Memória Viva traz a história de Ciro Chávez Gil

Panorama publica os textos do projeto Memória Viva, que resgata a trajetória de personalidades de Taquara e região.
O Jornal Panorama publica os textos do projeto Memória Viva. A iniciativa busca resgatar histórias de pessoas da comunidade regional, lembrando suas trajetórias e aspectos marcantes. A cada 15 dias, um novo texto é publicado no site do Panorama. O projeto tem a coordenação de Paulo Wagner de Oliveira, diretor de Cultura de Taquara, responsável por realizar as entrevistas. Neste trabalho, a correção do texto foi da jornalistas Magda Rabie, as gravações de vídeo de Jeferson Guedes (Mano) e a edição de Iana Kleinkauf. O projeto já estava em andamento, com textos anteriormente publicados no Facebook. Os jornalistas Jéssica Ramos e Vinicius Linden, do Panorama, também participam do projeto.


CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Ciro Chávez Gil, nascido em 6 de julho de 1930 (88 anos), na cidade de Trinidad, capital do Departamento de Beni na Bolívia, é engenheiro agrônomo aposentado e mora em Taquara há 55 anos (desde 1963). Seu Ciro foi casado durante 55 anos com Ivone Irena Bender Chávez Gil, que faleceu em 2015, e segundo ele: “primeira, única e última”. Pai de um filho, Ricardo Chávez Gil falecido em 2011, e de duas filhas, Cláudia Chávez Willrich e Raquel Chávez Gil, avô de três netos (as) e duas bisnetas.


CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Ciro relembrou de sua infância na Bolívia, onde perdeu a mãe muito cedo, não chegando a conhecê-la. O pai esteve na “Guerra do Chaco” de 1932 a 1935 entre Paraguai e Bolívia, guerra essa que foi uma disputa territorial do Chaco Boreal, tendo como causa principal a descoberta de petróleo no sopé dos Andes. Foi a maior guerra da América Latina no século XX. Deixou um saldo de 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios mortos.

O pai de Ciro, depois de voltar da guerra constituiu outra família, sendo que o mesmo foi criado pela tia Justa, irmã da sua mãe Lucia. Ciro fez o Curso Secundário em Trinidad, sendo presidente da Federação dos Estudantes de Beni no ano de 1949. Com uma cabeça cheia de ideais ingressou na Universidade de Cochabamba no ano de 1952, e sua decepção maior foi quando o P.I.R. (Partido da Izquierda Revolucinária), partido que militava de tendência socialista, foi extinto para a formação de outras tendências da esquerda boliviana.

Os percalços da juventude de Ciro acabaram quando, no final de 1956, veio para o Rio de Janeiro estudar, trabalhar e morar com um irmão, chegando em Porto Alegre em 1958 onde se formou em Engenharia Agronômica no ano de 1960, na UFRGS.

Formado, ingressou na ASCAR (Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural), atualmente ASCAR/EMATER. De 1960 até 1963, trabalhou em Sobradinho e Bento Gonçalves. Em 1963, se radicou em Taquara, onde participou de forma ativa na assessoria e projetos na área da Agricultura e Pecuária nessa região e principalmente em Taquara. Eram atendidas por Ciro além de Taquara, as cidades de Três Coroas, Igrejinha, Parobé, Rolante, Riozinho e São Francisco de Paula.

O agrônomo foi um dos idealizadores, em 1971, no governo do prefeito José Theomar Lehnen, da 1ª Feira do Produtor, que era realizada onde atualmente é o Banrisul. Foi também um dos criadores dos CLUBES 4S (saber, sentir, saúde, servir) direcionado para preparar a juventude rural. Foi uma das principais ações da época desenvolvidas para o extensionismo rural. Eram ações, que visavam a modernização das práticas agrícolas e melhoria da qualidade de vida da população residente no interior, através de cursos e palestras.

Entre tantos projetos, Ciro relembra o de habitação rural desenvolvido pela ASCAR/EMATER, que tinha por objetivo a construção de casas para a comunidade rural. Ele salienta que Taquara foi o município brasileiro onde iniciou o programa na década de 70. Ressalta que os juros eram fixos a 10% ao ano. Outro detalhe interessante que Ciro levanta é que as casas eram construídas com banheiros, coisa que não existia no meio rural na época.

Na entrevista, conversamos sobre a bacia leiteira onde Taquara foi referência nesses anos, destacando a falta de incentivo e de políticas que trouxeram imensas dificuldades para os produtores de leite.

Ciro como engenheiro agrônomo faz uma observação técnica interessante, afirma ele que o leite é composto de 13% de matéria seca, sendo o restante de água, enquanto a carne bovina é composta de 42% de matéria seca e o restante de água (* matéria seca é a parte que resta do peso de um material, após a perda de toda a água que é possível extrair através de um aquecimento feito em laboratório).

Conforme este procedimento técnico, segundo Ciro, poderia ser criado um parâmetro para o preço do litro do leite, que corresponderia a 1/3 (30%) do quilo do boi vivo. Atualmente, o boi vivo está R$ 5,00 x 30% = R$ 1,50 o litro do leite na porteira do produtor. A capacidade profissional de Ciro é reconhecida por seus colegas e pelos produtores rurais, aos quais prestou assistência técnica durante 40 anos, ininterruptamente.

Ciro atualmente fala e se locomove com um pouco de dificuldade devido ao Mal de Parkinson, porém, continua lúcido, bem humorado e com muita experiência para passar para a nova geração.

Perguntado sobre o que ele acha dos dias atuais e da situação política, social e econômica que estamos vivenciando? Ele diz: “É hora de retomarmos os valores humanistas, investir em educação, agricultura e ter mais tolerância. Enfatiza que acredita ainda na solidariedade, e que é necessário um amadurecimento das forças democráticas e legalistas, para não cairmos em uma aventura que comprometa a cidadania e a democracia”.

Nota do entrevistador: foram quase duas horas de conversa, acompanhados pela filha Raquel. Despedimo-nos e senti a emoção daquele senhor com sangue de Índio latino-americano que me passou sabedoria, calma e esperança. Foi gratificante!

Leia mais: