Exclusivo: superintendente do Hospital de Taquara relata ameaças e fala de irregularidades de ex-diretora; todos os citados se manifestam

Piraju Nicola Neto, da Associação Silvio Scopel, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Panorama na segunda-feira (8).
Hospital Bom Jesus está envolvido em polêmicas desde a demissão de diretora administrativa ocorrida na semana passada. Divulgação / Silvio Scopel

A demissão de Alexandra Camargo da direção administrativa do Hospital Bom Jesus, de Taquara, após ela fazer denúncias contra a entidade mantenedora da casa de saúde, a Associação Silvio Scopel, rendeu resposta do superintendente da instituição, Piraju Nicola Neto. Em entrevista exclusiva ao Jornal Panorama, na última segunda-feira (8), o responsável pela Silvio Scopel divulgou o posicionamento da entidade para a demissão, fez acusações contra Alexandra e, também, um grupo de médicos ligados à oncologia que, segundo ele, atuaria contra os interesses do hospital. Disse, inclusive, que os responsáveis pela entidade mantenedora estavam afastados de Taquara devido a intimidações que teriam recebido e afirmou que foi ameaçado de morte, na própria segunda-feira, no pátio do hospital.


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A entrevista foi realizada na segunda-feira e o convite que o Jornal Panorama recebeu foi para uma coletiva de imprensa. Contudo, nenhum outro veículo da região esteve presente no evento, tendo a entrevista se tornado exclusiva. Mesmo que as declarações de Piraju tenham sido prestadas no começo da semana, Panorama decidiu publicá-las somente após o contraditório de todas as partes citadas. Também foi decisão da reportagem omitir os nomes das pessoas mencionadas por Piraju apenas para sustentar as suas declarações, sem envolvê-las em supostas irregularidades. Os demais nomes citados pelo superintendente foram todos procurados a se manifestar oficialmente. A entrevista foi completamente gravada em áudio. Abaixo a íntegra e, ao final, os contrapontos completos dos citados. Todas as observações da reportagem no decorrer da entrevista estão entre colchetes.

Entrevista de Piraju Nicola Neto, médico e superintendente da Silvio Scopel


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Panorama: O que motivou a quebra de confiança na diretora Alexandra?

Piraju – Na verdade, nos últimos meses, a Alexandra vinha faltando com a verdade nos números com relação à sede administrativa. Nós tínhamos feito um apanhado para zerar a lista de espera, e que foi liberado dinheiro no dia 10 de junho para pagar todos os exames pendentes, e ela não o fez, agora que está fazendo, dia 19 ela vai no Ministério Público [referência ao depoimento prestado pela ex-diretora ao MPF com denúncias sobre atrasos na liberação de recursos para a realização dos exames no hospital].

Panorama: vamos com calma, vocês tinham feito um apanhado…

Piraju – Na verdade, os exames vinham sendo feitos rotineiramente, e ela represava esses exames e não passava para nós o nome dos pacientes, e nós com o dinheiro em caixa para fazer o pagamento. Assim, no dia 10 de junho, foi feito um a pedido da sede administrativa para zerar estes exames que estavam represados. E ela acabou encaminhando para nós, foi pago, e agora a lista de espera estava zerada segundo o que me consta.

Panorama: então ela mandou os exames no dia 10 de junho?

Piraju – Não, na verdade, assim, vamos retomar.

Panorama: justamente é isso que estou tentando para ficar claro…

Piraju – Vamos lá, o que a Alexandra Camargo fazia, ela maquiava os números para nós. Nunca chegava a demanda correta de exames que tinha pendente, justamente para a gente ser penalizado. A gente não tinha conhecimento. Quando tivemos conhecimento, anterior ao dia 10 de junho, dia 10 de junho foi liberado para fazer todos os exames pendentes, e no dia 12 foi pago todos. Então, tem paciente que está fazendo agora. Doze de junho foi paga toda a demanda reprimida, que era muito pouca, não eram muitos pacientes. Mas, assim, a todo o tempo, Alexandra Camargo escondia, não passava informações para a sede administrativa de quantitativos que deveriam realizar exames, maquiava números para nós, e a gente não ficava sabendo. Chegou ao ponto de a compra da farmácia não mandar pedido de compra, faltar medicamento, e nós com dinheiro em caixa para fazer a compra do medicamento. Mas, até que enfim a gente conseguiu descobrir a tempo e remanejar e nunca faltou medicamento para nós aqui na unidade, mas ela chegava a bater num nível crítico para fazer com que houvesse um descompasso. Então, a todo o tempo a diretora Alexandra Camargo estava trabalhando contra o Hospital Bom Jesus.

Panorama: por que motivos? Vocês apuraram algo neste sentido?

Piraju – Na verdade, é difícil dizer o que motivava ela. Mas ela estava ligada a um grupo de médicos aqui, que queriam fazer com que o hospital não andasse a pleno. Há um grupo de médicos terceirizados aqui do hospital.

Panorama: esse grupo atua no hospital?

Piraju – [Grupo] que atua no hospital.

Panorama: continua atuando?

Piraju – Continua atuando.

Panorama: vai continuar atuando?

Piraju – A ideia nossa é que se continuarem as ameaças de morte, eu fui ameaçado hoje à tarde de morte no pátio do hospital, a gente não vai mais tolerar esse tipo de ameaça para funcionários e para médicos e prestadores. Eu registrei um boletim de ocorrência, fui ameaçado por um colega médico aqui no pátio do hospital. Tem boletim de ocorrência neste sentido, que a gente vai levar adiante, não pode ser assim, e tem muitos funcionários que trabalham aqui acuados, por medo, por medo de represália.

Panorama: essa ameaça de morte ocorreu quando?

Piraju – Hoje, 14h40min.

Panorama: sobre que circunstâncias?

Piraju – Aqui no pátio do hospital.

Panorama: e por que motivo?

Piraju – Motivado, não saberia dizer. Difícil falar sobre isso, gostaria de deixar sigilo, peço sigilo até que os fatos sejam apurados.

Panorama: quem fez essa ameaça?

Piraju – Está correndo já na Justiça. É um médico aqui do hospital.

Panorama: um médico do hospital…

Piraju – Um médico do hospital. Pode botar, Dr. Paulo Morassutti.

