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Isolados

Devia fazer uns trinta minutos que eu estava sob a marquise, encostado na pilastra do antigo prédio. Mantinha os braços cruzados. A noite era silêncio e as ruas desertas causavam certo desassossego. De repente, veio-me o absurdo sentimento de que as coisas poderiam melhorar e até a brisa, com prenúncio de chuva, tinha cheiro de esperança. Um carro cruzou a rua, deixando o som do motor ecoar por alguns segundos entre os prédios de poucos andares. Nisso, escutei um pigarrear. Olhei para trás, por sobre o ombro. Avistei um vulto sentado nos degraus no início da entrada do edifício. Mesmo na penumbra, notei uma mulher. Olhava-me, como olhamos os estranhos nos ônibus ou metrô.

Levantou-se, caminhou devagar até perto de mim. “Tem fogo?” perguntou, sinalizando um cigarro entre os dedos. Fiz que não com a cabeça, depois disse que havia largado o fumo, fazia um tempo. Ela sorriu e era um sorriso bonito, mostrando-sena claridade fluorescente vinda dum poste. “Também tinha parado, mas com tudo isso acontecendo, sofri uma recaída”, respondeu. Ficamos quietos. As luzes das janelas, nos prédios em frente, iam se apagando gradativamente. A madrugada se iniciara. “Que merda, né? Não aguento mais essa incerteza”, ela disse. Levou o cigarro aos lábios,enquanto apalpava o próprio corpo na tentativa de encontrar um isqueiro. “Tudo é sempre uma merda” eu respondi, “só que há momentos piores.”

Ela me olhou, em seguida olhou pro outro lado da rua. Um homem empurrava um carrinho de supermercado atulhado de papelão e badulaques. “Ei, peraí”. Gritou e sinalizou. O homem parou, espantado. Ela atravessou a rua, correndo. Alguns minutos passaram e a vi retornando. Cigarro aceso. O homem seguiu seu destino, também exibindo um cigarro, indiferente a todo o resto. “Foi uma troca justa”, falou sorrindo. Postou-se no mesmo lugar de antes e fumou calada. O rosto escondido pelas volutas de fumaça. Lá pelas tantas, ofereceu-me um. Voltei a negar, falando duma promessa feita e da vontade de cumpri-la. “Algumas promessas perdem o sentido quando enfrentamos o fim do mundo”, ela disse. Rimos.

Retirou o cigarro dos lábios e o colocou nos meus. Traguei. Senti o gosto do seu batom mais forte do que o gosto da nicotina. Soprei a fumaça para cima, pareceu-medançar enquanto se dissipava. Daí, a mulher disse o quanto se atormentava imaginando os moradores dos apartamentos vizinhos, cada qual enclausurado em pensamentos, lembranças e angustias. “Chega um dia em que toda lembrança vira alucinação e nada é mais triste do que um silêncio cheio de gritos.”Pegou o cigarro de novo. Tragou até o fim. Amaçou a bituca contra a parede e guardou no bolso. “Não tem lixeira aqui”.

Relampeou distante. Falamos da chuva necessária, do abafamento e por fim ela falou das vezes que me viu entrar e sair do prédio. Admiti não a ter notado e ela sorriu, fazendo beicinho de birra. Havia alguma coisa de frágil e elegante no porte daquela mulher. Ao mesmo tempo, havia força. Devia ter uns vinte e cinco anos. Cabelos negros ondulados. Me vi desenhando mentalmente os contornos de seu corpo sob aquelas roupas puídas. Nossos olhares se encontraram e tive certeza de que ela sabia o que eu estava pensando. Uns pingos de chuva caíram dispersos, ela se aproximou e segurou minha mão.

Quando a chuva finalmente salpicou os paralelepípedos, íamos de mãos dadas pelo estreito corredor em direção ao apartamento onde ela morava.Tinha plena convicção de que ela nunca havia me visto por ali, pois eu jamais entrara naquele prédio. Todavia, isso pouco importava. Não era necessário saber qualquer detalhe além do fato de que as pessoas estavam se distanciando cada vez mais e o isolamento que vem de dentro é o que deixa marcas profundas e doloridas.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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