Entre riscos e migalhas, por Inge Dienstmann

Leia a coluna da jornalista Inge Dienstmann no site do Jornal Panorama.

Entre riscos e migalhas

Lembro do dia em que terminávamos a reforma para ocupar o apartamento onde ainda hoje residimos. O eletricista veio para uns últimos detalhes e, subido numa escada, deixou cair uma ferramenta que afundou o piso laminado recém instalado. Praguejei de raiva quando vi o estrago. Como assim? Na moradia que eu ainda não ocupava, tinindo de nova, agora havia um lascado no corredor do closet! Perdi sono, fiquei revoltada por uns dias.

Claro que aquele incidente não foi o único durante a reforma! Fizeram um estrago no mármore que eu havia escolhido a dedo para meu banheiro particular… finalmente eu teria um só meu. Tão lindo, e agora com um improviso no mármore, destoando bancada e piso. Eu queria esganar o azulejista. Sem contar que surpreendi um pedreiro aplicando uma espécie de verniz impermeabilizante sobre a granitina do chão da sacada, sem antes limpar o piso. Resultado? Ele eternizou as manchas de sujeira embaixo do verniz, até o dia em que, anos depois, resolvi trocar o piso e fazer o fechamento da sacada.

Hoje rio de tudo isso, olhando com condescendência o piso da sala arranhado pelo pé da poltrona que minha mãe sempre ocupa quando ela vem me visitar. Aquela marca surgiu durante um período em que ela se recuperava em minha casa, depois de ter quebrado o fêmur e trocado a válvula da veia aorta. Sabe o que aquele arranhado do piso me diz? Ele me lembra, todos os dias, que minha mãe venceu aquele enorme desafio de saúde nos seus 87 anos de então. A propósito, neste 5 de agosto ela já chegará aos 89. Que piso arranhado que valeu a pena!

Nas minhas implicâncias com a ordem, a conservação e a limpeza da casa, ensinei minha filha a comer sempre com um prato ou potinho embaixo do biscoito, do sanduíche, a comida que fosse, para não fazer farelos no sofá, enquanto assistia à televisão. O mesmo cuidado introduzi com meus netos. Tanto impliquei e insisti que os dois me apelidaram de “vó das migalhas”.

Outro dia, indo sozinha de carro a Porto Alegre com meu neto de seis anos, ele pediu um lanche quando passamos no posto para abastecer o carro. No caminho, lá pelas tantas ele disse: “vó, caíram umas migalhas no acento aqui atrás… mas não tinha como, né?” – argumentou com doçura, buscando minha cumplicidade, pois eu não havia alcançado a ele o famoso potinho antimigalhas.

“Tudo bem, amor, não tinha como evitar, não é?” – eu o confortei.

Mal sabem minha mãe e meus netos as marcas muito maiores que deixam em minha alma quando estão bem, com saúde, comendo seus lanchinhos migalhentos.

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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