Panorama: esse médico continuará atuando?

Piraju – Dr. Paulo Morassutti me ameaçou de morte aqui no pátio do hospital.

Panorama: sobre que termos ele fez essa ameaça? Como ele disse o que aconteceria?

Piraju – Contra a integridade minha e da minha família [Panorama apurou, junto à Polícia Civil, que Piraju realmente registrou boletim de ocorrência relatando o fato e denunciando Morassutti, que nega a situação – veja contraponto após a entrevista do superintendente].

Panorama: mas o que ele disse que aconteceria?

Piraju – Que se eu não realizasse o pagamento dos médicos aqui ele iria acabar comigo.

Panorama: isso foi registrado em boletim de ocorrência?

Piraju – Boletim de ocorrência na delegacia de Taquara.

Panorama: quais são as provas dessa ameaça?

Piraju – Temos duas testemunhas que ouviram as ameaças. E tem filmagem das câmeras de segurança.

Panorama: e ela [Alexandra] estava ligada a esse grupo de médicos?

Piraju – A Alexandra estava ligada à oncologia.

Panorama: a oncologia, a Oncoprev, Instituto Kaplan?

Piraju – Previonco/Kaplan.

Panorama: como ela não repassava?

Piraju – Assim, tem um trâmite legal, ela tem que fazer um levantamento técnico dos exames, que devem ser pagos, dos honorários médicos, e ela fazia, ela represava os honorários médicos, represava o número de exames, para que não ocorresse o pagamento, e a Associação Beneficente Silvio Scopel andasse em descrédito com a comunidade.

Panorama: ela represava o que especificamente?

Piraju – O pagamento disso. Não passava para nós, para não realizar o pagamento, para estourar. Isso era feito.

Panorama: com, vamos dizer assim, um pedido desse grupo de médicos?

Piraju – Perfeito.

Panorama: e quais são as provas que vocês têm das irregularidades cometidas pela ex-diretora? Você fez uma série de afirmações, como vocês sustentam isso?

Piraju – Quando nós sentimos o movimento que estava acontecendo, noventa dias atrás, foi começado a fazer uma série de levantamentos, junto ao setor de enfermagem, junto ao setor de faturamento da instituição, e esse documento foi entregue junto ao Ministério Público, uma denúncia que contém aproximadamente 500 páginas, de fatos ligados ao estado, que o estado notifica a instituição de um mesmo médico realizar três procedimentos ao mesmo tempo, simultaneamente. De um mesmo médico estar em todos os procedimentos. De tentativa de superfaturamento de AIH.

Panorama: o que é AIH?

Piraju – Autorização de Internação Hospitalar. Tentativa de superfaturamento de AIH.

Panorama: como se dava isso?

Piraju – Se dava da seguinte forma, um pequeno procedimento era transformado em procedimento oncológico, não confirmado e glosado pelo estado.

Panorama: explique melhor o que significa isso, não confirmado e glosado pelo estado?

Piraju – Perfeito, eu lhe opero e digo que o senhor tem câncer. Tiro um pedacinho do senhor, vai para [inaudível], dá negativo e o estado bloqueia o pagamento, isso que acontece. Uma cirurgia simples transformada em cirurgia sequencial, outro fato que ocorria bastante aqui no hospital. A tentativa de ganhar mais num procedimento simples.

Panorama: a diretora Alexandra estava há um ano e meio praticamente na direção do hospital, desde janeiro de 2018…

Piraju – Na verdade, nós não tínhamos ciência antes do que eclodiu. Eclodiu o fato de quando percebemos que havia reclamação da região toda negando atendimento para a região dos nove municípios do Vale do Paranhana. Explodiu uma CIR [reunião da Comissão de Intergestores Regional, que congrega secretários de saúde e membros dos hospitais], foi em janeiro desse ano, a primeira CIR que explodiu, que foi a primeira chaminé nossa. Explodiu uma CIR que sinalizou que o Hospital Bom Jesus estava negando atendimento para a região. Aí fomos fazer o levantamento desses índices, entramos em contato com a região, e fomos ver que não era só atendimento, era exames que estavam sendo negados, que eram procedimentos que estavam deixando de ser feitos, havia até uma negativa do diretor técnico da instituição que não era para internar paciente de convênio IPE/Unimed no hospital, somente SUS. Então onerou muito os cofres do hospital, foi feito esse levantamento, a gente juntou prova suficiente para realizar o desligamento da profissional.

Panorama: ela foi desligada por justa causa?

Piraju – Não, fizemos uma demissão dela. Não foi por justa causa.

Panorama: se ela cometeu irregularidades não deveria ser por justa causa?

Piraju – Deveria, mas a gente acabou optando por uma questão jurídica de fazer a demissão dela. Nosso jurídico orientou a fazer a demissão.

Panorama: mas deveria ser?

Piraju – Deveria ser.

Panorama: sobre a alegação que vocês deram na nota da última sexta-feira de que os pacientes eram mandados embora à noite por alguns médicos com o pretexto de não acostumar mal a comunidade, isso estava escrito na nota [referência ao texto divulgado pela Scopel sobre a demissão da ex-diretora]. Quais são as provas que vocês possuem dessa prática?

Piraju – Nós temos relato de pacientes que nos deixaram, fizeram uma comunicação interna, de que os pacientes foram dadas altas no período da noite, o que não é uma boa prática médica, e sim no período da manhã, que os pacientes podem se dirigir, que tem ônibus, tem horário de ônibus para retornar aos seus lares. São pacientes humildes, pacientes pobres, que dependem às vezes de ônibus e era dado alta à noite, passavam a noite ali na rua, no relento, e que não é horário. Na verdade, até o meio-dia, o ato médico deve ser feita a alta hospitalar.

Panorama: e essa era uma prática dos médicos ou era uma prática que a Alexandra tinha participação?

Piraju – Na verdade, era acobertado pela diretora administrativa. Era um ato médico que a gente acredita que não é de moral e bons costumes.

Panorama: qual é o poder da Associação Silvio Scopel para interferir nesse ato médico?

Piraju – Na verdade, a gente pode optar pelo profissional que está aqui. Como, na verdade, eram negadas informações, a gente não tinha conhecimento do que se passava na casa, a administradora tinha pouca comunicação com a sede administrativa, a gente ficava por ora desconhecendo os fatos, e agora que estamos tomando pé da situação.

