Gilson Dorneles em: O caso estrambólico de um papagaio verde

Espiga de milho cega

Acompanhe a coluna de Krishna Grandi, acadêmica de Publicidade e Propaganda da Faccat.

-Eu que não ponho mais meus pés aqui! – Irritado, o homem pega o chapéu e o enfia na cabeça. – Não vou com essa tua cara! – Aos berros repetia: “onde já se viu”. Sai pelo corredor do escritório de Gilson Dorneles e passa pela senhora Dorneles.

-Alguma coisa está errada, senhor? – Os óculos pontudos de gatinho com enormes correntes douradas ao redor do rosto redondo se viraram em direção à expressão furiosa do homem.

-Aquela cara está errada. – Sem esperar por qualquer resposta óbvia, o homem saiu batendo porta.

Gilson Dorneles estava absorto em pensamentos, no banheiro do escritório, de frente ao espelho. “O que poderia ter de errado com a minha cara?” as respostas eram muitas, tantas que Gilson cogitou a possibilidade de ser feio. “Impossível!” No que tentava achar alguma resposta plausível, um estouro na janela.

-Abre! – Um borrão verde gritava no parapeito da janela.

Com a agilidade de um atleta, Gilson Dorneles saca sua arma e abre a janela.

-Eu acho que matei alguém! Eu acho que matei alguém! – Respirando fundo, Gilson Dorneles brilhou os olhos.

Tãdãdãdã Tãdãdãdã

O detetive de casos especiais

O que precisar, procurar, ele faz

Tãdãdãdãdã dãdãdãtátá

Nenhum mistério

Por mais caótico

Gilson Dorneles

Atende tudo

Até o gótico

Pátãdãpá

Após acalmar o papagaio, Gilson Dorneles tentou avanços:

-Pode repetir? –o papagaio estava sobre a mesa do escritório em que uma placa dizia “detetive de casos especiais” e Gilson sentado na cadeira, face a bico.

-Não consigo! – Com picos de histeria e tranquilidade, o papagaio chacoalhava suas asas.

-Vamos descansar, Miave, sim! – Gilson foi para a cozinha e fez um chá. Não estava progredindo com o papagaio. Mas também fora mal educado, provavelmente o papagaio tem um nome e ele nem perguntou. Respirou fundo. Nada passou pela sua cabeça.

Quando olhou para o microondas e viu os números, sabia para quem deveria ligar.

-Charles?

-Gilson?

-Como eu cuido de um papagaio?

-Você comprou um papagaio! Maravillha! – Charles passa as instruções.

-Não, não… Você não entendeu. Como se cuida psicologicamente de um papagaio!

-Aaaaah, conviveu com humanos?

-Pelo visto, bastante…

-Mas foram humanos ou foram pessoas?

-Ainda não sei responder. Estou investigando.

-Precisamos de um psicólogo de papagaios, Gilson! Vou ver se encontro alguém aqui na ONG.

-Você poderia dar uma olhada no papagaio? Tem alguma coisa errada com a cara dele…

-Hmmm… Passo aí depois.

Ao desligar o microondas, Gilson voltou para o escritório. Empoleirado no peso de papel, dormia a ave verde. Pensamentos fofinhos cercaram a mente colorida de Gilson Dorneles.

-Ooowwwnti… – Gilson não tinha por costume se derreter pelos seus clientes, mas aquele era expressionante.

-Com esses seus murmúrios, não consigo dormir. – reclamou o papagaio.

-Desculpe, Miave… Vou me recolher também. – constrangido, Gilson foi para o escritório de sua mãe, onde havia um sofá.

Encontrou um bilhete “Saí para um encontro, não volto hoje”. Gilson suspirou. Tirou as pantufas e esticou as pernas pelo sofá. Acordou com a campainha tocando. Piruliruluu.

-Charles!

-Gilson!

-Outro papagaio?

-Gilson!

-Entrem!

Charles e o outro papagaio entraram no escritório de Gilson Dorneles. A ave verde acordou.

-Gilson, deixemos que os dois conversem. – Charles colocou o outro papagaio junto com o papagaio. – Você e eu, vamos pra cozinha!

Em uma cacofonia desarmônica, racharam o bico.

-Presumo que na falta de um psicólogo de papagaios, você tenha encontrado um papagaio psicólogo. – Ponderou Gilson.

-Sabia que você entenderia. Perfeito, não? Se precisar, tenho aqui o certificado dele. – Charles ia abrindo a pasta, mas foi interrompido pelo Gilson.

-Não será necessário, Milord. Aceita chá? – Ambos tomam chá.

-O futuro não te assusta, Gilson? Desde que estão recrutando papagaios para atividades humanas… Muita coisa mudou.

-Fato. Entretanto, adoro a possibilidade de ligação de qualquer aparelho que possua números.

-Realmente, fantástico.

-Meu nome é Giovane! – O papagaio psicólogo sobrevoou a cozinha e parou no ombro de Charles.

-Então?

-A história é a seguinte, aquela ave estava voltando para casa quando ouviu seu dono gritar “acho que matei alguém” e por fim morreu. Assustado, ele fugiu e no caminho, ao se deparar com outros papagaios mal encarados, entrou em uma luta corporal. Após uma bicada acidental, um dos papagaios caiu estatelado no chão. Por isso, ele acredita que possa ter matado outro papagaio. O que fez ele repetir “acho que matei alguém” duas vezes. Uma por recado de seu dono e outra por confissão. – Gilson sentiu um aperto no coração.

-Obrigado, Giovane! – Gilson se apressou em voltar para o escritório.

-Agora só preciso chegar alguns arquivos policiais. Sim, sim! Logo, logo saberemos tudo!

Gilson acessou pelo seu computador os últimos arquivos policiais em casos abertos. A documentação registrada naquela manhã mostrava que um traficante fora morto dentro da própria residência por uma bala e que nessa casa havia objetivos relacionados a aves diversas, sendo que um papagaio encontrava-se desaparecido.

-MAS ESSE PAPAGAIO ESTÁ EM FRANGALHOS! – Charles examinava o papagaio verde. – Vou receitar alguns remédios. Cuide bem dele, Gilson.

-Pelo visto, teremos que passar um tempo juntos.

Charles, com Giovane em seu ombro, despediram-se dos demais.

Gilson voltou para o espelho do banheiro. “O que tem de errado com a minha cara?” Nem percebera que tal pensamento o cegou a ponto de não ver os ferimentos do papagaio. De repente, com um pousar suave nos ombros de Gilson, eis que surge a ave.

-Sabe, Gilson… Eu escutei a discussão nessa manhã.

Sério, Gilson encarava o papagaio pelo espelho.

-Então pode me dizer o que tem de errado com a minha cara?

-Nada. Absolutamente nada. Sabe, Gilson… Até que eu fui com o teu bico. – Gilson sorriu e, de repente, pensamentos fofinhos coloriram a mente dele.

Tãdãdãdã Tãdãdãdã

O detetive de casos especiais

O que precisar, procurar, ele faz

Tãdãdãdãdã dãdãdãtátá

Nenhum mistério

Por mais caótico

Gilson Dorneles

Atende tudo

Até o gótico

Pátãdãpá