Largar tudo, viajar e pagar as contas, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia artigo do jornalista Rafael Tourinho Raymundo.

Largar tudo, viajar e pagar as contas

O casal decidiu largar tudo e viajar pelo mundo com pouco dinheiro. Pelo menos, era isso que anunciava a reportagem. Só que as dicas de como tornar a aventura possível desmentiam a manchete: junte suas economias, venda seu carro e ponha sua casa para alugar.

Talvez a noção de “pouco dinheiro” seja relativa. Os caras tinham até imóvel próprio para viver de renda! Quero ver voar para a Indonésia ganhando salário mínimo ou quitando as prestações do financiamento estudantil. Difícil desapegar dos bens materiais quando não se tem qualquer bem material, para início de conversa.

Ainda assim, entendo a vontade de tirar um ano sabático e visitar países exóticos. Os entrevistados eram daquela geração que foi ensinada a trabalhar duro, acumular patrimônio e, somente então, curtir o lazer. Eles não aguardaram até a aposentadoria para viver o sonho nômade, mas tomaram a precaução de manter um apartamento em seu nome. Aí, quando o dinheiro acabasse, bastava retornar à estabilidade do lar, mesmo que fosse no interior do Rio Grande do Sul.

Dizem os gurus da Gestão de Pessoas que essa postura mudou. Os mais jovens querem aproveitar a vida enquanto trabalham. Mais que isso: escolhem um emprego não só pelo salário, mas pela possibilidade de causar um impacto positivo na sociedade. Buscam um propósito.

De novo, a realidade se mostra um pouco mais cruel. O mercado em crise não está tão interessado nas aspirações idealistas dos profissionais recém-formados. Ok, as empresas estão mais atentas a questões como sustentabilidade ambiental, igualdade de gênero e afins. O lucro pode, sim, estar associado ao bem-estar social. No entanto, nenhum empreendimento vive só de ideologias. Às vezes, tudo que o chefe precisa é de um trabalhador que faça o que tem que ser feito. O jargão corporativo chama isso de “entregar resultados”.

Eu, como muitos colegas da Comunicação, sou freelancer. Trabalho em projetos variados – alguns mais divertidos, outros mais desafiadores. Nessa lida, aprendi que meus interesses pessoais nem sempre são os interesses do cliente. E tudo bem. O contratante sabe qual é sua visão de negócio, quais objetivos pretende atingir. Se meu serviço é satisfatório para ajudá-lo na caminhada, ótimo. Do contrário, encerramos a parceria e partimos cada um para um lado.

Claro que fico feliz quando me envolvo num projeto relevante. É muito bom pensar que estamos fazendo nossa parte, mínima que seja, para contribuir com um mundo melhor. Porém, nem todas as causas nobres da Terra sustentam um profissional. No fim das contas, minha maior motivação para continuar trabalhando são os boletos que recebo todo mês. Eles continuarão a chegar independentemente de eu viver em Taquara, em Bali ou em Paris.

Certa vez, um amigo me perguntou se eu preferia trabalhar por um propósito ou escolher onde passar as férias. Com sorte, a gente consegue conciliar os dois. Com realismo, o mais provável é juntar uns trocos para “largar tudo e viajar pelo mundo com pouco dinheiro”… Até que chegue o momento de voltar, retomar a rotina e pagar as parcelas restantes das passagens aéreas.

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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