Estrada velha, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

Estrada velha

Era mês de abril. Um tanto desacorçoado, olhava os potreiros sem fim. Não percebia sopro de vida naquele rincão clareado de sol. Falta de sorte! Dente do tinhoso! O resmungo quase gritado nem eco encontrava na imensidão verde. Muito menos um vivente pra ajudar. O carro, radiador fumegando, parecia rir da desgraceira. Se tivesse com ele a junta de bois do avô Anastácio, era pra já que laçava o auto e o arrastava até a chacrinha. Nem que fosse pra servir de poleiro pras galinhas, pelo jeito é só pra isso que a geringonça presta. Pensar que se desfez do baio. Modernidade! Pois sim! Agora viu. E o governo? Não tinha prometido estrada boa pra andar com os autos? O tal de Daiér, cadê? Uns bostas, isso sim.

Sentou-se no chão, à sombra projetada pelo carro, retirou do bolso da camisa um naco de palha de milho, cortou pontas com o canivete, ajeitou na mão grossa, espalhou sobre ela o fumo picado que trazia num saquinho amarelo. Fechou a palha, lambeu as bordas, acendeu com o fósforo. Deu longa tragada, depois soprou fumaça nos borrachudos que já se refestelavam por ali.

Ficou saboreando o palheiro, as vistas muito além do alambrado de três fios na beira da estrada, pra depois da figueira, a qual via uma pontinha longe, solita no campo, mas sabia de que árvore se tratava. Quando piazito, correu um eito pelas bandas. Gostou da sensação. Paradito. Quieto. Nem mulher nem filho nem cusco. Pensar sem dar trela pro pensamento. A cabeça buscando o que quisesse e se aconchegando onde achar por bem.

Faz anos não volta pra esses lados. Um dia isso tudo pertenceu ao avô. Depois grande parte foi cortada em lotes numa briga judicial quase interminável. Ele nunca nem quis saber o porquê. Sabe é que possui uma chacrinha que lhe coube de herança. Quer avaliar a propriedade. Precisa fazer dinheiro nesses tempos bicudos, como diria o poeta. Daí o pensamento se voltou pra figueira lá distante. Buscou também Glorinha, os peitinhos duros de Glorinha. O cheiro de bosta e urina do baio amarrado e pastando perto. Os relinchos do cavalo e os gemidos da guria. A faceirice da juventude. A vida sem rédeas que Deus permitia. Mas bah! Foi coisa bem boa, disse pra si, numa baforada forte do cigarro de palha, quem sabe, pra disfarçar o suspiro.

Levantou-se de supetão, que não se vê homem de recuerdos feito viúva chorosa. Olhou pra frente. A estrada, recém-aberta pelas patrolas, era o progresso ofertado pela raia miúda do governador. Brizolistas de merda, pensou. Segurou-se num mourão e pulou a cerca de arame farpado, depois seguiu num passo firme. Atalhando pelo potreiro loguito pegava a estrada velha, o caminho feito pelos tropeiros e carreteiros em outros tempos, lembrou. O caminho que sempre o levava até a figueira. Que sempre o levava até Glorinha. Glorinha que se perdeu esquecida nas lonjuras dos dias.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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