CONCURSO LITERÁRIO 2018

Dos Sonhos | 2º lugar – Geral

Confira o texto de Leonardo Ribeiro Machado, segundo lugar na categoria geral do Concurso Literário Faccat/Jornal Panorama.
Foto: Pixabay
2º lugar – Geral
Título da obra: Dos sonhos
Pseudônimo do autor: Rivo Trio Efêrve Senti
Nome Completo do autor: Leonardo Ribeiro Machado
Idade: 36
Cidade: Porto Alegre

Dos Sonhos

Rivo Trio Efêrve Senti

Foi depois da trigésima vez que o sol entrou na casa de gêmeos que eu decidi te falar, ou melhor, escrever, vovó, o sonho que sempre tive contigo (há quanto tempo, 2 ou 7 ou 23 anos e meio eu não sei, mas rio de boba e me empolgo toda, escuta só) e agora tô muito feliz de estar aqui escrevendo e botando no papel, na tela, tirando das ideias esse furacão que me percorre cada vez que penso que um dia ainda vamos fazer a viagem que tu sempre sonhou e que também agora já é o meu sonho e então eu escrevo. Amanhã de manhã mesmo vou mandar essa conversa pelo gmail porque eu sei que tu gosta das modernidades e a minha tia me disse que tu espera esse contato de reconciliação desde aquela vez que fiquei braba e irada e fula contigo e a gente não se falou mais, mas por que foi aquilo mesmo? Sei lá, mas era isso e esse plano maluco de áfrica botsuana namíbia são paulo, amanhã vejo as passagens e ah, vovó, eu vou comprar essas passagens amanhã mesmo!

Antes eu tava pensando na neneca, vovó, e naquela coisa louca de estudar fora que a gente tinha quando era nova e nem tão nova mas a coisa era louca assim mesmo e tu lembra, ela vinha aqui em casa e a gente não falava de outro algo e não tinha nada melhor que aquele sonho. Ah, neneca, já pensou nós duas morando nos isteites, enrolando a língua na boca pra falar o tal do inglês, to be ou não to be, eu quero e tu sabe que a gente embarca, esse sonho existe faz tempo e a gente há de ir, sim, isso é uma promessa porque sempre foi o nosso sonho e a vovó que me perdoe, a áfrica espera, as zebras da botsuana esperam, os prédios de são paulo esperam, porque a gente, neneca, agora vai de vez e amanhã mesmo eu vou te ligar, não, vou aí interfonar e interfonar e interfonar até o botão do 305 emperrar se tu não atender, mas que besteira, tu sempre me atendeu, ainda mais agora que é pra botar em prática o nosso sonho há tanto guardado.

Vovó, tu lembra da mamãe, que faz tempo que não vem nos ver, tu lembra de como ela falava dos sonhos e daquele vestido rodado cor-de-lavanda-desbotada que ela comprou pra esperar a Verinha na noite em que elas fugiram, ah vovó, como eu invejo elas, invejo e sonho com ela todas as noites porque sei que a mamãe foi rodar o vestido cor-de-lavanda numa cantiga sonora e doce. Ela aproveitou esse sonho como eu quero aproveitar todos os meus, e agora deu um vento, uma saudade, uma vontade de falar com ela mas onde que ela mora mesmo que nunca mais a gente soube de nada, será que me esqueceu ou me olvidou ou não sei, acho que vou gritar amanhã mesmo por ela da janela pra fora, vovó, já pensou se ela ouve e volta pra nos ver, nossa, isso sim ia ser meu maior sonho e então, vovó, a áfrica e a neneca que esperem, ah, vovó, quantos sonhos, quantos sonhos, quantos sonhos…

Vovó, o sol já tá saindo da casa de gêmeos e eu não parei de falar ainda, será que espero ele ir pra câncer e assim paro de falar e começo a chorar todos os sonhos trancados por essa vida, esses sonhos que amanhã mesmo começarei a disparar, fazendo com que surjam como véu desvelado, como segredo aberto, como lençol egípcio trezentos fios me abraçando?

Eu quero, vovó, eu quero sim, mas eu to me enrolando nesse relato, eu sei, pra te pedir uma coisa, vovó. Me ouve, é sério, eu imploro, por favor, por favor, não deixa eles fazerem isso que estão fazendo, estão fechando a tampa e eu sei que vai ficar abafado… não deixa, vovó, tenho tanto pra fazer amanhã, a botsuana e a neneca, os lençóis e a verinha, eu prometo, vovó, faz tudo só não deixa esse sol parar pra sempre aqui em gêmeos, não deixa ele parar em cima dessa caixa pesada onde agora me carregam e amanhã cresce o mato, assim devagarinho.