Estamos virando bundões?, por Inge Dienstmann

Leia a coluna da jornalista Inge Dienstmann no site do Panorama.

Estamos virando bundões?

Ou seria melhor admitir logo que sempre fomos bundões?

Como a maioria de nós, tenho consultado frequentemente o Google. E sempre que o faço, dou uma olhada nas notícias que nos apresenta a página de abertura. E fico cada dia mais pasma com o tanto espaço que as bundas estão ocupando no nosso dia-a-dia. Dos cantores Anitta e Pablo Vitar nem se fala; afinal, é o perfil que eles adotaram propositalmente para suas carreiras, construídas sobre as respectivas avantajadas bundas. No entanto, me surpreende que outros tantos nomes de expressão artística estejam se valendo de suas bundas para se manterem no radar do público, como se não tivessem outros talentos que lhes bastassem. Só para citar um exemplo, a atriz Paola de Oliveira, que acho bastante talentosa, além de muito bonita, também se vale com frequência de aparecer sob o pretexto de ter uma das bundas mais atraentes do país. Precisaria isso? E ela não está sozinha neste tipo de exposição; muito longe disso. As bundas pipocam de todos os lados!

Bem, é preciso reconhecer que não é de hoje que o Brasil ostenta este fanatismo por bundas. Agora que se pode exibi-las livremente na internet, publicações como a Playboy deixaram de existir. Pelo menos na revista a exposição de bundas e adjacências era uma coisa menos acessível a qualquer um, crianças inclusive.

Mas onde quero chegar mesmo, é que somos, como brasileiros, bundões num aspecto bem mais amplo. Por que não nos fazemos respeitar pelos nossos políticos? É porque somos autênticos bundões! Enfrentamos problemas gravíssimos, gritando diariamente diante de nós, e não somos capazes de nos levantar contra a inércia dos governos, ao longo dos anos e através das mais diversas legendas. Como é que admitimos as muitas e incabíveis regalias de que desfrutam políticos e membros do Judiciário, enquanto as pessoas morrem nos corredores de hospitais por falta de assistência?

Como é que é admitimos que não se resolva o grave problema do sistema carcerário brasileiro?Os bandidos é que mandam; as cadeias estão superlotadas, os presos ficam submetidos a enfrentar horas dentro de veículos da polícia, que deveriam estar circulando para nossa segurança preventiva.

A maioria das escolas públicas enfrentam graves problemas em sua estrutura física, e o nível do nosso ensino nos compromete e nos condena a vivermos uma situação estagnada de subdesenvolvimento.

Somos mesmo uns bundões, quando achamos que, por termos eleito determinado candidato, temos que fechar os olhos a tudo que dele venha, e aceitar qualquer coisa passivamente. Se votamos em alguém para nos representar, muito mais nós temos o direito, do que qualquer oposição, de cobrar as medidas para as quais colocamos o candidato no poder.
No entanto, como autênticos bundões, aceitamos levantar bandeiras, defender cores partidárias e aceitar qualquer coisa em nome do comprometimento com determinada ideologia. Ou, quem sabe, em nome de um emprego ou qualquer outra regalia momentânea.

Se as atitudes, o linguajar, o radicalismo, a parcialidade ou a inércia de nossos governantes, parlamentares ou juristas, não nos representam, é indispensável que lhes gritemos nossa indignação. Respeitosamente, com foco, com ordem, mas incisiva e permanentemente. Sob pena de vivermos para sempre num país de bundões.

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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