Panorama: essa comunicação da diretora com a sede administrativa, você em vários momentos refere que havia pouca comunicação. De parte de vocês, da entidade administradora, não havia o interesse de ampliar essa comunicação?

Piraju – Vínhamos à unidade, todos os dados eram maquiados pela diretora, que tudo estava bem, que tudo estava correndo bem, e ao mesmo tempo a gente vinha sofrendo ameaças de não poder aparecer na unidade, e agora tomamos peito de não dar voz ao medo e comparecer, tomar pé da situação, e modificar a situação. Só que para isso precisávamos ter prova, e essas provas foram juntadas e hoje estão no Ministério Público.

Panorama: essas ameaças aconteciam de que forma?

Piraju – Ligação telefônica, a minha foi pessoal, sofri uma ameaça pessoal.

Panorama: mas essa foi hoje…

Piraju – As demais, aos outros colaboradores, enfermeiro [nome omitido pelo Panorama para preservação], colaboradora [nome omitido pelo Panorama para preservação], foram ameaças telefônicas dando 24 horas para saírem de dentro do hospital. Inclusive, quero lembrar que não é fato isolado.

Panorama: e isso tem registro?

Piraju – Há registro. Não é fato isolado com a Associação Beneficente Silvio Scopel, essas ameaças sofreram outras entidades, a antiga administradora [nome omitido pelo Panorama para preservação] também sofreu o mesmo tipo de ameaça. É o mesmo modus operandi. Todo colaborador que vem para cá que eles não gostam, eles ameaçam e botam a correr.

Panorama: eles quem?

Piraju – O grupo de oncologia, Previonco/Kaplan.

Panorama: esse grupo mantém que tipo de relação com o hospital?

Piraju – É uma terceirizada.

Panorama: alguma medida será tomada a respeito de manter ou não essa terceirizada?

Piraju – Sim. Perfeito. Não é o modo que a Scopel está acostumada a trabalhar, e a gente vai tomar as medidas judiciais cabíveis para fazer a reparação, para que a comunidade não sofra com esse tipo de postura.

Panorama: vocês também comentaram na última semana sobre as cirurgias oncológicas, de que a diretora Alexandra teria mandado as informações com erros que poderiam comprometer as finanças do hospital caso houvesse o pagamento. Quais foram os erros cometidos pela Alexandra que poderiam comprometer esse pagamento?

Piraju – Na verdade, os pagamentos médicos vieram a maior, não saberia te dizer agora, teria que passar pelo financeiro que não é minha responsabilidade, mas as faturas médicas vieram com valores a maior, que comprometeriam e muito as finanças do hospital. Já estão corrigidas e provavelmente até o final da semana serão quitadas. Foi pedida adequação para [nome omitido pelo Panorama para preservação], que é secretária dos médicos, fazer os devidos ajustes e pagar o valor correto, pois isso tem que ter aprovação do faturamento para poder pagar, e aí vão ser pagos no decorrer da semana.

Panorama: porque a entidade levou tanto tempo para descobrir as irregularidades, visto que a Alexandra está desde janeiro [de 2018]?

Piraju – Estamos levantando provas, e vendo se as denúncias correspondiam aos fatos.

Panorama: como que se dá o gerenciamento dessa unidade pela Scopel visto as alegações da Alexandra de que a diretoria “não colocava os pés no hospital desde fevereiro”?

Piraju – Na verdade, nós estávamos por parte acuados, porque estávamos ameaçados de que se botássemos os pés na instituição teríamos problema com a integridade física. Então, por motivo de segurança, nos ausentamos no primeiro momento, até fazer o levantamento técnico de toda a situação que se passava no hospital. E hoje mudamos o administrador, vamos dar uma nova cara administrativa para a instituição, e não vamos tolerar nenhum tipo de ameaça à integridade física a colaborador e a prestador de serviço. Porque não é só nós que sofremos, técnicos de enfermagem e enfermeiros já relataram tal fato também.

Panorama: como eles relatam isso?

Piraju – Através de comunicação interna. E aí nós temos um levantamento, foi entregue ao Ministério Público.

Panorama: estão documentados estes relatos?

Piraju – Está documentado.

Panorama: esses relatos de ameaça estão documentados, dos outros profissionais do hospital?

Piraju – Perfeito.

Panorama: como que se dá o gerenciamento financeiro dessa unidade? Existe uma conta específica para essa unidade?

Piraju – Tem uma conta única para os recursos de Taquara, essa conta é auditada pelo Ministério Público, são encaminhados a cada 30 dias todos os gastos que são feitos pela unidade, todos os débitos foram encaminhados para o Ministério Público, para fazer a prestação de contas dessa entidade. E assim, como funciona, o diretor administrativo tem total autonomia sobre a casa, e nos passa os empenhos, que passam por um filtro administrativo técnico, de ver se o que realmente está sendo pago o médico prestou e fez e, por ora, se há falhas a gente reencaminha para o administrador para ele refazer os cálculos.

Panorama: se há falhas vocês reencaminham?

Piraju – Reencaminha, não paga até que se corrija o problema.

Panorama: existe, então, uma conta específica para esta unidade? Uma das questões levantadas no Conselho Municipal de Saúde, o Panorama acompanha algumas das reuniões, é de que todo o dinheiro da Scopel seria gerenciado numa conta única de todas as unidades.

Não existe.

Panorama: a unidade é individualizada?

Piraju – É individualizada, perfeito. E a gente vai passar a partir de agora a fazer a prestação de contas na Câmara de Vereadores todos os meses. A gente vai ir lá na Câmara fazer prestação de contas, o que não se tinha com a administradora anterior.

Panorama: dessa conta?

Piraju – Dessa conta, dessa conta específica.

Panorama: qual é a posição de vocês em relação ao tomógrafo?

Piraju – Com relação ao tomógrafo, o aparelho que é locado pela Silvio Scopel, está estragado, a peça, como é um aparelho já antigo, foi encomendada, vai ser arrumada nas próximas semanas. Mas nunca se deixou de ter, porque quando estragou o tomógrafo foi feito um contrato com uma terceirizada daqui, [nome do prestador omitido pelo Panorama para preservação], e todas as tomografias não eram realizadas, mas tinham por não envio, porque ele está pago e está aguardando e tem até demanda ociosa para tomografia. As tomografias foram pactuadas com o [nome do prestador omitido pelo Panorama para preservação] e ele está de portas abertas recebendo todas as tomografias necessárias.

