Em carta, médicos denunciam problemas no Hospital Bom Jesus; direção contesta


Atrasos em salários, falta de medicamentos e problemas em equipamentos foram relatados no documento e contestados pela direção do hospital e Prefeitura de Taquara.


O corpo clínico do Hospital Bom Jesus formalizou, nesta semana, uma carta encaminhada à direção da casa de saúde, à presidência do Instituto de Saúde e Educação Vida (ISEV), Secretaria de Saúde, Conselho Municipal de Saúde e ao prefeito de Taquara, Tito Lívio Jaeger Filho. No documento, os médicos relatam “descontentamento” sobre a relação do Instituto com os profissionais. Alegam uma série de problemas no funcionamento da casa de saúde.

Os médicos alegam que, ao longo dos últimos meses, vêm mantendo uma parceria estreita com o Hospital Bom Jesus, tentando solucionar os problemas da instituição e cooperando ao máximo para atingir as metas e obtendo resultados positivos. Além disso, acrescentam ter demonstrado “uma paciência e tolerância acima do permitido a qualquer profissional, tendo como único objetivo o bem da nossa instituição e da população”.

Porém, os integrantes do corpo clínico afirmam que tem observado “fatos preocupantes e alguns rotineiros, que põem em risco a saúde e a vida da população”. Entre os problemas citados estão: a falta constante de médicos na escala de emergência, principalmente na pediatria; a alta rotatividade e baixa permanência de funcionários da enfermagem, devido a fatos como baixos salários, atrasos no pagamento e quadro de funcionários reduzido perante a superlotação do Hospital; sucateamento de equipamentos, “assim como um serviço de diagnóstico por imagem que não nos supre a tempo e a hora, nos obrigando a encaminhar nossos pacientes a outras instituições para a realização destas, frente à inoperância frequente das do Hospital”; desabastecimento grave da farmácia do Hospital, o que implica em grave risco às vidas dos nossos pacientes; os atrasos nos pagamentos dos serviços “por nós prestados a esta instituição, que se encaminha para 90 dias, mesmo sabendo que os repasses das três esferas de poder se encontram constantes”.

Na carta, os médicos chamam a direção “para se tornar efetivamente parceira do Hospital Bom Jesus e do corpo clínico, não apenas usufruir dos resultados por estes obtidos”. Acrescenta que, se não ocorrer uma mudança de atitude, não restará alternativa que não seja encerrar a parceria de forma conjunta e denunciar aos órgãos públicos e à imprensa que, apesar das tentativas de resolver os problemas apontados, houve falta de comprometimento do hospital. Os médicos finalizam a carta pedindo resposta em, no máximo, sete dias.

Diretor do Hospital se diz preocupado com carta e busca diálogo com médicos

Contatado pelo Jornal Panorama para comentar a carta divulgada pelos médicos que atuam no corpo clínico, o diretor-administrativo do Hospital Bom Jesus, Heleno Severo, se disse surpreso com a divulgação do texto. Reforçou que participou, na terça-feira, do encontro com a categoria, em que foram discutidas as dificuldades da casa de saúde. Severo se disse preocupado com a divulgação, mas frisou que continua à disposição do corpo clínico para discutir soluções aos entraves e dificuldades apontadas.

O diretor refutou alguns dos problemas elencados. Quanto à falta de profissionais na pediatria, lembrou de resposta já dada ao Jornal Panorama, na semana passada, enfatizando que o hospital teve que demitir uma médica que possuía alto número de reclamações. O Bom Jesus está à procura de um novo pediatra, mas ainda não encontrou profissional para a área, devido à escassez de médicos nesta especialidade. No tocante à suposta alta rotatividade da enfermagem, Heleno disse que são baixos os números de trocas de profissionais no setor. Reforçou que a área trabalha com o número exigido pela legislação em relação a enfermeiros, destacando, ainda, que o salário segue o nível regional.
Admitiu, porém, que, devido ao atraso de repasses deste mês do governo do Estado, o salário dos funcionários foi pago apenas em parte, aguardando a quitação da Secretaria Estadual de Saúde para a integralização.

