Irmãos de sangue, por Doralino Souza

Tempo Contado

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Souza, de Igrejinha.

Irmãos de sangue

As ruas estavam desertas àquela hora da madrugada então era fácil fazer o carro acelerar. Ignorou as sinaleiras, passou o túnel e seguiu pela rodovia costeando os trilhos do trem. No banco traseiro o irmão resmungava de dor. Continha os gemidos misturando realidade com o desmaio que se avizinhava. O sangue lambuzava tudo. O cheiro forte, num outro momento, teria causado náuseas em ambos, só que agora, com toda a adrenalina pulsando nas veias, isso passa despercebido. Instintivamente pisou no acelerador, curvou-se um pouco sobre o volante, olhou no retrovisor e teve certeza de que não os estavam seguindo, mesmo assim não diminuiu a velocidade. Pensou em trocar de rodovia, vai pegar a outra pista, sabe que a saída é perto da Arena do Grêmio. Indo por ali poderá se distanciar de vez da cidade.

O veículo roncou forte e subiu a pequena lomba em curva. Chegou no alto da estrada. De lá avistou as luzes das casas e prédios que lhe pareciam pequenos olhos vigilantes. Precisa se concentrar e esquecer que normalmente não gosta de dirigir à noite porque tem medo de cochilar. Andou mais uns metros e de repente foram engolidos pela escuridão, os cabos que levam energia elétrica aos postes foram mais uma vez roubados. Somente os faróis do carro alumiam o caminho. Nada pra ver através da janela. Os gemidos do irmão começam se transformar em gritos agonizantes. Tentou não dar atenção. Precisa dirigir. Seria bom se o irmão se recostasse no assento e pegasse no sono. Ou desmaiasse.

Manteve o vidro da janela abaixado. O vento no rosto era bom. Pelo menos algo de bom numa noite tão magra de contentamento. Lembrou-se do pai, a palavra contentamento era usada pelo pai com muita frequência, achou estranho lembrar-se do falecido num momento desses. O rosto de traços firmes do homem. As palavras secas dizendo pra analisar as escolhas da vida como quem procura um amor para sempre. O amor não pode chegar por chegar, precisa ser garimpado e provavelmente lapidado, o velho pai repetia. Ensaiou um sorriso ao recordar isso quase esquecendo a sina que buscou para si. Sentiu novamente a ferroada, agora mais forte. Levou a mão ao peito, na altura das costelas, lembrou-se que também está ferido. A roupa ensopada de sangue. Compreendeu enfim porque a visão estava ficando turva. Fora acertado. O diabo nunca vem sozinho, resmungou.  

Notou a mão do irmão batendo leve e desconexa sobre seu ombro. A mão miúda do irmão coberta de sangue. Preciso respirar, dizia. Pare o carro, vamos fumar, dizia a voz fraca do irmão. É preciso aceitar as regras do jogo se quiser blefar, ele refletiu sobre isso e retirou o pé do acelerador. O carro foi perdendo velocidade mais e mais até parar por completo. Desligou o motor. Os faróis ficaram acesos. Com dificuldade desceu do carro. Abriu a porta traseira e ajudou o irmão. Agora os dois gemiam forte e se ajudavam mutuamente. Sentaram-se no asfalto, as costas apoiadas na parte da frente do auto, a luz projetava sombras distorcidas. Se olharam e sorriram. Rostos sujos de sangue e choro. Os olhos num misto de medo e surpresa. Com certa dificuldade ele buscou o maço de cigarro no bolso da calça. Tirou um e o levou à boca, deu outro pro irmão. Apalpou o corpo procurando isqueiro. Não encontrou. Ficou quieto um tempo, o cigarro apagado pendendo nos beiços, depois olhou pro irmão, “Melhor não fumar, essa merda vai nos matar”, e os jogou fora. Eles riram, ensaiaram um abraço, em seguida o irmão se aquietou. Ele sentia a própria respiração doendo e ficando cada vez mais difícil. Olhou pro céu. A noite parecia bonita. É estranho como as coisas complexas podem perder a importância duma hora pra outra, analisou. A luminosidade dos faróis refletidas no asfalto, a estrada findando num breu, a calmaria da solidão. Ele resolveu que iria ouvir um blues, saborear uma tequila ou um baseado e se declarar pra mulher amada, finalmente.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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