Panorama: segundo a Alexandra, há vários meses, desde outubro, quando o tomógrafo estragou, a Scopel não autoriza o conserto, embora tenha recebido os orçamentos?

Piraju – Está autorizado o conserto, e de antemão todos os exames estão pactuados com o [nome do prestador omitido pelo Panorama para preservação], onde devem ser feitos, realizados os exames, que não eram encaminhados.

Panorama: porque demora tanto para autorizar esse conserto? Ele já foi autorizado em outubro? Ele foi autorizado quando?

Piraju – Na verdade, falta a peça, é um tomógrafo muito velho, as peças são muito antigas.

Panorama: a Scopel pensa em trocar esse tomógrafo?

Piraju – Não é nosso, notificamos já a empresa que é dona dele. Notificamos e pedimos a substituição da máquina.

Panorama: de quem é essa empresa?

Piraju – Núcleo Serviços de Imagem.

Panorama: é daqui?

Piraju – É de Porto Alegre.

Panorama: vocês pagam um aluguel mensal para este tomógrafo?

Piraju – Perfeito, só que como foi estragado por nós, nós estragamos este tomógrafo, a gente tem que repor a peça que foi estragada.

Panorama: sabe o valor do aluguel?

Piraju – R$ 14 mil.

Panorama: o que levou a demissão do médico urologista? E porque a demora para recontratar esse profissional?

Piraju – Na verdade, a demissão partiu do diretor técnico antigo que botou todos os profissionais do município a correr. Ele tinha uma política de repulsão aos médicos do município, e agora o hospital reabre as portas e gostaria de contar com esse médico novamente no serviço.

Panorama: o Dr. Paulo Morassutti deu entrevista na segunda-feira pela manhã à Rádio Taquara e comentou que foi o Dr. Piraju que fez a demissão do médico urologista.

Piraju – Faço até gosto que ele retorne a vir até o hospital [em referência ao médico urologista], mas não demiti ninguém, até porque nunca interferi em nenhum médico do hospital, não posso, é o diretor técnico que cuida das questões técnicas.

Panorama: o senhor nunca contatou com o médico urologista?

Piraju – Não.

Panorama: nunca conversou com ele?

Piraju – Não.

Panorama: e sobre outros profissionais, nunca conversou com outros profissionais?

Piraju – Eu conversava diretamente com o diretor técnico.

Panorama: só com o diretor técnico, com os médicos, não?

Piraju – Os médicos eu tenho pouco contato.

Panorama: mas tem algum contato?

Piraju – Claro que sim, com certeza, com alguns médicos daqui eu mantenho um belo contato.

Panorama: o que está motivando os atrasos de pagamentos dos honorários médicos?

Piraju – Olha, na verdade, só o que atrasou, justamente esse foi um dos fatores que levou ao afastamento da diretora, porque ela encaminhava por ora honorários que não condiziam com a realidade, e a gente tem feito uma adequação, confirmando com o setor de faturamento que realmente os médicos devem receber, mas é só uma questão burocrática da antiga gestora, a administradora, a Alexandra. Agora acredito que vai ter um novo alinhamento e os pagamentos retornarão à normalidade.

Panorama: tem previsão para isso?

Piraju – De retomada, até o final da semana.

Panorama: para quitar tudo?

Piraju – Sim.

Panorama: com todos os médicos?

Piraju – A demanda demora deles encaminharem as notas fiscais com os honorários condizentes com a realidade, só essa demora. O dinheiro está na conta. 

Panorama: o Estado está em atraso atualmente?

Piraju – Está em atraso, em torno de três milhões e alguma coisa. Lembrando que a folha de pagamento foi paga no dia 3 deste mês. Dia três todos os funcionários estavam pagos, e todos os fornecedores estão, o que está atrasado por questão burocrática é os médicos terceirizados.

Panorama: este atraso, por questão burocrática, é decorrente de falhas da Alexandra?

Piraju – Perfeito, isso aí.

Panorama: segunda-feira pela manhã, também na entrevista que da Rádio Taquara com o diretor clínico, Dr. Paulo Morassutti, ele defendeu uma posição do corpo clínico, tomada, segundo ele, em ata, para a manutenção da Alexandra e do Dr. Renato Menzel. Segundo ele, isso foi uma deliberação do corpo clínico que será posteriormente encaminhada ao Ministério Público Federal. Como vocês veem isso?

Piraju – Nós vemos que isso não é uma questão que cabe ao Ministério Público, e sim à direção executiva da Associação Beneficente Silvio Scopel. E nós temos toda a questão legal da substituição e foi entregue uma denúncia contra ela junto ao Ministério Público, o que embasa o afastamento da profissional.

Panorama: e sobre o Dr. Renato?

Piraju – Sobre o Dr. Renato, ele pediu desligamento do corpo clínico, não era um pedido nosso, mas ele tomou a postura, e espantosamente o Dr. Daniel Kollet assume na sexta-feira e três dias após pede afastamento. Daí ele diz que são questões pessoais, a gente acredita que tenha sido, também, ameaçado ou alguma coisa assim.

Panorama: vocês têm provas disso?

Piraju – Não. Não, porque ele disse que eram motivos pessoais. A gente acredita [que tenham sido ameaças] porque ele ficou quatro dias muito motivado, trabalhando esse final de semana inteiro transferindo pacientes, e na segunda-feira ele vem aqui pedindo demissão.

Panorama: como vocês vão repor a questão do diretor técnico?

Piraju – Do diretor técnico está chegando uma doutora para uma primeira conversa, acredito que ela assume até amanhã [terça-feira, dia 9; Panorama questionou a Associação Silvio Scopel na quarta-feira, dia 10, e a entidade informou a nomeação do cardiologista Alexandre Fucks como novo diretor técnico].

Panorama: segundo as informações, e vocês devem também acompanhar, recebemos muita informação que corre na cidade. Segundo as informações, o valor do salário do diretor técnico era de cinco mil reais, e hoje a Scopel está procurando diretor técnico por valores de até 20, 25 mil reais. Isso confere, não confere, é verdade, é mentira?

