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Helena alcançou a lua

Helena alcançou a lua

Quem acompanha meus textos, já deve ter percebido o quanto minha filha, Helena, me inspira no dia a dia. Mãe coruja, assumida, não me deixo embriagar pelo teor alcoólico da maternidade a ponto de não assumir os defeitos dela e os meus. Não somos mãe, nem filha, ideais. Talvez, assumirmos isso nos torne ainda mais apaixonadas uma pela outra, e nos faça um pouquinho melhores a cada amanhecer. Pois, são das brincadeiras, inocentes, dela que nascem minhas mais profundas reflexões.

Nessa semana, estávamos sentadas no gramado de casa, eu e minha mãe, enquanto Helena saltava de um lado para o outro, descobrindo insetos e exibindo suas habilidades corporais pelo quintal. Apreciou o que pôde, até correr os olhos pelo céu e enxergar a lua (fazemos isso, juntas, desde que ela era bem bebê). Dessa vez, Helena não se contentou apenas em apreciar, queria alcançar a lua também. Saltou algumas vezes e disse que a pegaria. Depois se pôs a lamentar, buscando consolo em meu colo.

O gesto inocente da Helena nos fez rir, e também buscar alternativas para resolver o caso. Apesar dela não compreender, de fato, explicamos que a lua estava muito distante e não poderíamos abraçá-la. Talvez, quando ela crescesse, pudesse voar até a lua, mas, por enquanto, apenas admirar. Trocamos a lua por alguns desenhos e giz de cera, que logo foram substituídos pelas bonecas, mamadeiras e uma massagem nas costas, com bônus de cafuné (outro hábito que desenvolvemos desde os primeiros meses de vida dela – e que deixa a bichinha entregue).

A cena toda me fez refletir sobre metas e objetivos. No quanto vivemos apenas “seguindo o fluxo”, sem sequer questionarmos o porquê de buscar tais coisas. E no quanto adoecemos por conta disso tudo. Queremos alcançar a lua, mas não calculamos a rota, ou o tempo de viagem até ela. Aliás, desistimos nas primeiras horas de viagem, porque sequer buscamos nos conhecer e identificar se, de fato, é da lua que precisamos. E assim nascem os traumas, as compulsões e os, repetitivos, ciclos de fracassos. Não há progresso naquilo que não nos cabe e é perseguido apenas para ser postado em nossos stories – mesmo que, para o público, pareça.

Passados alguns minutos, Helena demonstrou que o que ela realmente desejava era carinho e atenção. Alcançar a lua foi o artifício que ela, inconscientemente, usou para, frustrada, buscar acolhida em meus braços. Mas, e nós, quais artifícios temos usado em nossa busca inconsciente? ..retardando o amadurecimento e negando a realidade.. somando traumas e fracassos – em nós e nos outros? Qual será a nossa verdadeira “lua”? Por que a perseguimos e o quanto estamos dispostos a lutar por ela?

..prestem atenção em seus filhos!

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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