Manual das boas escolhas, por Jéssica Ramos

Leia o artigo da jornalista Jéssica Ramos do Jornal Panorama

Manual das boas escolhas

Com exceção do ato de acordar, a partir do momento em que nos percebemos vivos, todos os dias ao amanhecer, nos deparamos com um universo de possibilidades e, obrigatoriamente, de escolhas. A maioria delas, com o tempo, passa a ser involuntária. Mas, reparando com um pouquinho mais de calma, é evidente como, e o quanto, somos responsáveis pela reação das pessoas e do universo, em relação a nós mesmos. É automático, ou nem tanto assim.

Eu sei que pareço “viajante” por pensar nisso. Mas bastou-me ouvir o lamentar de uma senhora para me virar a chave das ideias nesse sentido. Confesso que não foi a primeira e, de longe, tenho a certeza de que não será a última vez também. O assunto das escolhas me intriga, principalmente, por que já o negligenciei bastante. Me fiz de vítima de minhas próprias escolhas quando, na verdade, eu poderia crescer. E depois chorei por perceber o tempo que perdi lamentando, em vez de reagir.

A verdade é que nem sempre acertamos. Mas essa é a graça da vida. Ninguém nasce sabendo, tampouco recebe um manual de instruções. E é quando erramos, dependendo de como encaramos a perda, o prejuízo, que transformamos a experiência em lição. E crescemos muito, às vezes mais do que poderíamos imaginar. O segredo reside no ato, simples, de recomeçar. E o recomeço pode significar muito.

Um simples levantar, lavar o rosto, agradecer por mais um dia de vida, pode ser uma conquista, principalmente quando as coisas não vão bem. Principalmente quando os sonhos dão errado, quando a demissão bate à porta, quando o carro estraga, quando o cônjuge diz que repensou a vida com outro alguém, e vai embora.. ou quando tudo isso acontece num dia só. O que de fato diferencia esse dia – diga-se caótico – dos demais são as escolhas que faremos.

Nossas escolhas não dependem da situação, da opinião alheia ou da previsão climática. Elas dependem, unicamente, de nós. E, por sorte ou azar, nós sempre teremos infinitas opções. Mesmo diante da frustração, depende da nossa escolha, esmorecer ou seguir por outro caminho; pôr um fim na oração ou então considerar que o capítulo se encerra. Virar a página e seguir. O problema é aprendermos a enxergar a situação dessa forma simples. Não permitir que as emoções nos sufoquem, que os olhos não vislumbrem as possibilidades, logo ali, à frente.

Somos nós que escrevemos a nossa história, a menos que nos tornemos omissos (e acontece bastante), passivos, e, por algum motivo, entreguemos o leme de nossa embarcação a outro alguém. Fato que pode doer mais do que uma escolha “ativa” frustrada. Enfim, a vida gira, e se gira demonstra um movimento, não à toa. É como se a própria vida nos sinalizasse a direção certa para seguir. Um manual das boas escolhas. É como se ela nos dissesse para acreditar. Fazer planos, mas viver um dia de cada vez.

É que a escolha certa é uma em milhares, e nos permite confirmá-la, ou desistir dela, todos os dias ao amanhecer. E cada vez que a elegemos, por regra, anulamos todas as outras opções. A escolha certa não é aquela que nos promove acomodação. Longe disso, a escolha certa nos exige sacrifício diário. Faz-nos questionar, ao menos 20 vezes por dia, se: “é mesmo isso que queremos da vida?” Ela nos choca com nossas fraquezas, descobre nossos defeitos mais ocultos, nos afronta.

A escolha certa é aquela que, quando estamos a titubear, nos apresenta um pequeno retrovisor, e nos transborda de orgulho, de paz e gratidão, por tê-la agarrado com força e, mesmo sem vontade às vezes, ter insistido. A escolha certa não emite garantias para o futuro, mas arquiva páginas – bem escritas – acessíveis a todos os que nos observam. A escolha certa, na maior parte dos dias e horas, é mais definida como “em obras” do que como “de férias”, e é justamente por isso que nos move com os resultados, e nos eleva sobre degraus de sabedoria.

Ouvi dizer que parar de lamentar o passado e, principalmente, mudar o rumo dos próximos passos – assumir a mudança e o objetivo – é a primeira regra para acertar o alvo. E a escolha certa costuma estar bem no centro dele.

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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