Piraju – Assim, ninguém quer assumir essa responsabilidade, perfeito. O valor inicial era cinco mil, mas estamos dispostos a aceitar qualquer negociação, desde que alguém realmente tenha interesse em assumir, pois o compromisso é muito grande e deve ser remunerado de acordo com o tamanho da responsabilidade.

Panorama: até quanto esse limite?

Piraju – Tem um limite que geralmente varia no entorno 15 mil reais o cargo de diretor técnico num hospital, e nós vamos girar nesse norte. Até 15 mil.

Panorama: até quando vocês pretendem resolver essa pendência da direção técnica? Existe um prazo? O hospital pode funcionar sem um diretor técnico?

Piraju – Perfeito, o prazo legal é 48 horas, mas o Dr. Renato Menzel ainda não notificou o Cremers, ele que tem que notificar a saída dele, então nós estamos dentro do prazo ainda [quando Piraju faz essa referência, leva em conta que a entrevista foi concedida na segunda-feira, dia 9].

Panorama: a partir de agora, quais são as medidas que estão tomando na gestão do hospital para resolver as pendências?

Piraju – Estamos fazendo levantamento de todas as irregularidades que se passavam aqui dentro, da antiga administradora, levantando números e dados nesse primeiro momento, retomando serviços que até então estavam parados, como de urologia, temos contato com outro médico. Aguardamos a posição do [nome do médico taquarense preservado pelo Panorama], vai ser feito um pedido formal para ele retornar à unidade, se ele tiver interesse, mas estamos primeiro tomando pé da situação, para depois fazer um segundo momento, uma tomada de decisão com um pouco mais de afinco. Mas a princípio todos os serviços serão mantidos, com a retomada dos exames de imagem que eram bloqueados e não chegavam à sede administrativa, a partir de agora nós vamos dar conta de colocar tudo em dia.

Panorama: a Silvio Scopel comentou na nota da última sexta-feira que pretende fazer um pedido de desculpas à comunidade. Como vocês pretendem fazer isso?

Piraju – Na verdade, deixo aqui meu pedido de desculpas com relação aos fatos que nós não tínhamos conhecimento, que não chegavam até nós, até porque nós estávamos banidos de botar os pés aqui no hospital, por ameaças, mas agora estamos presentes, toda a semana estaremos aí. E vamos retomar os atendimentos se por ora faltaram à comunidade. E todo aquele profissional que não quiser trabalhar conosco a gente vai fazer a solicitação de desligamento e vamos substituí-lo por outro que esteja a fim de trabalhar no município de Taquara, que é muito agradável, todo mundo gosta de trabalhar aqui, é um belo município, estaremos aqui de portas abertas para quem quer trabalhar.

Panorama: a reportagem acompanhou duas reuniões na Câmara de Vereadores que foram marcadas, e pelo menos a uma das reuniões você tinha confirmado presença e não foi. Por que isso?

Piraju – Na verdade, a minha atividade é muito extensa, temos várias unidades, e a gente estava sob ameaça de morte, a gente não sabia até que ponto isso era verdade, isso era mentira, então a gente achou por bem se preservar num primeiro momento. Só que hoje tive uma reunião com a Câmara de Vereadores, muito produtiva, foram pautadas todas as questões que estavam pendentes, todas as ânsias dos vereadores que estavam conosco, fizeram muitas perguntas, a gravação está lá, à disposição. Eles também relataram que antigos administradores foram ameaçados, e também estão cansados dessa segunda força que existe dentro do hospital, acuar todo mundo. Disseram que o Mãe de Deus já se foi, o ISEV já se foi, que ninguém para no Hospital Bom Jesus. Me deram as mãos e disseram que estão me apoiando nessa gestão e que estão cansados de todo mundo que passa por aqui ser corrido por ameaças. E eles já estão cientes do que realmente acontecia, não é um fato isolado com a Associação Beneficente Silvio Scopel, acontece com todas as administradoras que vêm para Taquara são ameaçadas, são acuadas, e corridas de Taquara.

Panorama: sobre essas ameaças que você cita contra você. Hoje você diz que houve uma pessoalmente. Anteriormente, as específicas contra você, como aconteciam?

Piraju – Ligação telefônica, não identificada, que eu tinha 24 horas para sair de Taquara e nunca mais botar os pés aqui.

Panorama: e você registrou ocorrência disso?

Piraju – As primeiras eu acabei achando que era conversa, e acabei não registrando, mas essa de hoje foi registrado BO.

Panorama: há quanto tempo acontece isso?

Piraju – A partir do terceiro mês que estávamos aqui já vêm as ameaças acontecendo.

Panorama: lá na Câmara isso foi explicado para os vereadores, essa questão das ameaças foi colocada para os vereadores?

Piraju – Sim, e os vereadores rebateram dizendo que não é comum a nós, já vem de larga data acontecendo para outros administradores, desde o tempo do Mãe de Deus.

Panorama: vocês colocaram isso?

Piraju – Nós colocamos e os vereadores nos rebateram dizendo que as últimas duas instituições sofreram o mesmo tipo de ameaça. Eles falaram. Está na gravação da Câmara.

Panorama: mais alguma questão que vocês queiram colocar?

Piraju – Dizer que os médicos, solicitando aos médicos que foram retirados de dentro do hospital, a voltarem para o corpo clínico, que o hospital está com as portas abertas, que a Scopel necessita muito de mão de obra, estamos atrás de algumas especialidades, entre elas a cardiologia e a urologia. Estamos fazendo um chamado e um apelo para que os médicos retomem as atividades, aqueles que foram postos a correr pela antiga administradora.

Panorama: você cita “pela antiga administradora”, foi a Alexandra que colocou os médicos a correr?

Piraju – Olha, ela estava junto, com certeza. Foi desligado muito médico aqui na instituição.

Panorama: desligado por quem?

Piraju – Pelo diretor técnico e pela direção administrativa que estava na casa.

Panorama: a direção administrativa também?

Piraju – Claro, ela deve saber quais os médicos prestam serviço. Porque quem me passou isso foi esse último que chegou aqui e me disse que muitos colegas foram escorraçados dentro do hospital.

Panorama: esse último quem?

Piraju – Dr. Daniel Kollet.

