Memória Viva traz a história de Claudio José Correia da Silva

Panorama passa a publicar os textos do projeto Memória Viva, que resgata a trajetória de personalidades de Taquara e região.
A partir desta sexta-feira, o Jornal Panorama passa a publicar os textos do projeto Memória Viva. A iniciativa busca resgatar histórias de pessoas da comunidade regional, lembrando suas trajetórias e aspectos marcantes. A cada 15 dias, um novo texto será publicado no site do Panorama. O projeto tem a coordenação de Paulo Wagner de Oliveira, diretor de Cultura de Taquara, responsável por realizar a entrevista. Neste primeiro trabalho, a correção do texto foi da jornalista Jéssica Ramos, do Panorama, as gravações de vídeo de Jeferson Guedes (Mano) e a edição de Iana Kleinkauf. O projeto já estava em andamento, com textos anteriormente publicados no Facebook.
Claudio Correia, o pioneirismo nas bicicletas em Taquara.

Nascido em 25 de agosto de 1928, natural de Taquara, este personagem do Memória Viva comemorou, em 2018, nove décadas, sendo que uma parte significativa delas foi “mexendo” com bicicletas. Fazendo do ciclismo, além de uma paixão, uma fonte de renda. Filho de Oscar Correia da Silva e Ida Correia da Silva; viúvo há 52 anos, de Jurema Iracema da Silva (falecida em 3 de julho 1986); pai de Cesar Correia da Silva (falecido com nove anos, em 1964) e Julio Correia da Silva; avô de Daniel, Yasmin, Esdras; e bisavô de Lívia. Conheça agora a história de Claudio José Correia da Silva.


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DO APRENDIZADO, UMA PAIXÃO E UM DESTINO


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Claudio cresceu em Taquara, na residência da família, localizada na rua Carlos Kroeff, “Morro da Formiga”. O pai era ferroviário e, por esse motivo, mudou para Pelotas em 1930, permanecendo na cidade até 1940, com a família. Durante esse período, o irmão mais velho de Claudio, Carlos Valdemar Correia da Silva, trabalhou com a reforma e venda de bicicletas. “Comprava bicicletas usadas, reformava, e depois as vendia”, conta ele, lembrando que ajudava o irmão a tocar o negócio e, tão logo, “pegava gosto”.

Em 1940, a Viação Férrea transferiu o pai de Claudio para Taquara, onde ele e a família ficaram definitivamente. Claudio estudava no turno da manhã e à tarde trabalhava em sua oficina caseira, na rua Carlos Kroeff, consertando e reformando bicicletas. “Nessa época não existia ninguém que consertava bicicletas, por isso as pessoas vinham até a minha casa”, relembra.

CARREIRA E PIONEIRISMO

Sete anos após ser transferido (1947), Oscar, pai de Claudio, veio a falecer. Dois anos mais tarde, Claudio começou a trabalhar em uma oficina mecânica, mas manteve a oficina de bicicletas, onde trabalhava nas horas de folga e finais de semana. Segundo ele, não dispensava o trabalho com as bicicletas e, sentindo que era isso mesmo que queria, logo fez da oficina ciclística a principal fonte de renda.

“Neste período as bicicletas eram poucas na região, e a procura começava aumentar muito. Porém, o custo ainda era caro em comparação aos ganhos da população”, conta. Percebendo o cenário, Claudio iniciou um projeto pioneiro na região. Isso no início da década de 50. “Montei e reformei 10 bicicletas, e coloquei-as na Praça da Bandeira, em frente à antiga Rodoviária, para alugar. Muitos alugavam para levar para casa, ou simplesmente para mostrar que sabiam andar de bicicleta. Outros pedalavam até a casa das namoradas. O pessoal do interior também participava. Alugavam as bicicletas e levavam até os conhecidos que não conseguiam vir à cidade, ver a novidade”, relata.

