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Lua cheia quase morta, por Doralino DiSouza

Lua cheia quase morta

Durante a madrugada, olhando no céu, buscou a carícia prateada da lua grande. Naquela noite, se viu carecendo do homem para matear, para ajudar nos tratos da lida e para as coisas de marido e mulher. Essas carestias, às vezes, aninhavam-se lá no íntimo dum modo tão medonho que até dava medo. Aí era difícil mandá-las embora. Mas, precisava, já que os pequenos logo estariam despertos e não convém encontrar mãe tristonha. Eles já carregam as tristezas deles. Achou por bem sair da janela, e, devagar, como se quisesse ainda avistar alguém chegando por ali, botou corpo e olhar para dentro de casa. Por um instante, a casa lhe pareceu gigante, com enormes espaços a serem ocupados.

Sentou-se no velho sofá, perto do fogão, as brasas, mesmo em agonia, ainda doavam calor. Ela cruzou a perna esquerda sobre a direita e olhou o próprio pé dentro da chinelinha, num embalo trêmulo que não soube precisar se era bom ou ruim. Viu o bule de café no mesmo lugar que deixara. A caneca esmaltada com o resto do preto já esfriado sobre a pia. Na gaiola, o canarinho, que o guri ganhou de presente, sonolento sobre o poleiro. A caixa quase sem lenha. O relógio na parede, lembrando, lembrando, lembrando. O clarão da lua atravessando vidraças e desenhando com as sombras.   

No quarto, suas crias dormem seguras. Isto lhe basta para aquietar alma e ordenar corpo. Não é primeira nem será última noite campeando sono. Do velho sofá onde se encontra, já reclamara e saldara todas as estações do ano. Todas as fases da lua. Já escutara assobio de vento atrevido, buscando fresta para entrar. Fizera sinal da cruz, temendo trovão ou relâmpago, antes da chuvarada surrar as paredes. Também brigara com a mosquitada e o mormaço. Encontrando conforto, enfim, nas lembranças. E fortalecimento nos sorrisos e trejeitos dos pequenos.   

Resolveu levantar, deixou as chinelas defronte ao sofá só para sentir o assoalho frio sob os pés ossudos. Andou em movimentos demorados, observando móveis, louças, coisas. Ao lado da cristaleira, na mesma parede onde tem o antigo retrato de casamento dos pais numa moldura oval, ela parou em frente ao espelho. Analisou o rosto, rugas teimam em formar morada no canto dos olhos, a pele murchando, pareceu-lhe, o cabelo em desalinho. Jogou os olhos na imagem da mãe na fotografia ao lado, depois voltou ao reflexo no espelho. Retornou à foto. De volta ao espelho. “São quase iguais”, murmurou. Não soube definir se o sentimento que lhe acometeu era dessas tristezas feito terra arrasada ou apenas solidão passageira.   

La fora, a lua estava quase morta sob a invasão pontual do dia. Ela pensou como seria bom uma cortina nas janelas, pensou nos benefícios de descortinar, quando quisesse, a escuridão ou a claridade. Quem sabe, também, descortinar as saudades e o sentimento teimoso de que, assim como a lua cheia, uma pessoa, de tanto minguar, um dia há de morrer. Depois, ela ouviu um cachorro acuar bem perto da casa. Talvez seja o homem que resolvera voltar, ela arriscou o pensamento, mas aí se ateve ao resmungo que vinha do cômodo dos pequenos. Então, foi ver suas crianças, e, quem sabe, cochilar um pouquinho junto delas.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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