Panorama: disse que outros médicos…

Piraju – Do município foram escorraçados dentro do hospital. A exemplo, bom não posso dar exemplo, fica ruim, mas tem um endoscopista daqui, [Piraju cita o nome do médico, que será preservado por Panorama].

Panorama: [Panorama cita o nome do médico na entrevista em áudio, mas preservará a identidade na publicação por não ter envolvimento dele em suposta irregularidade, apenas foi citado por Piraju para apoiar suas afirmações].

Piraju – Hoje não desenvolve as atividades clínicas dele aqui, é daqui e está atuando em Igrejinha e Parobé. Acho que pode botar isso aí. Não atua mais no hospital, atua em Igrejinha e Parobé.

Contraponto de Alexandra Camargo, ex-diretora administrativa do Hospital Bom Jesus:

– Sobre a alegação de Piraju de que todos os dados repassados por Alexandra estavam maquiados, a ex-diretora afirma que “todos os dados do HBJ eram coletados no sistema de informação da instituição e estão disponíveis no site do Ministério da Saúde, através do programa ‘TabWin’ (http://datasus.saude.gov.br/10-informacoes-de-saude/155-tabwin)”.

– Com relação à afirmação de Piraju de que a lista de exames seria represada, Alexandra afirma: “Conforme vários e-mails enviados para a sede (inclusive com cópia ao MPF em 18/12/2018) e relatado na resposta à notificação enviada pela sede da Scopel, recebida em 02/07/2019, todos os pedidos foram feitos para a sede (segue em anexo um dos e-mails, enviado inclusive com cópia para o Dr. Piraju, porém foram represados pela própria sede)”. Neste ponto, Alexandra encaminhou ao Panorama um e-mail em que alerta a Silvio Scopel sobre a necessidade de resolver diversas pendências no hospital.

– No tocante à afirmação de Piraju relacionada à compra de medicamentos para a farmácia, de que Alexandra não teria enviado lista de compras, a ex-diretora disse que “não há ingerência direta da direção administrativa no processo de aquisição de medicamentos, apenas acompanhamento”. Acrescentou: “O Dr. Piraju sabe que quem faz os pedidos de compra é a farmacêutica responsável pelo serviço de farmácia, a qual elabora a lista dos medicamentos que necessitam ser adquiridos, juntamente com o responsável pelo setor de almoxarifado [Alexandra citou o nome deste profissional, mas Panorama preserva a identidade], e encaminha essa lista diretamente ao setor de compras da sede da Scopel. Inclusive, há vários pedidos que serão encaminhados às autoridades para comprovar esta questão”.

– Sobre a alegação de que Alexandra seria ligada a um grupo de médicos que não queriam que o hospital andasse a pleno, a ex-diretora afirmou que isso não procede. Diz que desde fevereiro, quando o Dr. Piraju demitiu três funcionários [os nomes citados por Alexandra estão sendo preservados por Panorama], as autoridades têm conhecimento de que ocorreram irregularidades no faturamento devido à conduta da então responsável pela questão. Segundo Alexandra, em audiência realizada em 28 de fevereiro, com o procurador Bruno [Alexandre Gutschown, do Ministério Público Federal em Novo Hamburgo], o Dr. Piraju afirmou que tinha sido enganado pela então responsável. A ex-diretora afirma que estas mesmas autoridades sabem que desde março, com a contratação de um novo gerente de faturamento e com a contratação de anestesistas, o hospital começou a ficar a pleno. Alexandra observou, ainda, que o hospital não devolveu o contrato dos anestesistas para arquivamento até 4 de julho e disse que deve ser considerado que, em março, a casa de saúde ficou os primeiros dias com duas folhas sem pagamento.

– Com relação à alegação de que seria ligada à oncologia, Alexandra rebate: “O Dr. Piraju mais uma vez mostra desconhecimento ou má-fé, o setor de oncologia faz parte do HBJ, pois a instituição realiza exames, cirurgias e quimioterapias. Impossível a direção administrativa uma instituição com habilitação em oncologia não manter contato com o prestador destes serviços. Inclusive, importante referir que atualmente existem 234 pacientes de oncologia ativos pelo SUS com início do tratamento em 7,6 dias após prescrição. Só não há mais pessoas em tratamento porque a sede da Scopel não disponibiliza dinheiro para exames e nem consertou o tomógrafo”.

– No tocante às ameaças de morte mencionadas por Piraju, Alexandra diz que não possui conhecimento, mas considera importante esclarecer que cabe ao superintendente provar isso. “Ressalto que, em audiência com o procurador Bruno, quando o Dr. Piraju mencionou isso, de imediato o procurador do MPF propôs que ele entregasse o celular para rastrear as ameaças. Na ocasião, isto foi recusado imediatamente pelo Dr. Piraju. Parece contraditória a postura de uma pessoa que, supostamente ameaçada, recusa a oferta de auxílio feita por um representante do MPF”.

– Com relação às informações sobre um médico realizar três procedimentos ao mesmo tempo, de um médico estar em todos os procedimentos e de tentativa de superfaturamento de AIH, Alexandra declara: “Dr. Piraju mais uma vez desconhece como funciona o HBJ. Existem no bloco três salas, uma para endoscopias/colonoscopias e duas para cirurgias. Como as fichas de atendimentos são realizadas na recepção quando o paciente chega no hospital, pacientes que foram atendidos ao final da manhã podem sim ter o mesmo horário. Quanto às cirurgias, estas ficam abertas até a liberação pelo médico anestesista, não havendo ingerência do cirurgião. Todas as AIHs são auditadas pelo Estado do RS. No período que ele [Dr. Piraju] contratou uma funcionária para gerir o faturamento, esta pessoa realizou uma série de erros no procedimento. Após a contratação da nova profissional em março, todas as contas foram reapresentadas e, inclusive, já foram processadas e pagas pelo Ministério da Saúde. Cabe mencionar que, em audiência na Secretaria de Saúde do RS, em 06/06/2019, na qual o Dr. Piraju não compareceu, ficou acordado que todas as contas não levariam mais de 30 dias para serem auditadas, diferentemente do que vinha acontecendo até então, quando o procedimento levava até 90 dias”.

