eles estão lá. Talvez por isso, muita gente ainda sofra tanto para desapegar. No fundo, os objetos, a mobília, são meros coadjuvantes, e a possibilidade de desapegar gera um conflito, um medo de “perder” uma parte de nós.

Uma almofada, que não combina com absolutamente nada em casa, mas que foi presente de uma pessoa que nos fez sorrir apenas por estar ali.. o bilhete do teatro onde você conheceu sua melhor amiga, namorada – a mãe dos seus filhos.. o resultado do teste de gravidez.. a primeira aliança do seu filho. Tudo é memória e, assim, o desapego também tem seu lado cruel. Em tempo e, com bom senso, escala-se o equilíbrio como protagonista. Sem ele desapegamos fácil das coisas, das pessoas e, consequentemente, de nossos valores.

É quando a gente aprende a desapegar, não só de um relacionamento abusivo, de uma dieta tóxica, de coisas que não fazem mais sentido e apenas somam peso em nosso dia a dia. Quando desapegamos também da empatia, do caráter, do perdão, da caridade.. do amor. Quando desapegamos dos domingos em família, na casa dos avós. Desapegamos dos órfãos que outrora adotamos, mesmo que via doação mensal, ou com dinheiro, ou com carinho. Desapegamos dos nossos próprios filhos..

É quando desapegamos do próprio trabalho, de projetos que sonhamos durante toda a infância. Quando – junto com as bijuterias, os sapatos, os livros, discos, e latas de bombons – se vai também a nossa essência. Finalmente desapegamos de quem somos/fomos, não para evoluir, mas para nos tornarmos mera aparência descolada, que circula e arrecada joinhas nas redes sociais.

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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