Iara Neumann

Iara Neumann


Iara Müller Neumann (59), empresária do ramo de moda, dona da loja By Iara, casada com Ricardo Neumann, mãe de três filhas: a advogada Candice (36), a psicóloga Gabriela (27) e a publicitária Maria Eduarda (23). E também avó de Bernardo e Leonardo.


Sou uma pessoa alegre, nunca me considerei vítima de nada, mesmo quando perdi a mãe com 14 anos. Sou bem autoritária e tenho muita energia. Me considero super desastrada, atrapalhada (risos), ao mesmo tempo muito forte, enfrento tudo, bem melhor do que a maioria das pessoas.

QUESTIONÁRIO

Fale sobre como foi perder a mãe aos 14 anos.
Naquela ocasião eu poderia ter me sentido vítima, coitadinha. Pelo contrário, eu tinha quatro irmãos, só um mais velho do que eu, e o mais novinho com apenas um ano de idade. Logo percebi, por conta própria, que precisaria dar uma mão forte para meu pai. Não me lembro de ter ficado mal, acho que não deu tempo nem de refletir muito sobre aquela situação. Levei tudo com firmeza (meu irmão mais novo costuma brincar que foi um sobrevivente nas minhas mãos). Mas jamais deixei de estar com minhas amigas, muitas vezes elas ficavam me esperando enquanto eu fazia mamadeira e colocava o Neco para dormir, para depois sairmos. Mas também colocava o pequeno no carrinho e levava junto com as amigas para o bar e a piscina do clube. Nunca me privei de nada na minha juventude.

Como o comércio de moda entrou na sua vida?
Comecei a trabalhar com 16 anos. Meu pai chegou dizendo que havia comprado uma loja e que desejava que eu trabalhasse. Disse logo “eu quero” e me apaixonei pela atividade. Na verdade eu já tinha experiência com comércio desde os 12 anos. O pai tinha o armazém Primavera, ao lado da rodoviária, ele deixava estacionada na frente uma Kombi cheia de flores de plástico e brinquedos. E eu ficava lá, atendendo as pessoas. Gosto da venda em si, mas não aprecio gerenciar números. É o contato com as pessoas – de todas as idades, que me fascina. Sempre gostei de conversar com pessoas experientes, com mais idade, e aprecio muito a convivência de minhas filhas com os avós. Gostava de ouvir as histórias do meu pai e do meu sogro. Hoje os jovens podem nos dar aula em assuntos relacionados ao mundo digital, mas sobre a vida mesmo, só conversando com os mais velhos. Assim procuro levar experiências aos meus netos; convido para plantar alguma coisa, para jogos lúdicos que não envolvam computador, ensino a limpar a casinha de brinquedos. Eu amava muito os meus avós, e sei da importância desta convivência. Minhas filhas sofreram muito quando meu pai faleceu; durante a velhice dele, nunca me cobraram sobre o tempo que eu precisava dedicar a ele, para que tivesse conforto e pessoas boas cuidando dele nos anos finais.
Hoje vejo que estes exemplos valeram. Ainda agora vi minha filha Gabriela se oferecendo para levar o avô paterno para visitar o túmulo de familiares em Campo Bom, tendo em vista do dia de Finados.
Tenho real prazer de conversar com pessoas mais idosas. Na praia, fiz uma amiga (e comadre), que quando eu a visitava na casa dela, acabava conversando mais até com a mãe da minha amiga, porque me dava muito prazer, porque agregava, eram sempre lições de vida.
Com relação ao meu pai, fiz tudo que pude por ele enquanto viveu, e isso me permite não sofrer tanto a perda. Foi assim também com uma grande amiga que tive, nunca faltei a um chamado dela, tanto para a alegria quanto para seus momentos difíceis.

E esse seu jeito extrovertido, como se explica?
Sou brincalhona mesmo, disposta, não acho nada ruim. Não tolero mentiras, mas tenho facilidade em perdoar, embora seja estourada. Desabafo na hora, às vezes exagero, mas no dia seguinte vou lá e peço desculpas sem dificuldade. Não consigo, por exemplo, pensar numa pessoa que eu me recuse a cumprimentar na rua.

Como é a dona de casa Iara?
Eu tenho uma auxiliar, a Jô, que está comigo há 25 anos. Ela toma conta de tudo pra mim. O Ricardo repara e gerencia a casa melhor do que eu. Fica pra mim só dar um toque, colocar umas flores, botar uma mesa bonita, fazer uma jantinha só para mim e o Ricardo. Gosto desses momentos, quando colocamos a conversa em dia, e mesmo quando ele vai para seu canto curtir um som, e eu tenho a possibilidade de ficar sozinha comigo mesma ou assistindo a um filme, coisa que gosto muito. Nunca ninguém me ensinou a ser dona de casa, cozinhar. Nem eu passei muito isso para minhas filhas. Hoje se tem muitas facilidades, pedir comida, usar os serviços de uma lavanderia… Eu faço o que eu gosto (cuido da loja), e quando se faz aquilo que se ama, é impossível não ser feliz. Gosto de vir pra loja, receber as pessoas para um chimarrão, conversar, fazer vendas com o intuito de ganhar o cliente para sempre, não apenas tendo uma grande vantagem numa única venda.

