É possível mentir falando a verdade, por Rafael Tourinho Raymundo

Rafael Tourinho Raymundo

É possível mentir falando a verdade

“Para evitar as mentiras da imprensa, segue abaixo a pauta dos caminhoneiros”. Era assim que começava uma mensagem que circulou pelo Whatsapp durante a greve. Não havia assinatura. Não havia link para algum site de sindicato ou entidade de classe. Era apenas um boato. Ainda assim, as pessoas compartilharam.

Não sei o que leva alguém a acreditar mais num texto anônimo que num veículo jornalístico. Aliás, até já utilizei esta coluna para falar das fake News. Porém, sendo um problema recorrente, volto a tratar do assunto.

Entendo que os grandes conglomerados da mídia possam ter seus defeitos. No entanto, os jornalistas se esforçam para preservar sua reputação. Seu trabalho é encontrar fontes confiáveis. Isso inclui entrevistar autoridades, contrapor visões antagônicas e apresentar todos os lados possíveis de uma mesma história.

Existem técnicas de apuração, manuais de redação e um código de ética que baliza essa atividade. O esforço dos repórteres para levar informação fidedigna ao público não pode ser menosprezado. Até porque, se a notícia estiver equivocada, a própria carreira do profissional sai no prejuízo.

Não pense que esse trabalho é fácil. Como já dizia um premiado comercial da Folha de S. Paulo, é possível contar um monte de mentiras só dizendo a verdade. A peça publicitária trazia dados sobre um chefe de governo. Em seu mandato, o político havia recuperado a economia do país: o desemprego caiu, o PIB aumentou e a hiperinflação foi controlada. Pois esse cara vinha a ser Adolf Hitler. Ou seja, passava longe de um exemplo a ser seguido.

Hoje em dia, com tanta informação circulando pela rede, é cada vez mais fácil enganar a população só com fatos verídicos. Basta omitir um número, distorcer um detalhe ou tirar uma afirmação de contexto. Portanto, a apuração jornalística torna-se, mais que nunca, fundamental.

Vale lembrar que estamos em ano de eleições. Daqui até outubro, a tendência é que as redes sociais se inundem de acusações infundadas e guerras ideológicas. Portanto, convido os leitores a conhecerem o trabalho do Filtro. Trata-se de um projeto de jornalistas gaúchos, com o objetivo de verificar as declarações dos candidatos e apontar quais delas têm fundamento.

A iniciativa segue uma metodologia de checagem reconhecida internacionalmente. Mediante uma módica contribuição, será possível receber, por e-mail, relatórios semanais elaborados pela equipe. Eis uma boa oportunidade para saber quem fala a verdade e quem prefere abusar da boa-fé dos eleitores.

Eu que não quero basear meu voto nas mentiras que circulam pelo Whatsapp. E você?

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
[Leia todas as colunas]