Entrevista: taquarense participa da organização de evento na Espanha sobre a obra de José Saramago

Rafael Hofmeister de Aguiar, professor do IFRS Campus Rolante, se prepara para Pós-Doutorado na Universidade de Vigo.

O taquarense Rafael Hofmeister de Aguiar (foto acima) se prepara para dois momentos importantes em sua carreira: passará a cursar o Pós-Doutorado na Universidade de Vigo, na Espanha, e também será o único brasileiro na organização de jornadas de literatura em alusão à obra do escritor José Saramago. Aos 38 anos, Aguiar é doutor em letras – estudos de literatura, com especialização em literaturas portuguesas e luso-africanas, sendo professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul. Nesta entrevista ao Jornal Panorama, conta como detalhes sobre essas novidades.


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Panorama – Fale-nos sobre o evento que estará participando e sua importância para o meio cultural?


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As Jornadas José Saramago são organizadas anualmente, desde 2015, pela I Cátedra José Saramago (CJS) da Faculdade de Filoloxía e Traducción no Campus de Pontevedra na Comunidade Autônoma da Galiza na Espanha. Esse evento volta-se, sobretudo, para a obra do escritor português que foi agraciado pelo Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Todavia, as IV Jornadas José Saramago, que serão realizadas entre os dias 2 e 4 de dezembro de 2019, não se restringem a abordar a obra do escritor. Entre os seus objetivos, “criação de uma Rede Internacional de Cátedras Galego-Lusófonas (RICaGaL), promovida pela CJS, a qual congrega as seis cátedras Saramago existentes a nível mundial, juntamente com outras quatro cátedras do Camões, I.P., um instituto de investigação da Galiza, uma rede e três associações culturais galego-portuguesas com atividades transfronteiriças” (https://catedrasaramago.webs.uvigo.gal/pt/blog/iv-jornadas-internacionais-jose-saramago-da-universidade-de-vigo-saramago-e-os-desafios-do-nosso-tem-251/). Em outras palavras, pretende-se criar uma rede internacional que aproxime pesquisadores e instituições que se voltem para os estudos ligados às cultura e língua galega e à língua portuguesa e às culturas de língua portuguesa. Por isso, neste ano, as Jornadas receberão representantes de, praticamente, todas as Cátedras dedicadas a Saramago e outras tantas instituições de ensino e pesquisa.

Panorama – Como surgiu a oportunidade de participação?

A minha participação no evento ocorreu a partir de um convite, realizado em setembro de 2018, da I Cátedra José Saramago para que eu atue como pesquisador e professor convidado em estágio pós-doutoral na Universidade de Vigo no ano de 2019. A partir disso, o professor Burghard Baltrusch, presidente da Cátedra, sugeriu que eu integrasse a organização do evento, uma vez que no próximo mês de outubro parto para Vigo para desenvolver a minha pesquisa “As tenções medievais galegas em uma perspectiva comparatista e historicizante com a cantoria de repente do Nordeste Brasileiro”.

Panorama – Como se deu o fato de ser o único brasileiro na organização?

Na verdade, não sei especificar o motivo de eu ser o único brasileiro na organização. Talvez, isso se deva pelo fato de, a partir de 9 de setembro, quando inicia o meu vínculo de pós-doutorado, comigo ainda no Brasil, com a Universidade de Vigo e, nesse ponto, eu ser o único brasileiro integrando a equipe da I Cátedra José Saramago.

Panorama – Qual a sua expectativa para o evento?

Tenha uma expectativa enorme pelo evento, uma vez que ele reunirá não só pesquisadores de todo o mundo sobre o escritor português como também a sua viúva, a jornalista Pilar del Río Sánchez Saramago. Mesmo eu não sendo um especialista em José Saramago, sou um leitor e admirador tanto do universo ficcional do romancista como a sua atuação política acerca de questões sensíveis do nosso tempo, tal qual os direitos do excluídos.

Panorama – Como será a sua participação na organização?

Por enquanto, estou auxiliando na divulgação do evento. No entanto, a partir do encerramento das submissões de propostas de comunicações em 30 de setembro, devo avaliar as propostas e auxiliar na composição das mesas de apresentações, inclusive sendo responsável pela coordenação de alguma delas. Provavelmente, ao chegar na Espanha, terei outras tarefas definidas na organização do evento.

Panorama – Como ocorreu o convite para o pós-doutorado na Universidade de Vigo?

O convite para o pós-doutorado ocorreu a partir da defesa da minha tese de doutorado “Vozes da literatura luso-brasileira: uma história do improviso poético – dos trovadores medievais aos poetas do Brasil Colônia” em março de 2018 na Ufrgs. Nesse momento, a banca avaliadora contou com a presença da professora da Universidade de Poitiers, França, Ria Lemaire. A professora Ria sugeriu que eu continuasse a minha pesquisa na Universidade de Vigo e fez contato com o professor Burghard Baltrusch. A partir de uma troca de e-mail como o professor, em setembro do ano passado foi formalizado o convite para o pós-doutorado. Depois disso, concorri em edital interno do Campus Rolante do IFRS para afastamento para capacitação que foi autorizado em 11 de julho pela reitoria e publicado no Diário Oficial da União em 15 de julho.

Panorama – Sobre o que trata a pesquisa de pós-doutorado?

Na minha tese, eu propus que os trovadores medievais galego-portugueses, além de cantarem canções elaboradas de antemão, eram improvisadores, principalmente nas chamadas tenções, que consistem desafios entre dois poetas, algo muito parecido com o que ocorre na cantoria nordestina e na trova gaúcha. Como só consegui tratar de um número reduzido de tenções no doutorado, considerei que o estudo deveria ser aprofundado. Nisso, surgiu a ideia de trabalhar com todas as tenções galego-portuguesas que foram preservadas, procurando fazer uma abordagem comparatista com a cantoria de repente nordestina, universo que já estudo a um bom tempo, inclusive com viagens ao sertão do Ceará para pesquisa de campo, inclusive resultando no documentário “De campo e cantadores”, disponível no YouTube. Entretanto, a perspectiva com que trabalho não é da influência das tenções na cantoria nordestina, pelo contrário, é como o conhecimento que temos da cantoria, que conta com um extenso número de pesquisas sobre ela, pode auxiliar na compreensão das tenções medievais.