E além do trabalho, o que lhe traz prazer?
Adoro estar em contato com a natureza, vamos muito à praia durante o ano todo. Amo ir a Santa Catarina, sou apaixonada pelo mar. Acho que se não tivessem surgido tantas responsabilidades cedo na minha vida, eu teria me tornado uma surfista. Mesmo assim, pratico stand up paddle, adoro andar de caiaque. Vivo muito o hoje, o agora, não sou de pensar muito no futuro. Não tenho receio de nada. Eu dou muita risada, até das minhas coisas difíceis. Já comentei que sou estabanada, uma vez saí na Padre Chagas em Porto Alegre calçando uma bota de cada cor e até com diferença de salto. Também estava com um casaco de franjas, e percebi que as pessoas me olhavam muito. Pensei que o casaco fazia sucesso. Mais tarde, no consultório de um médico, quando o Ricardo sentou na minha frente, perguntou se agora era moda usar uma bota de cada tipo. Tive tamanha crise de riso, que nem pude acompanhá-lo na consulta. Eu já fiz muita coisa desse tipo, quem me conhece sabe, mas aí rio muito de mim mesma e não me deixo abater.

E como é lidar com três filhas mulheres?
É muito bom, mesmo quando incomodam, na fase da adolescência, por exemplo. Elas têm seis, sete anos de diferença, sempre precisei muito de auxiliares para tomar conta delas, mas também carregava comigo, quando necessário, para São Paulo, Porto Alegre, nas compras para a loja. Se eu tivesse nova escolha, teria as três filhas de novo, embora elas sejam muito admiradoras e “puxas” do pai (risos). As coisas que trazem alguma preocupação fazem parte da vida.

Tem planos para o futuro?
Se as coisas seguirem igual já serei muito feliz. Não há muito como planejar as coisas. Quando menos se espera algum desafio vem, como quando a Gabriela teve um AVC. O diagnóstico inicial era de que ela teria seqüelas, ou até mesmo que a perderíamos. Eu nunca perdi a fé. Lembro de ter ajoelhado diante do médico e disse a ele que para aquela situação eu só saberia rezar, mas que eu confiava que ele fosse capaz de salvar minha filha.

E sobre a relação matrimonial, o que tem a dizer?
Passamos por muita coisa juntos, como todos os relacionamentos. Cada vez mais vejo no Ricardo o meu parceiro, para conversar, dividir problemas, curtir viagens… Ele é mais reservado, mas me acompanha e não implica com as atividades que me dão prazer, como os esportes no mar, embora ele não tire o tênis na areia (risos). Ele parece muito sério no dia a dia, mas também é bem festeiro.
Sua loja fez história com grandes desfiles beneficentes. Fale sobre isso.
Amo fazer os desfiles, e realmente foram grandes promoções, mas as coisas acabaram tomando outro rumo, os eventos se profissionalizaram e se tornaram muito dispendiosos. No entanto,nunca deixei de fazer, mesmo que menores, com menos infra-estrutura. São as fases que passamos. A própria loja já pensei em vender. O fato da Duda (filha Maria Eduarda) estar se interessando pelo negócio me deu um gás, principalmente porque ela está assumindo a parte que não gosto de fazer, o gerenciamento econômico. Se ela não seguisse comigo, não sei não. As coisas (negócios) têm que durar enquanto forem boas. As pessoas devem viver aquilo enquanto lhes der prazer, alguma coisa boa tem que retornar do teu trabalho.

E como a Iara vivencia a moda?
Alguma atenção eu tenho que dar ao que é tendência, na forma de me vestir, mas eu uso o que gosto, e o que manda é a praticidade, gosto de peças soltas, inspiração hippie, um jeans bem trabalhado, não sou muito do tradicional. Gosto de cores claras, branco principalmente, mas adoro vermelho também. Preto, embora favoreça, não uso muito. Gosto de um vestidão com cara meio indiana. Adoro roupa praiana, biquíni com uma saída de praia bem elegante. Uso até para jantar no litoral. Gosto tanto da moda praia, que pretendo ampliar o espaço na loja dedicado a esta linha.
Não sou fã de jóias, costumo usar sempre brinco de argola, mas aprecio um colar vistoso, bem colorido. Amo bota, usaria o ano todo, inclusive com short, pode ser meio perua, mas não dou bola, sou fã também de mochilas. Nunca vou me vestir mesmo como uma avó tradicional (muita risada).

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