Temperatura agora:   11.5 °C   [+]

IMAGINAÇÃO X REALIDADE

Do meu Cinicário – Cuidado! Todo líder moral de um povo tem grande chance de ser um canalha. Moralismo e canalhice são farinha do mesmo saco.

Tenho algo de matemático! Muitas vezes, me apanho conjeturando sobre as infinitas possibilidades de as coisas acontecerem. Por exemplo, quando penso em como teria sido a vida de alguém se essa pessoa tivesse tomado uma determinada atitude no lugar de outra, efetivamente, tomada. Dou exemplo! Como estaria a minha vida se eu não tivesse sido tão sincero com meu gerente na Companhia de Cigarros Souza Cruz, lá na filial de Rio Negro, Paraná, em 1971. Não estaria, aqui, escrevendo crônicas (uma alternativa terrível para mim).

Vocês sabem do que estou falando. Todos nós fazemos tais exercícios de imaginação. Para um escritor, então, esta é a mais importante das ferramentas. Até abordei este assunto no meu Cinicário de umas quatro semanas atrás, falando da liberdade que podemos imprimir à ficção e à realidade. Mas, caríssimos, a realidade é maior que a imaginação. Ela, realmente, testa nossos limites!

Pensem comigo! Qual é a possibilidade de, num dia qualquer, você chegar da escola, de ônibus, ao meio-dia, e, preparando-se para almoçar, ao trocar de roupa e dobrar as calças ouvir o barulho de algo caindo do bolso e, depois encontrar o objeto caído, uma aliança com dedicatória? Pois, aconteceu comigo em 1963 durante o curso preparatório para o vestibular no Instituto de Artes, em Porto Alegre. Antes que perguntem, a dedicatória não era para mim. Nunca lhe descobri a origem. Apenas sei que, durante muito tempo, tive comigo a aliança até transformá-la noutra joia, aproveitando o ouro. Alguém poderia sugerir: “foi ladrão que tentou bater tua carteira e perdeu!”; “alguém quis guardar a aliança e se atrapalhou com o bolso”, etc., etc. Nunca descartei nenhuma explicação. Assim mesmo, convenhamos, foi algo inusitado.

Mas o que tem isso a ver com o embate entre imaginação e realidade? Bem, suponhamos que aquele fato acontecesse outra vez! Seria estranhamente improvável, não é? Pois aconteceu. Houve alguma adaptação no roteiro, mas a história é a mesma. Na semana passada, depois de 53 anos, a realidade, novamente, cutucou minha imaginação. Desta vez foi um anel numa sacola do supermercado.

No último sábado, mexendo no armário onde guardamos sacolas já utilizadas (prontas para acondicionamento de lixo), ao pegar uma, senti algo pequeno e sólido dentro. Era um anel. Desta vez, porém, a história terminou de maneira diferente. Encontrei a dona!

É ou não é muita imaginação a realidade fazer duas vezes uma coisa tão improvável com a mesma pessoa? Acho que rende uma boa história.