– No que se refere à reunião da CIR em janeiro, em que foi mencionado que o hospital estava negando atendimentos para a região, Alexandra se manifesta: “Nessa mesma audiência, realizada em 06/06/2019, ficou esclarecido que o HBJ estava, sim, correto em sua conduta. Na ocasião, a própria secretária estadual de Saúde (Sra. Arita) afirmou que sem resolução da CIB o HBJ não tem como atender. Também cabe ressaltar que as cidades de Taquara, Cambará do Sul, Riozinho e São Francisco de Paula, sempre tiveram seus pacientes atendidos. Por sua vez, as outras cidades têm referências e hospitais que recebem recursos para atender seus próprios pacientes”.

– Sobre a alta de pacientes no período noturno, Alexandra comentou: “Os pacientes eram atendidos e, de acordo com a avaliação médica, eram liberados ou não. A afirmação não possui nexo, pois não cabe à direção administrativa interferir na decisão do ato médico, conforme Lei número 12.842/2013”.

– No tocante a supostos dados a maior para o pagamento de cirurgias oncológicas, Alexandra se manifestou: “Conforme já mencionado, quando da contratação da nova gestora em março, todas as contas antigas foram revisadas e reavaliadas. Antes disso, a responsável pelo faturamento, contratada pelo Dr. Piraju, realizou uma série de procedimentos erroneamente. Reitere-se que o próprio Dr. Piraju afirmou ao representante do MPF ter sido enganado pela profissional por ele contratada”. Sobre o encaminhamento de honorários médicos que não condiziam com a realidade, Alexandra repetiu a mesma resposta acima, acrescentando que a afirmação de Piraju não procede.

– Sobre a alegação de que médicos teriam sido colocados a correr de dentro do hospital, Alexandra disse que não procede. “Se algum profissional foi excluído do corpo médico, isto foi por devido a falhas na conduta do próprio profissional médico. De toda forma, não cabe à direção administrativa esse ato, mas sim ao diretor técnico”.

Contraponto do médico Paulo Morassutti, diretor clínico do Hospital Bom Jesus:

– Sobre a ameaça que Piraju refere ter sido feita, Paulo Morassutti declarou o seguinte: “O Dr. Piraju falta com a verdade ao remover a questão do contexto, e que tipo de ameaça. No momento que falei com ele, após cumprimentá-lo, cobrei a resposta do pagamento atrasado desde setembro de 2018, de serviços profissionais que prestamos – aqui eu me refiro ao grupo de cirurgiões do hospital. Minha manifestação foi enfática em razão de estar cansado das inúmeras ‘desculpas’ apresentadas pela superintendência da Silvio Scopel, além da constante ‘enrolação’ em não pagar os valores aos quais temos direito de receber pelo trabalho que prestamos. Minha ‘ameaça’ foi a de que cobrarei judicialmente da Scopel e do próprio Dr. Piraju, por este ter responsabilidade pessoal na questão, já que é o superintendente. Aliás, é minha função, na condição de diretor clínico do HBJ, cobrar dos responsáveis o regular pagamento dos médicos, conforme preconiza o Código de Ética Médica. Como médicos, prestamos nosso papel social ao atender a população, mas estamos cansados de ser tratados com descaso por pessoas que não possuem o mesmo compromisso. Na quinta-feira passada, o Dr. Piraju pediu para os médicos, após ser cobrado pessoalmente por eles [Morassutti cita nomes de três médicos que serão preservados por Panorama], que emitissem as notas fiscais dos serviços, pois pagaria naquele dia. Entretanto, o pagamento não foi feito. Isso acarreta prejuízo, pois a emissão da nota obriga o pagamento de impostos, mesmo sem termos recebido os valores devidos”.

– Com relação à afirmação de ameaças, Morassutti declara o seguinte: “Tenho apenas o relato de que, em audiência com o procurador Dr. Bruno, o Dr. Piraju se negou a entregar o celular para comprovar as ameaças, o que coloca em dúvida essa afirmação. Espero mesmo que entregue tais provas para as autoridades competentes”.

– Sobre a alegação de que o grupo de médicos da oncologia teria ligação com Alexandra para manipular dados do hospital, Morassutti diz o seguinte: “A Sra. Alexandra era responsável pela direção administrativa do hospital. Portanto, qualquer médico ou funcionário da instituição tem ligação e mantém contato com ela. De toda a forma, cabe ressaltar que várias contas foram adulteradas dentro do setor de faturamento no período em que atuou funcionária que ele próprio designou. Inclusive, ele mesmo alegou para o procurador Dr. Bruno (MPF) que esta funcionária havia enganado ele”.

– Com relação à suposta tentativa de superfaturamento de AIH pela transformação de pequenos procedimentos em procedimentos oncológicos, Morassutti declara o seguinte, questionado por Panorama como médico da oncologia: “Importante ressaltar que não sou médico da oncologia e sim faço parte do grupo de cirurgiões que opera pacientes com câncer. Nunca houve superfaturamento. Todos os procedimentos cirúrgicos oncológicos antes de serem enviados para o faturamento, ficam pendentes do exame anatomopatológico. Portanto, existe inclusive maior controle, pois o setor de faturamento não pode enviar a conta antes da confirmação do exame”.

– Sobre a afirmação de que todo colaborador que o grupo da oncologia não gosta, seria colocado para correr, Morassutti comentou: “A Kaplan unidade Oncoprev só tem a obrigação de realizar quimioterapia e atender consultas clínicas oncológicas. Não há nenhuma ingerência sobre quaisquer outros setores do funcionamento do hospital”.

Contraponto do médico Renato Menzel, ex-diretor técnico do Hospital Bom Jesus:

– Com relação à afirmação de que um grupo de médicos atua prejudicando o hospital, ligados à oncologia, Renato Menzel se posiciona: “Desconheço essa suposta atuação prejudicial por parte dos médicos ligados à oncologia. Inclusive, minha impressão é fortemente contrária a tal afirmação, uma vez que as cirurgias oncológicas continuam a ser realizadas no hospital, mesmo com atraso datando setembro de 2018”.

– Sobre as supostas tentativas de superfaturamento de AIH, um médico realizando três procedimentos simultâneos e de um mesmo médico estar em todos os procedimentos, Menzel afirma: “Não tive contato com nenhum documento de AIH contendo a situação à qual o Dr. Piraju refere”.