Para melhorar o acesso dos clientes, Claudio mudou-se para a rua Guilherme Lahm, próximo à avenida Sebastião Amoretti. Conta que a sala onde mantinha a loja era pequena e, como ele pretendia casar, sentia necessidade de encontrar um espaço mais amplo. Nesta mesma época, a irmã de Claudio tinha um “instituto de beleza”, na rua Júlio de Castilhos, em frente ao atual shopping. “Conversamos sobre a situação e ela me contou que a dona do imóvel, onde ela tinha o instituto, possuía outras oito salas para alugar junto ao endereço. Consultei a proprietária e logo estava tudo resolvido. Aluguei quatro salas, onde consegui organizar minha loja, oficina, e também moradia”, disse.

A CONQUISTA DOS PRIMEIROS BENS E O DESENVOLVIMENTO FAMILIAR

Com a questão resolvida, Claudio casou-se com a noiva Jurema em 1954. Juntos, administraram a loja, fazendo do negócio uma empresa familiar. “Naquela época tentei comprar o imóvel, mas a dona não quis vender. Tinha problemas com herdeiros”.  Então ele passou a procurar por um imóvel na “Rua Grande” (Júlio de Castilhos). “Foi quando fiquei sabendo que o Artuino Arsand queria vender esse prédio onde estou até hoje. Na verdade esse imóvel havia pegado fogo. Ficou totalmente danificado. Mas eram dois terrenos”, destacou.

Interessado, Claudio procurou Artuino. “Ele disse que queria 150 contos de réis, e que na “Rua Grande” só vendia à vista. Respondi que não tinha todo o dinheiro e não poderia comprar. Ele me aconselhou a juntar o valor e procurá-lo depois. Foi o que fiz. No final do ano consegui os 150 contos de réis e fizemos a escritura do imóvel”.

Após adquirir o terreno, Claudio conta que permaneceu no imóvel em que residia, em função da necessidade de construir uma nova moradia no terreno recém comprado, que se somava à falta de recursos financeiros para realizar a obra. “Procurei o prefeito Henrique Vidal Kohlrausch (1956 – 1959), na época, para consultar que tipo de construção era permitida no centro. Ele me afirmou que só era permitido sobrado. Tive que suspender a ideia de construir, pois não tinha condições de atender aos moldes”, relata.

No entanto, o trabalho de Claudio fez toda a diferença na questão. Era ele quem consertava as bicicletas dos pedreiros que faziam obras na cidade. Entre eles estava seu Antonio Teixeira. “Falei para ele que gostaria de construir, mas não estava fácil de fazer a obra da forma que era exigida. Antonio falou que poderia construir, e faríamos o acerto aos poucos, de acordo com as condições que eu pudesse pagar”, conta Claudio, lembrando que iniciaram a construção em 1958. “Logo em seguida, em 1960, me mudei para a nova casa. Mas continuamos a construção nos anos seguintes”, disse.

HISTÓRIA É MARCADA POR PERDAS E CONQUISTAS

Nesta época, ano de 1964, acontece uma tragédia envolvendo o filho primogênito do casal. César tinha nove anos. Emocionado, Claudio relata que o acidente aconteceu em função da obra da casa. “Comprávamos cal “virgem”, que precisava ser “queimado” antes de ser misturado com o cimento nas construções. Nos fundos do terreno, os pedreiros fizeram um buraco onde colocavam uma grande quantidade de cal para ser queimado. Acontece que ao lado existia uma parreira de uvas, e meu filho, junto com um amigo, foi brincar no local. César resvalou e caiu com as duas pernas no fosso de cal. O amigo puxou ele para fora e o levaram, na hora, para o hospital”, descreve.

Segundo ele, o filho ficou uma semana no hospital de Taquara. Mas, sentindo que a situação não melhorava, Claudio transferiu-o para o Hospital Santo Antônio, onde Cesar acabou falecendo após uma semana. Apesar da tristeza da perda, Claudio e Jurema tocaram a vida e, logo em seguida, tiveram um segundo filho, Julio Correia da Silva. Julio trabalha atualmente no mesmo prédio onde tudo começou. Endereço onde mantém um escritório de assessoria na área de informática.

