Dignidade, por Plínio Zíngano

Penso, logo insisto

Leia a coluna “Penso, Logo Insisto”, assinada pelo professor Plínio Dias Zíngano.

Do “Meu cinicário” – O panorama político está tão exacerbado que até os vegetarianos estão reclamando do preço da carne.

DIGNIDADE

Confesso uma total inabilidade em tratar com alguns conceitos aplicados ao comportamento em sociedade. Tenho amigos, entre eles, professores graduados em Sociologia, na presença dos quais, ultrapassados os limites da fraternidade, me sinto completamente out (para usar um termo bem in nos relacionamentos sociais modernos). Escapam-me as definições, quase como leis – sabe-se lá determinadas por quem – a reger a interatividade humana.

Uma das palavras mais em voga, atualmente, é “dignidade” e seus correlatos. Ela está sacramentada inclusive, na Constituição brasileira, aquela nomeada “cidadã” pelo deputado Ulysses Guimarães em 1988, quando foi promulgada (ali, sim, incorporada à lei máxima do país). Quantas vezes já lemos ou ouvimos alguém referir-se, de maneira genérica, a pessoas que sofrem indignidades! Essa é uma abordagem generalista, sempre focando um grupo social como alvo. Mas as definições do que é ser digno ou indigno, continuam necessitando explicações mais precisas. A largueza dos conceitos predispõe a interpretações muito pessoais, cada um puxando a brasa para sua sardinha, tentando, dessa maneira, obter vantagens.

São muitos e variados os estamentos considerados alvos da falta de dignidade. Sem descer a particularidades muito profundas, cito um grupo, mesmo não sendo uma divisão profissional específica. Estou falando daqueles que não recebem um salário digno. A reclamação está presente em discussões, reportagens televisivas, manifestações na rua, discursos inflamados pronunciados por candidatos a cargos eletivos, etc. Inexiste quem esteja completamente satisfeito com seus estipêndios mensais e, por isso, torna pública sua digna insatisfação. Já vi um homem, com vários carnês de IPTU na mão, lamentando a quantia despendida na sua quitação, alegando salário insuficiente. Ou vocês nunca ouviram jogadores de futebol, com contratos sabidamente volumosos, reclamando da miséria mensal recebida?

A dignidade está no mesmo nível filosófico que a felicidade. Ambas não podem ser mensuradas. Jamais conseguiremos indicar seus aquinhoados. Usá-las como medida de comportamento populacional é, sim, uma infeliz indignidade.

Por Plínio Dias Zíngano
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