Quanto ao suposto sucateamento dos equipamentos, Heleno negou esta hipótese. Afirmou que, recentemente, o Hospital comprou novo aparelho de ultrassonografia, bem como um tomógrafo foi instalado. Nas eventuais falhas destes equipamentos, devido à necessidade de algum conserto, o hospital mantém contratos de retaguarda com clínicas e casas de saúde da região, sendo que, segundo Heleno, nenhum paciente fica desassistido. O diretor pontuou que, outra melhoria recente foi a reforma de toda a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

No tocante à falta de remédios na farmácia, Heleno admitiu que ocorreram problemas com um fornecedor, mas destacou que a situação foi resolvida. O diretor reconheceu atraso no pagamento dos médicos, que, segundo ele, chega a 60 dias, decorrente de atrasos em repasses do governo estadual. Segundo Severo, há expectativa de que até o final desta semana a administração gaúcha pague parte do que deve ao Bom Jesus.

Heleno Severo frisou que a direção do Instituto Vida vem trabalhando para manter o atendimento com condições à comunidade de Taquara e, inclusive, já teve conquistas. O diretor citou a obtenção de um alvará de prevenção de incêndio, documento inédito que o hospital até hoje não possuía. Ressaltou o credenciamento para atendimento a casos de câncer, destravado no final do ano passado e que possibilita um aporte de recursos significativo ao hospital. De acordo com Heleno, a direção está à disposição de todos para buscar alternativas visando a assegurar a assistência hospitalar à comunidade.

Também procurado pelo Jornal Panorama, o prefeito Tito Lívio Jaeger Filho informou que foi realizada reunião de urgência, com a presidência do Instituto Vida, ontem à tarde. “Inicialmente, o que verificamos, é que a realidade dos fatos não corresponde à integralidade do que foi firmado na carta, bem como, de que sua emissão apenas representa uma parcela pequena de profissionais. A administração municipal aproveita o ensejo para esclarecer que está rigorosamente em dia com os repasses ao hospital e tem o maior interesse que tudo se normalize”, comentou o prefeito.

Ex-vereador representa por “omissão do prefeito e vice”

Em outra frente, o ex-vereador de Taquara Roberto Timóteo Rodrigues dos Santos (ex-PP hoje sem partido) representou, na segunda-feira, no Ministério Público de Taquara, por problemas envolvendo o Hospital Bom Jesus. Para ele, o prefeito Tito Lívio Jaeger Filho e o vice-prefeito Hélio Cardoso Neto “são negligentes ou, pelo menos, omissos quanto aos problemas de gestão e administração” da casa de saúde. Timóteo afirma que o prédio em que está instalado o hospital, bem como os equipamentos, pertencem à Prefeitura, o que, na visão dele, legitima a atuação da Promotoria na fiscalização “da boa utilização de cada centavo do dinheiro público municipal”.

Na representação, Timóteo afirma que o primeiro problema diz respeito ao convênio mantido com o Instituto Vida para a gestão do Hospital, uma vez que, segundo ele, não foi precedido de edital público ou licitação. Relata as leis municipais que autorizaram o procedimento. O ex-vereador ainda apontou problemas dos quais diz ter tido conhecimento, como a falta de materiais essenciais para a prestação de serviços, falta de médicos, atrasos no pagamento de salários, demora para expedição de laudos de raio-X e aparelho de tomografia com problemas. Finalizou o documento pedindo que o Ministério Público investigue os fatos e tome providências quanto às situações narradas.

CONTRAPONTO – Questionado a respeito, o prefeito Tito disse ao Jornal Panorama desconhecer o teor da representação de Timóteo e os fatos que a embasariam a referida omissão. Acrescentou que ele o vice-prefeito Hélio não se furtarão a qualquer esclarecimento que se fizer necessário, “pois além de termos a transparência como uma de nossas premissas, não se pode esquecer que foi nosso governo quem rebariu o hospital para atender a nossa população, portanto, não sendo lógico afirmar que seriamos coniventes com qualquer ação ou omissão que tenha ocorrido ou possa ocorrer em desfavor de nossos cidadãos”.

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