Flores de plástico: uma tendência, por Jéssica Ramos

Leia o artigo da jornalista Jéssica Ramos do Jornal Panorama

A vida tem se tornado corrida. Quase automaticamente, todos, incluindo nós mesmos, nos autopromovemos malabaristas. A rotina de trabalho, os prazos, boletos, objetivos e metas, pessoais e profissionais, são cuidadosamente equilibrados. Mas nem sempre nos damos conta dos possíveis excessos e isso, geralmente, acaba refletindo em prejuízos – não obrigatoriamente financeiros – mas, na maioria das vezes, também. A saúde é um exemplo clássico, pois o corpo se encarrega de emitir sinais de que algum limite foi ultrapassado.

Contudo, os excessos impostos em nossa rotina pessoal não refletem apenas sobre a nossa vida. Basta acordar e encarar a família, em casa, para espalhar um pouquinho de nós – das nossas causas e coisas. O trânsito, o trabalho, tudo que nos integra e envolve segue a mesma lógica. E, o mais curioso é perceber que mesmo ignorando alguns excessos, escolhidos por nós, rumamos ao individualismo.

Sofremos a cada proposta de mudança no trabalho – principalmente quando não parte da nossa própria iniciativa – sem ao menos tentar. “Broxamos” ao identificar qualquer diferença ou “defeito” num possível pretendente a relacionamento, ignorando toda a bagagem de vida da pessoa, e tudo o que ela pode passar a representar, a construir conosco. Desejamos coisas, experiências, sem sequer refletir no real motivo e significado de ambas. Desejamos o prático, o fácil, se possível, instantâneo.

Em busca “do algo, por algum motivo”, negligenciamos o sentido da vida. Tornamos-nos líquido, nos adaptando ao espaço que nos oferecem, contornando e transbordando, na maioria das vezes, coisas que não fazem sentido, não nos acrescentam. Escolhemos atalhos que nos poupem de sentir, principalmente a dor. Mas ignoramos o fato de que é via sacrifício que conquistamos as coisas mais prazerosas e verdadeiras da vida.

A paternidade/maternidade é prova mais que suficiente, afinal de contas, nela, “o sofrer” é sentido desde a descoberta da concepção – o sofrer da abdicação, do abandono da zona de conforto, da metamorfose da vida. O parto dói, e é só o início de toda uma história de aprendizado, onde ambas as partes sofrem. O bebê se adapta a um mundo completamente diferente e hostil. Os pais obrigam-se a readaptar suas vidas, acionar seus instintos, e crescer. Dar origem a uma família. Estrutura, cultura, que a vida moderna tem tornado obsoleta.

Talvez por isso, pelo “sofrer”, e não em virtude das famosas “despesas extras”, os casais têm optado por não ter filhos. Talvez por isso nossos jardins, aos poucos, desaparecem e dão lugar a flores de plástico. Quem, em sã consciência, em meio a tantos afazeres, vai empregar tempo e vida, no cultivo de plantas naturais? Quem vai investir anos, estudando, se dedicando – sem garantia alguma – para que a plantinha finalmente floresça, cresça? Crescer realmente dói.

Flores de plástico são uma ótima tendência à vida moderna. Caem bem em qualquer cômodo, seja em ambientes familiares ou executivos. São lindas, coloridas, práticas e, principalmente, descartáveis. Não somam muito, mas também não demandam trabalho, sentimento. Talvez se assemelhem a algumas relações… eu mesma tenho topado com fabulosos buquês de flores por aí.. de plástico.

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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