– No tocante às altas concedidas no período da noite, criticadas por Piraju, o ex-diretor técnico também se manifestou: “Tenho conhecimento de internações prolongadas por dificuldades sociais e o hospital sempre priorizou a humanização e a tolerância quanto à permanência na instituição. Houve diversos casos em que aguardamos oxigênio ou dieta especial, por exemplo, que são questões reguladas pelas secretarias estadual ou municipal, para que o paciente tenha estrutura domiciliar adequada para a alta. Como médico, o Dr. Piraju deve ter conhecimento de que não existe horário recomendado para a alta na literatura médica. Sua colocação possui tom puramente demagógico. A alta médica celebra apenas o término de um tratamento hospitalar e não é um artifício de prejuízo às pessoas, ao contrário do que foi afirmado pelo Dr. Piraju”.

– Sobre a demissão do médico urologista, Menzel declarou o seguinte: “O Dr. Piraju me exigiu o desligamento do urologista, após o mesmo tê-lo insultado de ‘larápio’ em grupo de WhatsApp. Esse episódio é de conhecimento público dentro do corpo clínico e demonstra falta de verdade por parte do Dr. Piraju”.

– Com relação à entrega de notificação ao Cremers, segue a posição de Menzel: “Meu pedido de desligamento foi oficiado sexta-feira pela manhã à superintendência da Scopel, sendo o novo diretor técnico anunciado publicamente pelo Dr. Piraju em entrevista no mesmo dia. De acordo com as normas vigentes, ‘a substituição do diretor afastado deverá ocorrer imediatamente, obrigando o diretor que assume o cargo a fazer a devida notificação ao Conselho Regional de Medicina, por escrito e sob protocolo’. O Cremers já foi oficiado sobre o meu desligamento da direção técnica”.

– No que se refere à afirmativa de que teria orientado a não internar pacientes de convênios IPE/Unimed, somente SUS, Menzel rebateu: “O HBJ tem um contrato com o Estado do RS que prevê atendimento de oito pacientes pelo SUS, sendo obrigado a cumprir com esta obrigação sob pena de descumprimento contratual e aplicação das penalidades daí decorrentes. Ocorre que, no momento, a unidade conta justamente com oito leitos. Assim que a unidade contar com o nono ou décimo leito, entendo que será possível internar pacientes privados ou de convênio sem prejudicar a assistência dos pacientes do SUS, os quais, aliás, costumam ser aqueles em situação de maior vulnerabilidade social”.

Contraponto do médico Daniel Kollet:

– Contatado por Panorama, Kollet alegou motivos pessoais para declinar do cargo de diretor técnico do Hospital Bom Jesus. Afirma que possui muitas tarefas e pensa em ficar mais com a família, se dedicar ao mestrado e aos pacientes do consultório, com o tempo e cuidado necessário. Acrescenta que nunca foi ameaçado e que não aceitou por achar que não é o momento, apenas isso.

Contraponto do Instituto Kaplan:

– Por meio de sua assessoria, o Instituto se manifestou sobre as perguntas encaminhadas pelo Jornal Panorama: “A Kaplan possui tradição de quase 30 anos de excelência em serviços ambulatoriais em oncologia, não apenas no RS, mas em outras regiões do país. Para a Previonco, presta serviços na região de Taquara há cerca de um ano. Neste período, jamais observou qualquer indício de irregularidade, dedicando seus esforços ao seu compromisso contratual, que visa o atendimento de excelência, atestado por pacientes, familiares e colegas”.

– O que diz a Câmara de Vereadores:

A partir da afirmação de Piraju Nicola Neto de que houve reunião na Câmara de Vereadores, Panorama solicitou informações à presidente do Legislativo, Sirlei Silveira. A vereadora confirmou que houve reunião com Piraju, na segunda-feira (8). Segundo ela, o superintendente relatou a sua ausência do hospital e das reuniões na Câmara como sendo motivadas por ameaças que recebeu contra a sua vida e da sua família.

Sirlei confirmou que houve manifestação de vereador sobre as ameaças existirem desde a gestão do Mãe de Deus, na sequência ao ISEV [Instituto Vida], neste segundo com a existência, conforme a vereadora, de um boletim de ocorrência feito pela ex-diretora da casa de saúde, pois ela teria sido ameaçada quando tentou regrar o HBJ. “O que nos remete ao entendimento de serem verdadeiras as afirmações feitas pelo Dr. Piraju. Na semana passada, ficamos felizes ao saber da assunção ao cargo de diretor técnico do HBJ pelo Dr. Daniel Kollet, médico renomado e da cidade, e, no momento da reunião na Câmara, o Dr. Piraju relatou que sob alegação de motivação pessoal o mesmo permaneceu no cargo por apenas três dias após assumir na função. Isso é preocupante”, declarou Sirlei.

A presidente do Legislativo acrescentou: “Percebemos, através de relatos que chegam até a Câmara, que há muitos anos existe uma gestão paralela dentro do Hospital Bom Jesus e isso atrapalha o desenvolvimento do mesmo. Recentemente, eu fui questionada por um médico, morador de Taquara, que presta serviço em hospitais da região: ‘Vereadora Sirlei, a Senhora já parou para se perguntar o porquê de bons médicos, alguns especialistas, não atenderem no hospital da cidade onde os mesmos moram?!’ Esse médico me afirmou que o nosso Hospital Bom Jesus tem um cirurgião no seu quadro clínico que afasta do HBJ os bons profissionais, para resguardar seu ‘reduto’. A Câmara de Vereadores de Taquara apoia o Hospital Bom Jesus e se coloca à disposição de todos aqueles que assumem a gestão pensando no acolhimento e aprimoramento dos atendimentos prestados à municipalidade e lastima muito a situação ter chegado a esse ponto, onde bons médicos, capazes de realizarem um bom trabalho, com capacidade de reerguer o Hospital Bom Jesus e colocá-lo em condições para um atendimento qualificado, buscam trabalho nos hospitais das cidades vizinhas. Se a Associação Silvio Scopel, na pessoa do Dr. Piraju, se posicionar e trabalhar no sentido de impossibilitar a atuação desse segundo poder dentro do HBJ, isso atrairá bons médicos para comporem o corpo clínico do nosso hospital, única forma de qualificarmos o atendimento nessa tão sucateada instituição”.