Em 1965, o comerciante de bicicletas sentiu que estava “abrindo um novo filão no mercado”. Os consórcios. Recorda que a Auto-Lucipa, na época revendedora da Volkswagen e das motocicletas Honda, em Taquara, operava com consórcios para veículos e motos. Informou-se e soube que “o sr. Moacir Rangel, era o responsável pelo consórcio”. Procurou Moacir e propôs que criassem o primeiro grupo de consórcio de bicicletas da região. E assim foi. Em 1965, foi criado o primeiro grupo de consórcio desses moldes.

“Este grupo teve mais de trinta participantes. O primeiro sorteado foi o sr. Theobaldo Scherer, de Três Coroas. O consórcio ficou em atividade até 1995. Entregou mais de 700 bicicletas, durante este período”, lembra. Claudio também foi pioneiro na modalidade de crediários, com um número maior de parcelas. Foi o primeiro comerciante que vendia em carnê de 10 parcelas.

Ele afirma que quebrou um paradigma sobre o comércio no Centro, pois a zona considerada comercial vinha só até a esquina do Banrisul, na Júlio de Castilhos. E, da esquina do Banrisul até o Colégio Santa Teresinha, a zona era considerada de moradia. “Na época me chamaram de louco pelo fato de abrir um comércio naquele local. Mas, eu sabia que o meu negócio era diferente. Eu já tinha uma clientela formada que me procurava desde a época que eu trabalhava em casa”, disse ele, lembrando que o que parecia loucura, acabou dando certo.

OUTRAS MEMÓRIAS VIVAS DE CLAUDIO

  • Claudio Correia foi revendedor e assistente técnico da Monark, de 1961 até 2006, quando encerrou suas atividades por problemas de saúde;
  • Em 1977, Claudio organizou o 1º Passeio Ciclístico de Taquara, que mais tarde tornou-se uma marca do ciclismo na cidade. O último organizado por ele foi em 1998.

Em 1986, novamente a vida trazia mais um momento de dificuldade para ele. A esposa, companheira de vida e de trabalho, Jurema, acabou falecendo, após resistir a um câncer. Mais uma vez, Claudio buscou no trabalho e na família a força para continuar. Porém em 2006, após quatro safenas e troca de uma válvula do coração viu-se obrigado a encerrar as atividades profissionais.

Da cidade, ele lembra muitas histórias. “Os kerbs na região duravam três dias ininterruptos, a Festa do Divino passava a bandeira nas casas, recolhendo donativos para a festa anual. Havia também o trem, os passeios”. Lamenta não terem deixado nenhum vestígio da história da viação férrea, que julga ter sido muito importante para Taquara. “Em um final de semana, eu e minha esposa colocamos nossas bicicletas no trem, aqui na Estação Férrea de Taquara, e fomos até Canela. De lá descemos de bicicleta até Três Coroas, onde passamos a noite na casa dos pais dela e no outro dia viemos embora para Taquara. A estrada era de chão batido”, descreve.

Lúcido e simpático, Claudio ainda anda de bicicleta e participa de passeios ciclísticos, sendo o ciclista mais idoso que participa desse tipo de evento esportivo na região. Sua casa é recheada de histórias e lembranças que ele guarda, como troféus e fotos. Tudo identificado e datado por ele. Um homem franciscano, sem luxo, mas ainda cheio de ideias e vida.

Nota do entrevistador e escritor: Foi uma manhã gratificante, onde aprendi uma lição de vida, de um homem que acreditou no trabalho e nunca desistiu. Um pioneiro, um visionário, que com sua honestidade e simplicidade se tornou uma marca do comércio taquarense. Um modelo a ser seguido. Obrigado seu Claudio!

Uma curiosidade para os leitores: Foi através da iniciativa dele, que aos dezoito anos de idade, eu, Paulo consegui comprar minha primeira bicicleta. Uma Caloi 10.

 Informações sobre o processo de queimar cal, descrito no texto: Adiciona-se água ao cal e mistura-se. Este processo é lento. Há grande desprendimento de calor, o que pode provocar graves queimaduras se for manuseado de forma incorreta. Essa técnica é conhecida como “queimar” o cal.