Desnorteados, por Roseli Santos

Leia a coluna da jornalista Roseli Santos.

Desnorteados

Acontecimentos estranhos agitam nosso país e o mundo. Faz tempo que alguma coisa está fora da ordem. Na verdade, parece que muitas coisas estão fora do eixo, fora da casinha, sem um norte.

O termo desnorteado nunca me pareceu tão apropriado para o momento atual. Estamos à deriva? Que bússola nos orientará? Que estrela nos guiará? E, por favor, não interpretem “estrela” como um símbolo partidário.

Aliás, essa coisa de escrever e ter que se justificar, para ambos os lados (direita e esquerda), é algo inédito e surreal para nós, jornalistas “da antiga’, digamos assim, formados, graduados, pós-graduados e calejados como repórteres de rua e tudo o mais. Aprendemos (ao menos a minha geração de jornalistas), a noticiar, a informar, a reportar com imparcialidade, sempre ouvindo os dois lados, mas nunca omitindo informação por medo da censura.

Nem censura e, o que é pior, nem autocensura. O medo de ter medo é o que mais amedronta a nossa categoria hoje. Está difícil de dizer, de opinar e de comentar diante de tanto amadorismo (o grande culpado, talvez, por estarmos nessa situação fake) e do cerceamento à liberdade de expressão, disfarçado por autoridades governamentais e, o que é pior, manifestado todos os dias por cidadãos comuns, pelas redes sociais, transformadas em “púlpitos da razão e do saber”.

            Seja em redações de jornais, em assessorias de imprensa ou como cronista por mais de três décadas, confesso ser mais “comedida” ao escrever agora, nestes tempos estranhos, muito estranhos, onde cada palavra tem que ser articulada e muito bem colocada para agradar a “gregos e troianos”, embora eu não me enquadre nesse perfil.

            Mais comedida não quer dizer, obviamente, que me renda aos devaneios e assombros de quem nunca aprendeu e praticou o que é jornalismo de verdade. Lamento não agradar nem a um lado e nem a outro. Sigo escrevendo, o que já me basta para continuar “dizendo”, “falando”, “reportando”, “noticiando”, “opinando” para quem quiser ler sem julgar, aprender sem cartilha, experienciar sem censura e viver sem medo, norteado apenas por seus próprios valores, neste mar à deriva, nem que seja para nadar, nadar, nadar e acabar morrendo na praia.