Incontinência diária, por Roseli Santos

Leia a coluna da jornalista Roseli Santos, que aborda a "incontinência emocional diária" dos tempos atuais.

Incontinência diária

Incontinência é uma palavra que expressa a dificuldade ou incapacidade de reter, controlar, seja o que for. Lembramos, imediatamente, da incontinência urinária, aquela que afeta milhares de pessoas com dificuldade para “segurar o xixi”, mas hoje, especialmente, refiro-me a outro tipo de incontinência que tem atingido as pessoas, de um modo geral.

Incontinência emocional diária, eu diria, é o termo que mais se adequaria aos tempos atuais, especialmente no que se refere a uma certa descompensação sem precedentes na história da humanidade, totalmente afetada no seu modo de agir, arrogante no seu jeito de falar e equivocada na rapidez com que se expressa e emite suas opiniões empoderadas, cada vez mais, eu arriscaria dizer (sob pena de linchamento público), “politicamente corretas”.

Esse descontrole permeia de forma assombrosa nossos dias, em todas as relações, especialmente nas redes sociais, meca de uma tribo que se agiganta e que despeja diariamente, em comentários, posts e debates tão ridículos e ofensivos, quanto irrelevantes, toda a sua incapacidade de conter, reter, absorver e entender os fatos.

Incontinência que transborda em lodo e soterra a verdade, para escorrer descontroladamente no rio da ignorância. Há algo de doentio nesse mar de lama. Julgamentos sumários, certezas absolutas e um celular na mão como estopim. Eis o que basta para a mente, nebulosa, se cobrir de razão.

Tempos difíceis de intolerância e incontinência sem limites para essa gente, como eu, como você. Talvez nos falte apenas empatia; talvez um pouco mais de alegria. Quem sabe uma carta de alforria ou palavras doces, da mais pura poesia. E eu também aconselharia e até sugeriria: sorria, sorria, sorria! Assim podemos sonhar um mundo mais equilibrado, com gentileza e simpatia. Quem sabe até sem celular, uma louca e ingênua utopia.

Por isso, não me leve a mal (essa crônica não tem cunho moral). Hoje é Carnaval! E se alguém quiser beijar-te agora, quem sabe seja por uma boa intenção, por amor, euforia, carência ou solidão, ainda que a gente saiba, e precise estar atento, que há mais de mil palhaços no salão.

Por Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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